terça-feira, 29 de novembro de 2011

"Análise" - Poema de Fernando Pessoa



Imagem de Sarolta Bán



Análise


Tão abstrata é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo. 


Fernando Pessoa 



Imagem de Sarolta Bán



Pensamento


"Educação nunca foi despesa. Sempre foi investimento com retorno garantido."


(Arthur Lewis)

William Arthur Lewis (Castries, 23 de Janeiro de 1915 — Bridgetown, 15 de Junho de 1991) foi um economista britânico. Foi laureado com o Prémio Nobel da Economia em 1979, juntamente com o norte-americano Theodore Schultz, pelos seus estudos sobre o desenvolvimento económico e pela construção de um novo modelo descritivo das relações comerciais entre os países menos e mais desenvolvidos. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

"Adeus" - poema de Eugénio de Andrade


Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Dance at Bougival, 1882–1883



Adeus 


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, 
e o que nos ficou não chega 
para afastar o frio de quatro paredes. 
Gastámos tudo menos o silêncio. 
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, 
gastámos as mãos à força de as apertarmos, 
gastámos o relógio e as pedras das esquinas 
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras 
e não encontro nada. 
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro! 
Era como se todas as coisas fossem minhas: 
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! 
e eu acreditava. 
Acreditava, 
porque ao teu lado 
todas as coisas eram possíveis. 
Mas isso era no tempo dos segredos, 
no tempo em que o teu corpo era um aquário, 
no tempo em que os meus olhos 
eram peixes verdes. 
Hoje são apenas os meus olhos. 
É pouco, mas é verdade, 
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras. 
Quando agora digo: meu amor..., 
já se não passa absolutamente nada. 
E no entanto, antes das palavras gastas, 
tenho a certeza 
de que todas as coisas estremeciam 
só de murmurar o teu nome 
no silêncio do meu coração. 
Não temos já nada para dar. 
Dentro de ti 
não há nada que me peça água. 
O passado é inútil como um trapo. 
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa”

"Gosto quando te calas" - Poema de Pablo Neruda





Gosto quando te calas 


Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longínquo e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.



Pablo Neruda 

domingo, 27 de novembro de 2011

"Não és tu" - Poema de Almeida Garrett

Évariste Carpentier, Promenade en bord de mer (Menton, 1888)



Não és tu 


Era assim, tinha esse olhar, 
A mesma graça, o mesmo ar, 
Corava da mesma cor, 
Aquela visão que eu vi 
Quando eu sonhava de amor, 
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo, 
O semblante pensativo, 
E uma suave tristeza 
Que por toda ela descia 
Como um véu que lhe envolvia, 
Que lhe adoçava a beleza. 

Era assim; o seu falar, 
Ingénuo e quase vulgar, 
Tinha o poder da razão 
Que penetra, não seduz; 
Não era fogo, era luz 
Que mandava ao coração. 

Nos olhos tinha esse lume, 
No seio o mesmo perfume, 
Um cheiro a rosas celestes, 
Rosas brancas, puras, finas, 
Viçosas como boninas, 
Singelas sem ser agrestes. 

Mas não és tu... ai!, não és: 
Toda a ilusão se desfez. 
Não és aquela que eu vi, 
Não és a mesma visão, 
Que essa tinha coração, 
Tinha, que eu bem lho senti.

in 'Folhas Caídas



Michael Bolton - Said I Loved You... But I Lied


"Resgate" - Poema de Pedro Homem de Mello


Adriaen van der Werff (Dutch painter, 1659–1722), Self portrait, 1699



Resgate 


Não sou isto nem aquilo 
É o meu modo de viver 
É, às vezes, tão tranquilo 
Que nem chega a dar prazer... 

Todavia, onde apareço, 
Logo a paz desaparece 
E a guerra que não mereço 
Dá princípio à minha prece. 

És alegre? Vês-me triste? 
Por que não te vais embora? 
Quem é triste é porque é triste. 
E quem chora é porque chora. 

Tenho tudo o que não tens 
Tenho a névoa por remate. 
Sou da raça desses cães 
Em que toda a gente bate. 

Só a idade com o tempo 
Há-de vir tornar-me forte. 
A uns, basta-lhes o vento... 
Aos Poetas, basta a morte. 
 in "Eu Hei-de Voltar um Dia"



Ray Charles - "I Can't Stop Loving You"


sábado, 26 de novembro de 2011

"Ode à Poesia" - Poema de Miguel Torga


Jeff Rowland (Painter of Rain)



Ode à Poesia 


Vou de comboio...
Vou
Mecanizado e duro como sou 
Neste dia; 
— E mesmo assim tu vens, tu me visitas! 
Tu ranges nestes ferros e palpitas 
Dentro de mim, Poesia! 

Vão homens a meu lado distraídos 
Da sua condição de almas penadas; 
Vão outros à janela, diluídos 
Nas paisagens passadas... 
E porque hei de ter eu nos meus sentidos 
As tuas formas brancas e aladas? 

Os campos, imprecisos, nos meus olhos, 
Vão de braços abertos às montanhas; 
O mar protesta contra não sei quê; 
E eu, movido por ti, por tuas manhas, 
A sonhar um painel que se não vê! 

Porque me tocas? Porque me destinas 
Este cilício vivo de cantar? 
Porque hei de eu padecer e ter matinas 
Sem sequer acordar? 

Porque há de a tua voz chamar a estrela 
Onde descansa e dorme a minha lira? 
Que razão te dei eu 
Para que a um gesto teu 
A harmonia me fira? 

Poeta sou e a ti me escravizei, 
Incapaz de fugir ao meu destino. 
Mas, se todo me dei, 
Porque não há de haver na tua lei 
O lugar do menino 
Que a fazer versos e a crescer fiquei? 

Tanto me apetecia agora ser 
Alguém que não cantasse nem sentisse! 
Alguém que visse padecer, 
E não visse... 

Alguém que fosse pelo dia fora 
Neutro como um rapaz 
Que come e bebe a cada hora 
Sem saber o que faz... 

Alguém que não tivesse sentimentos, 
Pressentimentos, 
E coisas de escrever e de exprimir... 
Alguém que se deitasse 
No banco mais comprido que vagasse, 
E pudesse dormir... 

Mas eu sei que não posso. 
Sei que sou todo vosso, 
Ritmos, imagens, emoções! 
Sei que serve quem ama, 
E que eu jurei amor à minha dama, 
À mágica senhora das paixões. 

Musa bela, terrível e sagrada, 
Imaculada Deusa do condão: 
Aqui vou de longada; 
Mas aqui estou, e aqui serás louvada, 
Se aqui mesmo me obriga a tua mão!




"Poema do Silêncio" - de José Régio


Georgia O'Keeffe, From the lake, 1924



Poema do Silêncio 


Sim, foi por mim que gritei. 
Declamei, 
Atirei frases em volta. 
Cego de angústia e de revolta. 

Foi em meu nome que fiz, 
A carvão, a sangue, a giz, 
Sátiras e epigramas nas paredes 
Que não vi serem necessárias e vós vedes. 

Foi quando compreendi 
Que nada me dariam do infinito que pedi, 
- Que ergui mais alto o meu grito 
E pedi mais infinito! 

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas, 
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas 
Que, sem rumo, 
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo... 

O que buscava 
Era, como qualquer, ter o que desejava. 
Febres de Mais, ânsias de Altura e Abismo, 
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo. 

Que só por me ser vedado 
Sair deste meu ser formal e condenado, 
Erigi contra os céus o meu imenso Engano 
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano! 

Senhor meu Deus em que não creio! 
Nu a teus pés, abro o meu seio 
Procurei fugir de mim, 
Mas sei que sou meu exclusivo fim. 

Sofro, assim, pelo que sou, 
Sofro por este chão que aos pés se me pegou, 
Sofro por não poder fugir. 
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir! 

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação! 
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...) 
Senhor dá-me o poder de estar calado, 
Quieto, maniatado, iluminado. 

Se os gestos e as palavras que sonhei, 
Nunca os usei nem usarei, 
Se nada do que levo a efeito vale, 
Que eu me não mova! que eu não fale! 

Ah! também sei que, trabalhando só por mim, 
Era por um de nós. E assim, 
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade, 
Lutava um homem pela humanidade. 

Mas o meu sonho megalómano é maior 
Do que a própria imensa dor 
De compreender como é egoísta 
A minha máxima conquista... 

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros 
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros, 
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á, 
E sobre mim de novo descerá... 

Sim, descerá da tua mão compadecida, 
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida. 
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome 
Saciarão a minha fome. 


in 'As Encruzilhadas de Deus'



Yanni - The Storm


"Intimidade" - Poema de José Saramago





Intimidade 


No coração da mina mais secreta, 
No interior do fruto mais distante, 
Na vibração da nota mais discreta, 
No búzio mais convolto e ressoante, 

Na camada mais densa da pintura, 
Na veia que no corpo mais nos sonde, 
Na palavra que diga mais brandura, 
Na raiz que mais desce, mais esconde, 

No silêncio mais fundo desta pausa, 
Em que a vida se fez perenidade, 
Procuro a tua mão, decifro a causa 
De querer e não crer, final, intimidade. 


 in "Os Poemas Possíveis", 1966



Kenny G - Silhouette



"Conhece-te a ti mesmo» - toda a sabedoria se encontra concentrada nesta frase. Auto-análise, depois ação - a escola da sabedoria. Quanto mais cedo descobrir os fatos acerca da sua pessoa mais fácil será a jornada da vida. Para tirar o máximo de nós, temos de conhecer os recursos que possuímos e depois aperfeiçoá-los e utilizá-los. Pelo controle das emoções uma pessoa consegue superar quase todas as dificuldades que habitualmente estragam a vida. Sem olhar à profundidade dos seus sentimentos, à vastidão dos seus conhecimentos, o homem aparentemente completo não o é sem que tenha aperfeiçoado as suas tendências. Quem quiser melhorar os condicionalismos externos tem de começar por melhorar os internos. Quando as coisas não estão a correr bem há qualquer coisa em mim a dizer-me. Às vezes tenho de pensar muito para descobrir o erro e como corrigi-lo. Depois de resolver o problema sinto-me novamente bem. Isto prova que «O seu instinto leva-o mais longe que o seu intelecto." 


Alfred Armand Montapert, in 'A Suprema Filosofia do Homem'


"Livro de Horas" - Poema de Miguel Torga





Livro de Horas 


Aqui, diante de mim, 
Eu, pecador, me confesso 
De ser assim como sou. 
Me confesso o bom e o mau 
Que vão ao leme da nau 
Nesta deriva em que vou. 

Me confesso 
Possesso 
De virtudes teologais, 
Que são três, 
E dos pecados mortais, 
Que são sete, 
Quando a terra não repete 
Que são mais. 

Me confesso 
O dono das minhas horas. 
O das facadas cegas e raivosas, 
E o das ternuras lúcidas e mansas. 
E de ser de qualquer modo 
Andanças 
Do mesmo todo. 

Me confesso de ser charco 
E luar de charco, à mistura. 
De ser a corda do arco 
Que atira setas acima 
E abaixo da minha altura. 

Me confesso de ser tudo 
Que possa nascer em mim. 
De ter raízes no chão 
Desta minha condição. 
Me confesso de Abel e de Caim. 

Me confesso de ser Homem. 
De ser um anjo caído 
Do tal Céu que Deus governa; 
De ser um monstro saído 
Do buraco mais fundo da caverna. 

Me confesso de ser eu. 
Eu, tal e qual como vim 
Para dizer que sou eu 
Aqui, diante de mim! 


O outro livro de Job


"Deslumbramentos" - Poema de Cesário Verde





Deslumbramentos 


Milady, é perigoso contemplá-la, 
Quando passa aromática e normal, 
Com seu tipo tão nobre e tão de sala, 
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade, 
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas, 
Eu vejo-a, com real solenidade, 
Ir impondo toilettes complicadas!..

Em si tudo me atrai como um tesouro: 
O seu ar pensativo e senhoril, 
A sua voz que tem um timbre de ouro 
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina... 
E é, na graça distinta do seu porte, 
Como a Moda supérflua e feminina, 
E tão alta e serena como a Morte!..

Eu ontem encontrei-a, quando vinha, 
Britânica, e fazendo-me assombrar; 
Grande dama fatal, sempre sozinha, 
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente, 
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo; 
Como um florete, fere agudamente, 
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo, 
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos, 
O modo diplomático e orgulhoso 
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama, 
Sem sorrisos, dramática, cortante; 
Que eu procuro fundir na minha chama 
Seu ermo coração, como um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite, 
Que hão de acabar os bárbaros reais; 
E os povos humilhados, pela noite, 
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas, 
Sob o cetim do Azul e as andorinhas, 
Eu hei de ver errar, alucinadas, 
E arrastando farrapos - as rainhas!


Cesário Verde,
 in 'O Livro de Cesário Verde'



Simply Red - If You Don't Know Me By Now

  


sexta-feira, 25 de novembro de 2011

"Pergunta" - Poema de Fernando Namora


Joseph Wopfner (1843–1927), Fischerfamilie am Chiemsee, 1927



Pergunta 


Quem vem de longe e sabe o nome do meu lugar 
e levou o caminho das conchas em mar 
e dos olhos em rio 
— quem vem de longe chorar por mim? 

Quem sabe que eu findo de dureza 
e condensa ternura em suas mãos 
para a derramar em afagos 
por mim? 

Quem ouviu a angústia do meu brado, 
sirene de um navio a vadiar no largo, 
e me traz seus beijos e sua cor, 
perdendo-se na bruma das madrugadas 
por mim? 

Quem soube das asperezas da viagem 
e pediu o pão negado 
e o suor ao corpo torturado, 
por mim? por mim? 

Quem gerou o mundo e lhe deu seu nome 
e seu tamanho — imenso, imenso, 
e em mim cabe? 


Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"



Richard Marx - Right Here Waiting




"Minhas intenções eram boas, mas enganei-me na maneira de alcançá-las. Fui um estúpido. O conhecimento me chegou tarde demais... Muito tarde me chegou a certeza de nada saber..."

(Ezra Pound)


Ezra Weston Loomis Pound (Hailey, 30 de outubro de 1885 — Veneza, 1 de novembro de 1972) foi um poeta, músico e crítico literário americano que, junto com T. S. Eliot, foi uma das maiores figuras do movimento modernista da poesia do início do século XX. Ele foi o motor de diversos movimentos modernistas, notadamente do Imagismo e do Vorticismo .

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

"Noites de minha terra" - Poema de Florbela Espanca


Vincent van Gogh (Post-Impressionism, 1853-1890), Starry Night Over the Rhone, 1888, Musée d'Orsay, Paris.



Noites de minha terra 


Anda o luar espalhando fios de prata
Pelos campos fora ... Lírios a flux
Lança o azul do céu... e a terra grata
Transforma em mil perfumes toda a luz!

As estrelas cadentes vão espalhando
Lírios brancos também... agora a terra
Parece noiva linda, que sonhando
Caminha pró altar, além na serra...

É meia-noite agora. Tudo quieto
Na noite branda, dorme ... Entreaberto
Vai esfolhando o lírio do luar

As alvas folhas, que cobrindo o céu,
E todo o mar e toda a terra, um véu
Branco, de noiva, lembra a palpitar!.. 


Florbela Espanca
In “Trocando olhares” (1916)



Michael Bolton - How Am I Supposed To Live Without You



"Quando sinto uma terrível necessidade de religião, saio à noite para pintar as estrelas."

(Vincent Van Gogh)


"Aldeia" - Poema de Manuel da Fonseca


Mota Urgeiro, A Latada



Aldeia 


Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar,
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado. 



in Poemas Completos 



ÁUREA - Busy (for me)



Livros


"É bom quando nossa consciência sofre grandes ferimentos, pois isso a torna mais sensível a cada estímulo. Penso que devemos ler apenas livros que nos ferem, que nos afligem. Se o livro que estamos a ler não nos desperta como um soco no crânio, por que perder tempo lendo-o? Para que ele nos torne felizes, como você diz? Oh Deus, nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. Livros que nos fazem felizes, poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos. Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana – como um suicídio. Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós."




quarta-feira, 23 de novembro de 2011

"Não diga tudo o que sabe" - Sabedoria popular






Não diga tudo o que sabe


Não digas tudo o que sabes,
Não faças tudo o que podes,
Não acredites em tudo o que ouves,
Não gastes tudo o que tens,


Porque:
Quem diz tudo o que sabe,
Quem faz tudo o que pode,
Quem acredita em tudo o que ouve,
Quem gasta tudo o que tem,


Muitas vezes:
Diz o que não convém,
Faz o que não deve,
Julga o que não vê,
Gasta o que não pode.


(Sabedoria popular)



Sarah Mclachlan - In The Arms Of The Angel 


"Um livro tem que ser um machado para o mar congelado dentro de nós. 
A literatura só é digna desse nome quando descongela o sangue de quem lê."


(Franz Kafka)

 Franz Kafka (Praga, 3 de julho de 1883 — Klosterneuburg, 3 de junho de 1924) foi um dos maiores escritores de ficção da língua alemã do século XX. Kafka nasceu numa família de classe média judia em Praga, Áustria-Hungria (atual República Checa). O corpo de suas obras escritas— a maioria incompleta e publicadas postumamente — destaca-se entre as mais influentes da literatura ocidental. Seu estilo literário presente em obras como a novela A Metamorfose (1915) e romances incluindo O Processo (1925) e O Castelo (1926) retrata indivíduos preocupados com o pesadelo de um mundo impessoal e burocrático.


"Onde o Mar Falta"... Poema de Octávio Mora


Édouard Manet, Escape of Rochefort, 1881



Onde o Mar Falta


 Entreabertas as pernas, e pousada 
de leve, sobre os ombros, a cabeça, 
parecias às vezes, derramada 
no fundo, mais espessa. 

E eras líquida: vias, através 
de tua própria sombra transparente 
a luminosidade dos teus pés, 
alados. Porque ausente. 

Jamais dizias nada. Sempre tinhas 
entre os lábios, a voz silenciosa 
dos que voltam. Onda após onda, vinhas 
(e vens) misteriosa. 

Desde a profundidade, do mar. Brusco 
nas suas reacções, onde o mar falta 
sob as ondas, aí, aí te busco — 
e és, como as ondas, alta. 

Quando olho o horizonte: quando tudo 
se dissolve em si mesmo e, onda após 
onda, me calo. Vejo, e estou mudo. 
O mar na tua voz. 

Porque vias o mar (tinhas o mar 
no olhar) fechando os olhos. E defronte 
o víamos surgir. Bastava olhar, 
que tudo era horizonte. 


Octávio Mora, in 'Terra Imóvel'


Octávio Mora (1933-2012), poeta nascido na Argentina e radicado no Brasil, participou da Geração de 1945 da poesia brasileira.
Aposentou-se como professor titular de Literatura n UFRJ. Estreou em poesia com o livro Ausência viva (1956). Depois publicou Terra imóvel (1959). A esses se seguiram Corpo habitável (1967), Pulso horário (1968), Saldo prévio (1968) e Exílio urbano (1975). Também formado em Medicina, exerceu durante alguns anos a profissão de médico.



Dulce Pontes e Andrea Bocelli - O Mar E Tu 



Pensamento


"O tempo é teu capital; tens de o saber utilizar. Perder tempo é estragar a vida."


(Franz Kafka)


"Chuva" - Poema de Hermann Hesse


Pintura de Jeff Rowland



Chuva 


Chuva morna, chuva de verão
Borbulha de árvores e arbustos.
Oh! Como é bom e cheio de bênção
Uma vez mais sonhar de verdade!

Quanto tempo fiquei aqui fora,
Quão estranha essa sensação:
Habitar a própria alma,
O estranho, sem atração.

Nada quero, nada peço.
Baixinho cantarolo sons de criança,
E, surpreso, chego ao berço
Dos sonhos quentes de folgança.

Coração, como estás machucado
Porém feliz, remexendo cegamente,
Nada pensar, nada saber,
Respirar e sentir, somente.


Hermann Hesse, 
in Caminhada



Mariza - Chuva 



"Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece."

(Franz Kafka)


terça-feira, 22 de novembro de 2011

"Numa tarde de outono" - Poema de Olavo Bilac


Mauro Ferreira, Praia de Botafogo, 1830, Óleo sobre tela



Numa tarde de outono


Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...



in "Poesias"


"A Estrela"... Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Alfred Stevens, On a Stroll



A Estrela


Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava

Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava

Do frio das montanhas eu pensei
«Minha pureza me cerca e me rodeia»
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
 Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava

E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava

E assim eles disseram: «Vem connosco
se também vens seguindo aquela estrela»
Então eu soube que a estrela que eu seguia
Era real e não imaginada

Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava

E a estrela do céu parou em cima
De uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde do azul da natureza

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água
 
Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado

Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
atravessei para encontrar aquilo
que morava entre os homens e tão perto»


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962)



Nat King Cole "Unforgettable


"Cântico Negro" - Poema de José Régio


Giovanni Segantini, Love at the Fountain of Life, 1896.



Cântico Negro


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces 
Estendendo-me os braços, e seguros 
De que seria bom que eu os ouvisse 
Quando me dizem: "vem por aqui!" 
Eu olho-os com olhos lassos, 
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) 
E cruzo os braços, 
E nunca vou por ali... 

A minha glória é esta: 
Criar desumanidade! 
Não acompanhar ninguém. 
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade 
Com que rasguei o ventre à minha mãe 

Não, não vou por aí! Só vou por onde 
Me levam meus próprios passos... 

Se ao que busco saber nenhum de vós responde 
Por que me repetis: "vem por aqui!"? 

Prefiro escorregar nos becos lamacentos, 
Redemoinhar aos ventos, 
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, 
A ir por aí... 

Se vim ao mundo, foi 
Só para desflorar florestas virgens, 
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! 
O mais que faço não vale nada. 

Como, pois sereis vós 
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem 
Para eu derrubar os meus obstáculos?... 
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, 
E vós amais o que é fácil! 
Eu amo o Longe e a Miragem, 
Amo os abismos, as torrentes, os desertos... 

Ide! Tendes estradas, 
Tendes jardins, tendes canteiros, 
Tendes pátria, tendes tetos, 
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... 
Eu tenho a minha Loucura ! 
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, 
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios... 

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém. 
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; 
Mas eu, que nunca principio nem acabo, 
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! 
Ninguém me peça definições! 
Ninguém me diga: "vem por aqui"! 
A minha vida é um vendaval que se soltou. 
É uma onda que se alevantou. 
É um átomo a mais que se animou... 
Não sei por onde vou, 
Não sei para onde vou 
- Sei que não vou por aí! 


in 'Poemas de Deus e do Diabo'



Nat King Cole - When I Fall In Love



segunda-feira, 21 de novembro de 2011

"Mãe, eu estou tão cansado" - Poema de José Jorge Letria


On the Riviera by Sir John Lavery 



Mãe, eu estou tão cansado 


Mãe, eu estou tão cansado e sinto nos ossos 
o chamamento da água, o chamamento sibilino 
que se confunde com o ranger das portas das casas 
onde jamais voltarei: venha veloz o sono capaz 
de me resgatar e que dentro dele se perfilem 
as sombras e os gestos, exército dos meus medos 
mais secretos, temores enrodilhados na roupa húmida 
das camas. Mãe, a luz não se demora no meu quarto, 
morre nas corolas das flores que trouxeste 
para o riso não murchar, e eu fico doente só de olhar 
os muros onde a hera é espiral de espanto, raiz 
de uma enfermidade latente. Não voltarei 
às actas do desespero, que são sombrias e magras 
como os corpos dos amantes que definham sobre a areia 
na fúria da maré, com uma gramática de murmúrios 
escondida na solidão branca das dunas, mãe. 


José Jorge Letria, in "Actas da Desordem do Dia"



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