quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Adeus... de João Cabral do Nascimento






Adeus 


Manhãs serenas, pálidos
Dias sem sol, enevoados céus,
Opacas noites de perfumes cálidos,
Vejo tudo isso e digo adeus. 

Frutos doirados, flores de estuante viço,
Rochas, praias, ilhéus,
Ondas do mar azul… Vejo tudo isso
E digo adeus. 

Que importa que este fosse o meu desejo,
Se o envolveu a sombra de pesados véus?
A vida existe para os outros. Vejo
Tudo isso, e digo adeus. 

E porque é tarde, e estou cansado, sigo
A estrada do regresso; e quando volvo os meus
Olhos, além, vejo tudo isso e digo:
Adeus! 


João Cabral do Nascimento




Flores do campo


























«Que valem triunfos que não têm data? Que valem, na verdade? É a certeza da data que imprime realidade às coisas que, sem essa certeza encarnadora, apenas passadas, se desfariam na diafaneidade e impalpabilidade do Tempo. Todo o nosso viver consiste num rolo de sonhos que se vão desprendendo de nós, fugindo para trás como o fumo de uma tocha que corre, depressa adelgaçados, logo esvaídos. São as datas que prendem, retêm esses sonhos: nelas ficam imóveis, em torno delas se condensam, por elas ganham forma e duração». 

Eça de Queirós



Rufus Wainwright - Across The Universe


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