sexta-feira, 6 de julho de 2012

"Praia" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Pintura de Luís Noronha da Costa 



Praia 


Os pinheiros gemem quando passa o vento
O sol bate no chão e as pedras ardem.

Longe caminham os deuses fantásticos do mar
Brancos de sal e brilhantes como peixes.

Pássaros selvagens de repente,
Atirados contra a luz como pedradas,
Sobem e morrem no céu verticalmente
E o seu corpo é tomado nos espaços.

As ondas marram quebrando contra a luz
A sua fronte ornada de colunas.

E uma antiquíssima nostalgia de ser mastro
Baloiça nos pinheiros.


Sophia de Mello Breyner Andresen




Galeria de Luís Noronha da Costa

Sem título, 1970
























Sem título, 1969, tinta celulósica sobre platex, 60 x 80 cm



Objeto 67

Luís Noronha da Costa 


Luís Noronha da Costa nasceu em Lisboa em 1942. Fez o curso de arquitetura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. Expôs individualmente pela primeira vez em 1962 (Lisboa, Paris, Munique); em 1966 expôs no Salão de Maio, SNBA, Lisboa, e no ano seguinte realizou uma mostra individual na Galeria Quadrante, Lisboa. Em 1969 participou na Bienal de S. Paulo e foi-lhe atribuído o Prémio Soquil pela sua atuação na época de 1968-69; aos 27 anos de idade Noronha da Costa "reúne […] um consenso crítico e público muito alargado"  no panorama artístico português.
As suas primeiras obras de relevo eram sobretudo colagens "em que se identificava uma procura imagética de caráter poético, o que logo depois se traduziu pelo emprego de folhas de revistas ilustradas impregnadas de óleo de modo a trazer ao mesmo plano os seus anverso e reverso numa imagem dupla e ambígua […]. Seguidamente […] dedicou-se à construção de objetos, nos quais o emprego de espelhos e vidros despolidos produz efeitos espaciais inéditos", com o cruzamento entre os espaços real e virtual (Objeto 67).
Sensivelmente a partir de 1969 fixa os parâmetros da sua obra pictórica posterior, frequentemente realizada com pistola de spray. "A orientação metafórica que caracteriza as pesquisas de Noronha da Costa traduziu-se […] numa pintura de imagens (por vezes copiadas de quadros clássicos) como vistas através de um écran desfocante [Sem título, 1969]. A indefinição da imagem é assim […] expressa, numa situação neorromântica que vai às fontes fantasmagóricas do surrealismo"  "As imagens parecem […] ir entrando aos poucos num processo de desmaterialização […]; os seus quadros funcionam como écrans e, por isso, as imagens assumem-se sempre, contra qualquer naturalismo, como afirmação de uma pura virtualidade, isto é, de um espaço em que todo o acontecimento dá lugar (ou protagoniza) a um espaço potencial. São por assim dizer, imagens de imagens. E por serem assim é que nelas se aloja um princípio sistemático de distância, ou de eco" .
De um modo mais sistemático e apaixonado do que outros, trabalha intensamente "o conjunto de questões que se colocam à pintura ocidental depois da falência do discurso unitário do classicismo", fixando-se num "pensamento discursivo dominado por características românticas: fragmentar, descentrado e subjetivo, individualista, em deriva e apaixonado, múltiplo e obsessivo, muitas vezes irónico e crítico". Irá abordar uma imagética que toma esse formulário em consideração: na sua pintura veremos surgir, por exemplo, "mares solitários avançando sobre praias desertas, mulheres e crianças de penteados e vestidos oitocentistas, veleiros, céus cenográficos e de coloridos intensos" .
A sua obra não se circunscreve às artes plásticas, estendendo-se à área do cinema: "além de cinéfilo, Noronha da Costa foi cineasta, autor de alguns dos poucos e dos mais significativos filmes experimentais da vanguarda portuguesa".
Ao longo dos anos participou em inúmeras mostras coletivas, nomeadamente na Bienal de Veneza de 1970 (representação portuguesa), e Alternativa Zero (1977); expôs individualmente de forma regular em Portugal e no estrangeiro, destacando-se a sua longa colaboração com a Galeria Nasoni, a retrospetiva de 1983 na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, e a exposição de 2003-04 no Centro Cultural de Belém, Lisboa.
Em 1999 foi-lhe atribuído o Prémio Europeu de Pintura pelo Parlamento Europeu e em 2003 venceu o Prémio AICA, Lisboa.


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