sábado, 16 de junho de 2012

"A Cidade" - Poema de Ary dos Santos


Egon Schiele - Die kleine Stadt II. View of Krumau an der Moldau, 1912–1913


A Cidade

A cidade é um chão de palavras pisadas
A palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
A palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco. Um pulmão que respira
Pela palavra água pela palavra brisa.
A cidade é um poro um corpo que respira
Pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem ruas de palavras abertas
Como estátuas mandadas apear.
A cidade tem praças de palavras desertas
Como jardins mandados arrancar.

A palavra esperança é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa-chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
Não há rua de sons que a palavra não corra
À procura da sombra duma luz que não há.


José Carlos Ary dos Santos




José Carlos Ary dos Santos  (Lisboa, 7 de Dezembro de 1937 — Lisboa, 18 de Janeiro de 1984) foi um poeta e declamador português. Proveniente de uma família da alta burguesia, com antepassados aristocratas, era filho do médico Carlos Ary dos Santos (1905-1957) e de Maria Bárbara de Miranda e Castro Pereira da Silva (1899-1950).
Estudou no Colégio de São João de Brito, em Lisboa, onde foi um dos primeiros alunos. Após a morte da mãe, vê publicados pela mão de vários familiares, alguns dos seus poemas. Tinha catorze anos e viria, mais tarde, a rejeitar esse livro. Ary dos Santos revelaria, verdadeiramente, as suas qualidades poéticas em 1954, com dezasseis anos de idade. Várias poesias suas integraram então a Antologia do Prémio Almeida Garrett.
Pela mesma altura, Ary abandona a casa da família. Para seu sustento económico exerce as mais variadas actividades, que passariam pela venda de máquinas para pastilhas elásticas, até ao trabalho numa empresa de publicidade. Não cessa de escrever e, entretanto, dá-se a sua estreia literária efetiva, com a publicação de A Liturgia do Sangue (1963). Em 1969 adere ao Partido Comunista Português, com qual participa activamente nas sessões de poesia do então intitulado Canto Livre Perseguido.
Através da música chegará ao grande público, concorrendo, por mais que uma vez, ao Festival RTP da Canção, sob pseudónimo, como exigia o regulamento. Classificar-se-ia em primeiro lugar com as canções Desfolhada Portuguesa (1969), com interpretação de Simone de Oliveira, Menina do Alto da Serra (1971), interpretada por Tonicha, Tourada (1973) e Portugal no Coração (1977), interpretações do conjunto Os Amigos.
Após o 25 de Abril, torna-se um ativo dinamizador cultural da esquerda, percorrendo o país de lés a lés. No Verão Quente de 1975, juntamente com militantes da UDP e de outras forças radicais, envolve-se no assalto à Embaixada de Espanha, em Lisboa.
Autor de mais de seiscentos poemas para canções, Ary dos Santos fez no meio muitos amigos. Gravou, ele próprio, textos ou poemas de e com muitos outros autores e intérpretes. Notabilizou-se também como declamador, tendo gravado um duplo álbum contendo O Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira. À data da sua morte tinha em preparação um livro de poemas intitulado As Palavras das Cantigas, onde era seu propósito reunir os melhores poemas dos últimos quinze anos, e um outro intitulado Estrada da Luz - Rua da Saudade, que pretendia ser uma autobiografia romanceada.
Depois de falecer, a 18 de Janeiro de 1984, o seu nome foi dado a um largo do Bairro de Alfama, descerrando-se uma lápide evocativa na fachada da sua casa, na Rua da Saudade, onde viveu praticamente toda a sua vida. Ainda em 1984 foi lançada a obra VIII Sonetos de Ary dos Santos, com um estudo sobre o autor de Manuel Gusmão e planeamento gráfico de Rogério Ribeiro, no decorrer de uma sessão na Sociedade Portuguesa de Autores, da qual o autor era membro. Em 1988, Fernando Tordo editou o disco O Menino Ary dos Santos, com os poemas escritos por Ary dos Santos na sua infância. Em 2009, Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti dão voz ao álbum de tributo Rua da Saudade - canções de Ary dos Santos.
Hoje, o poeta do povo é reconhecido por todos e todos conhecem José Carlos Ary dos Santos, pois a sua obra permanece na memória de todos e, estranhamente, muitos dos seus poemas continuam actualizados. Todos os grandes cantores o interpretaram e ainda hoje surgem boas vozes a cantá-lo na perfeição. Desde Fernando Tordo, Simone de Oliveira, Tonicha, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Amália Rodrigues, Maria Armanda, Teresa Silva Carvalho, Vasco Rafael, entre outros, até aos mais recentes como Susana Félix, Viviane, Mário Barradas, Vanessa Silva e Katia Guerreiro.


Pintura de Egon Schiele


Vida e Obra de Egon Schiele
  
Photograph of Egon Schiele, 1910


Egon Schiele (Tulln an der Donau, 12 de Junho de 1890 — Viena, 31 de Outubro de 1918) foi um pintor austríaco ligado ao movimento expressionista
Nasceu no seio de uma família humilde, sendo que seu pai era um trabalhador do caminhos de ferro. Em 1905, com quinze anos, Schiele perdeu o pai por causa da sífilis. A partir dessa data ficou aos cuidados de um tio materno que reconheceu o seu valor artístico e o apoiou. No ano seguinte ingressou na Akademie der Bildenden Künste, em Viena, onde estudou desenho e pintura, em oposição à vontade de sua mãe que queria vê-lo a seguir os passos do pai. 
Em 1907, Schiele conheceu Gustav Klimt que, interessado no seu trabalho, fez dele o seu "protegido". Ajudou-o comprando os seus trabalhos, apresentando-o a pessoas influentes, arranjando-lhe modelos, entre outras coisas. 
A sua primeira exposição foi em 1908 na Klosterneuburg. Insatisfeito com o caracter conservador da academia, Schiele abandonou os estudos e, juntamente com outros colegas que partilhavam a mesma insatifação, criou o grupo Neukunstgruppe ("Grupo nova arte"). Liberto do conservadorismo, começou a explorar mais a forma humana e também a sexualidade. 
Em 1911, conheceu Valerie (Wally) Neuzil, a rapariga com dezassete anos com quem começou a viver em Viena usando-a também como modelo para alguns dos seus melhores trabalhos. Para fugirem à vida na cidade mudaram-se para Český Krumlov (Krumau). O seu estilo de vida (que incluia pintar modelos adolescentes da zona) teve um impacto negativo na população. 
Este impacto fez com que se mudassem de novo, desta vez para Neulengbach. Como estavam perto de Viena (cerca de 35 km), o seu estúdio tornou-se num ponto de encontro de crianças deliquentes. Também aqui o seu estilo de vida não era de agrado das outras pessoas. Schiele chegou mesmo a ser preso por ter seduzido uma menor. Quando os polícias o foram prender levaram também vários trabalhos que consideram pornográficos. Schiele foi preso por 21 dias, não por ter seduzido a menor, mas sim por ter alegadamente exposto trabalhos pornográficos num local acessivel a menores. 
Em 1915 Egon deixou Valerie e ficou noivo de Edith Harms, vindo a casar-se no dia 15 de Junho desse ano. Em 1918, Schiele foi convidado a participar na 49º Secessão em Viena. Teve 50 trabalhos aceites na exibição que foram postos na sala principal. Fez também o poster para a exibição, o qual era inspirado na Última Ceia, com o seu retrato no lugar de Cristo. Este acontecimento foi um tremendo sucesso tendo resultado na subida do valor económico dos trabalhos deste artista. Durante o útlimo ano da sua vida, Egon Schiele fez várias outras exposições igualmente com sucesso.
No outono de 1918, Edith, grávida de seis meses, foi uma das mais de vinte milhões vítimas da gripe espanhola, morrendo a 28 de Outubro. Três dias depois da sua morte, Schiele abandona também a sua vida. Durante estes três dias, Egon Schiele fez alguns retratos de Edith, tendo sido estes os seus últimos trabalhos.
Este grande representante do expressionismo austríaco deixou trabalhos onde estavam a representados seres humanos transfigurados por sentimentos fortes implícitos no seu traço, amantes revirados em amontoados de lençóis brancos, diversas mulheres posando para ele e autorretratos provocantes mostrando a sua visão de si (provavelmente), assim como também fez algumas paisagens e residências burguesas, nos quais exibe um estilo cuidadoso e elegante, de traços bordados, com fortes contrastes entre ocres e cores primárias.
Actualmente as suas obras mais importantes encontram-se em museus de Viena e da Suíça assim como em importantes coleções particulares.


Egon Schiele - Autorretrato, 1912


House with Shingles, 1915






 Wally (1912)


Egon Schiele - Zwei Kleine Mädchen, 1911


Mother and Two Children - 1917
















Casal de mulheres (1915), de Egon Schiele, 
Magyar Szépmüvészeti Múzeum, Budapeste.






Agony - 1912

Tod und Mädchen (Death and the Maiden), 1915










Egon Schiele - The Family - 1918



"Trabalha como se vivesses para sempre. Ama como se fosses morrer hoje." 


(Séneca) 


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