sexta-feira, 20 de julho de 2012

"Hoje, só canto para as Mulheres" - Poema de Lopes Morgado


Herbert Blande Sparks (1870-1916), A Rose from a Suitor 



Hoje, só canto para as Mulheres


Hoje,
Só canto para as Mulheres: 

As que passam na rua,
Aquelas que não saírem
Para a rua, as que se encontram
Na cozinha, no escritório,
Ao balcão, na enfermaria,
Na cadeia, no convento,
Na escola, no gabinete,
Na empresa, no sindicato,
No campo, no parlamento,
No lupanar ou na igreja, 

Orientando o tráfego dos homens,
Chorando o filho morto pelos homens
Ou o filho feito à força pelos homens,
Lavando a roupa suja dos seus homens
Ou consertando os nervos rebentados,
Pelo silêncio-garra dos seus homens, 

Essas Mães inconsoláveis
das Praças todas de Maio,
As mães de inocentes mortos
às ordens de homens-herodes, 

As mães fiéis junto às cruzes
Que homens-pilatos ergueram,
Mulheres, Mães, virgens-loucas
De todos os noivos-machos,
Primas, amigas, vizinhas
De casa, de luta e sonho,
De raiva, de crença e vida,
Companheiras, inimigas,
Minhas irmãs, minha Mãe. 

São Mulheres? Hoje basta.
É dia oito de Março:
Dia de eu pagar a renda
à Mulher-Mãe desta casa
Para onde há muitos anos
Mudei ao deixar a sua.
Por isso é que eu hoje canto
Só para as Mulheres: na rua
Ou noutro lado qualquer. 

Salve, Mulher e Mãe! Amén!
E seja o que Deus quiser. 


Lopes Morgado 
(Areias de Vilar, Barcelos, 23/4/1938), 
Sacerdote / Frei da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos,
professor, escritor, poeta, jornalista.



Herbert Blande Sparks (1870-1916) - Mother and child in the garden


Herbert Blande Sparks, Untitled


Herbert Blande Sparks, Garden Path


Herbert Blande Sparks, Portrait of a classical beauty on a bed of roses before a pond


Herbert Blande Sparks, Family in the Garden



Herbert Blande Sparks 


"Só o bem neste mundo é durável, e o bem, politicamente, é todo justiça e liberdade, formas soberanas da autoridade e do direito, da inteligência e do progresso." 


(Ruy Barbosa) 


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