sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

"Acordai!" - Poema de José Gomes Ferreira


  Jean Dubuffet (1901-1985), Galeries Lafayette, France, 8 mai 1961 (Arte bruta)
 


Acordai! 


Acordai!
Acordai, homens que dormis
A embalar a dor
Dos silêncios vis!
Vinde, no clamor
Das almas viris,
Arrancar a flor
Que dorme na raiz!

Acordai!
Acordai, raios e tufões
Que dormis no ar
E nas multidões!
Vinde incendiar
De astros e canções
As pedras e o mar,
O mundo e os corações...

Acordai!
Acendei, de almas e de sóis,
Este mar sem cais,
Nem luz de faróis!
E acordai, depois
Das lutas finais,
Os nossos heróis
Que dormem nos covais.
Acordai!


José Gomes Ferreira 
(1900-1985)


José Gomes Ferreira 


José Gomes Ferreira (1900-1985) foi um escritor, poeta e ficcionista português, natural do Porto. Formou-se em Direito em 1924, tendo sido cônsul na Noruega entre 1925 e 1929. Após o seu regresso a Portugal, enveredou pela carreira jornalística. Foi colaborador de vários jornais e revistas, tais como a Presença, a Seara Nova e Gazeta Musical e de Todas as Artes. Esteve ligado ao grupo do Novo Cancioneiro, sendo geral o reconhecimento das afinidades entre a sua obra e o neorrealismo. José Gomes Ferreira foi um representante do artista social e politicamente empenhado, nas suas reações e revoltas face aos problemas e injustiças do mundo. Mas a sua poética acusa influências tão variadas quanto a do empenhamento neorrealista, o visionarismo surrealista ou o saudosismo, numa dialética constante entre a irrealidade e a realidade, entre as suas tendências individualistas e a necessidade de partilhar o sofrimento dos outros. 

Da sua obra poética destacam-se, para além do volume de estreia, Lírios do Monte (1918), Poesia, Poesia II e Poesia III (1948, 1950 e 1961, respetivamente), recebendo este último o Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores. A sua obra poética foi reunida em 1977-1978, em Poeta Militante. O seu pendor jornalístico reflete-se nos volumes de crónicas O Mundo dos Outros (1950) e O Irreal Quotidiano (1971). No campo da ficção escreveu O Mundo Desabitado (1960), Aventuras de João Sem Medo (1963), Imitação dos Dias (1966), Tempo Escandinavo (1969) e O Enigma da Árvore Enamorada (1980). O seu livro de reflexões e memórias A Memória das Palavras (1965) recebeu o Prémio da Casa da Imprensa. É ainda autor de ensaios sobre literatura, tendo organizado, com Carlos de Oliveira, a antologia Contos Tradicionais Portugueses (1958). 
Em Junho de 2000, foi lançada no Porto a coletânea Recomeço Límpido, que inclui versos e prosas de dezenas de autores em homenagem a José Gomes Ferreira.


Jean Dubuffet, Les Grandes artères, 1961 (Outsider art)


Pintor francês, Jean Dubuffet nasceu em 1901, no Havre, França. Estudou no liceu da sua cidade natal e, em 1916, ingressou na Escola de Belas-Artes da mesma cidade. Em 1918 completou a sua formação em Paris, na Academia Julian, durante seis meses, após o que se dedicou inteiramente à pintura. Os trabalhos que realizou após a Primeira Guerra Mundial constituem uma reação contra o radicalismo estético de algumas das vanguardas de inícios do século. Em 1937, abandonou a carreira artística durante cinco anos mas mais tarde retomou-a e desenvolveu trabalhos parcialmente figurativos, em que utilizou, de forma crua e rude, materiais insólitos. Estes materiais (pastas espessas, barro, asfalto, areia, etc.) são explorados a partir das suas possibilidades expressivas, procurando substituir a tradicional importância do cromatismo na definição das formas. No quadro "Banda Jazz" (1944), as figuras apresentam cores arbitrárias, aplicadas de modo pouco convencional, e são definidas pelos seus contornos, obtidos através de sulcos e mutilações da superfície da tela, num efeito próximo do graffiti.

Em 1948, Jean Dubuffet criou a Companhia da Arte Bruta, utilizando o termo Art Brut para descrever o tipo de arte criada por psicóticos, crianças ou pessoas sem formação artística, presente em inúmeras manifestações de culturas arcaicas e populares e nos graffiti. Desenvolveu então um estilo naïf, bem representado pelas telas "Gymnosophie" (1950), "The dog on the table" (1953) e pela colagem "Dimpled Cheeks", realizada em 1955, que apresenta uma personagem infantil feita com asas de borboleta.
Este sentido do primitivo, ou melhor, esta recolha das potencialidades expressivas das formas produzidas à margem do mundo sofisticado (que Dubuffet considera mais sinceras e verdadeiras que as dos artistas profissionais), na acentuação do primitivo por contraste com o civilizado, transmitia cada vez mais à sua obra um carácter ingénuo, infantil e irónico.
Embora num período inicial os seus trabalhos fossem muitas vezes motivo de escárnio por parte da crítica e do público, mais tarde foi devidamente reconhecida a importância da obra de Dubuffet, enquanto precursora de muitas correntes artísticas desenvolvidas na segunda metade do século XX (como o Expressionismo Abstrato e o Informalismo). Jean Dubuffet morreu em Paris em 1985.

Jean Dubuffet. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora
 
 
Jean Dubuffet, L'Hourloupe, 1966


"Perderei a minha utilidade no dia em que abafar a voz da consciência em mim."

(Mahatma Gandhi) 

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