quarta-feira, 4 de julho de 2012

"Viver sempre também cansa" - Poema de José Gomes Ferreira


Georges Seurat, "A Sunday on La Grande Jatte", 1884-1886



Viver sempre também cansa


Viver sempre também cansa. 

O sol é sempre o mesmo e o céu azul 
ora é azul, nitidamente azul, 
ora é cinzento, negro, quase-verde... 
Mas nunca tem a cor inesperada. 

O mundo não se modifica. 
As árvores dão flores, 
folhas, frutos e pássaros 
como máquinas verdes. 

As paisagens também não se transformam. 
Não cai neve vermelha, 
não há flores que voem, 
a lua não tem olhos 
e ninguém vai pintar olhos à lua. 

Tudo é igual, mecânico e exato. 

Ainda por cima os homens são os homens. 
Soluçam, bebem, riem e digerem 
sem imaginação. 

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe, automóveis de corrida…

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano morrer por um bocadinho,
de vez em quando, e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas por mim, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com o teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...


José Gomes Ferreira, in 'Viver Sempre também Cansa'
Porto, 9 de Junho de 1900 - Lisboa, 8 de Fevereiro de 1985
Foi um escritor e poeta português



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