domingo, 28 de outubro de 2012

"Febre" - Poema de Al Berto


Cruzeiro Seixas, 1977, Sem título -  Pintor Surrealista Português


febre

sopra um vento pelo peito do mareante – vento
cinzento capaz de apagar os gestos que restam e
de limpar os passos incertos pelas ruas do cais

vento
um vento que te sacode as veias os tendões
faz vibrar os músculos e a mastreação – como a árvore
que se desprende das entranhas do mar

corre
corre um vento pelas fissuras da pele – vento
de pó enferrujado abrindo feridas nos animais vivos
colados à memória onde
uma serpente mergulhou no sangue e
desata a fulgurar

sopra um vento pelo peito do mareante
desperta a florescência pálida do plâncton – varre
a noite e lava as mãos dos condenados à morte

corre um vento
vento de febre – sismo de orquídeas que acalma
quando acendes a luz e abres as asas
vibras e
levantas voo

Al Berto


Al Berto - Alberto Raposo Pidwell Tavares (1948 - 1997) 



BIOGRAFIA 
de 
Al Berto 

Al Berto - Alberto Raposo Pidwell Tavares nasce em Coimbra a 11 de Janeiro de 1948. No ano seguinte já está em Sines, onde passa parte da infância e adolescência. Poucos conhecem o seu lado escultórico, mas os amigos de infância ainda recordam os "bonecos" em argila que esculpia em casa, muito antes da António Arroio. Teve sempre um ar extremamente irreverente para o seu tempo. Filho de família da alta burguesia de origem britânica extraordinariamente conservadora, na sua adolescência, traja de modo displicente de calças de ganga e ténis rotos, para escândalo geral. Terá sido a primeira afirmação da sua diferença intelectual. Al Berto frequentou diversos cursos de artes plásticas, em Portugal e em Bruxelas, onde se exilou em 1967. A partir de 1971 dedicou-se exclusivamente à literatura. 
Estreou-se com o título «À Procura do Vento num Jardim d'Agosto», 1977. A sua poesia retomou, de algum modo, a herança surrealista, fundindo o real e o imaginário. Está presente, frequentemente, uma particular atenção ao quotidiano como lugar de objectos e de pessoas, de passagem e de permanência, de ligação entre um tempo histórico e um tempo individual. Posteriormente, os seus textos passam a apresentar um carácter fragmentário, numa ambiguidade entre a poesia e a prosa («Lunário», 1988; e «O Anjo Mudo», 1993). Foi distinguido em 1988 com Prémio Pen Club de Poesia pela obra «O Medo». 

"A eternidade é uma permanência da força que está dentro de nós" 

"Todos os meus livros tiveram um carácter de urgência", disse Al Berto ao jornal "Expresso" um mês antes de falecer.

«Aterrador foi ter-me apercebido o que havia neste livro de premonitório («Horto de Incêndio»). A eternidade não é lerem-me dentro de 50 ou 60 anos ou ficar na história da literatura portuguesa. Só espero que meia dúzia de doidos me leiam agora e isso os toque.» 

"Sinto-me como se tivesse cegado por excesso de olhar o mundo", em «O Medo» 

Al Berto morre de linfoma em Lisboa a 13 de Junho de 1997.


BIBLIOGRAFIA - A OBRA de AL BERTO 
«À Procura do Vento num Jardim d'Agosto». Lisboa: 1977. 
«Meu Fruto de Morder, Todas as Horas». Lisboa: 1980. 
«Trabalhos do Olhar». Lisboa: Contexto, 1982. 
«O Último Habitante». Lisboa, 1983. 
«Salsugem». Lisboa: Contexto, 1984. 
«A Seguir o Deserto». Lisboa: & etc., 1984. 
«Três Cartas da Memória das Índias». Lisboa: 1985. 
«Uma Existência de Papel». Porto: Gota d'Água, 1985. 
«O Medo»(Trabalho Poético 1974-1986). Lisboa: Contexto, 1987. 
«O Livro dos Regressos». Lisboa: Frenesi, 1989. 
«A Secreta Vida das Imagens». Lisboa: Contexto, 1991. 
«Canto do Amigo Morto». Lisboa: 1991. 
«Luminoso Afogado». Lisboa: Salamandra / Casa Fernando Pessoa, 1995. 
«Horto de Incêndio». Lisboa: Assírio & Alvim, 1997. 
«O Medo». Lisboa: Assíro & Alvim, 1998. 
Deixou incompletos textos para uma ópera, para um livro de fotografia sobre Portugal e uma «falsa autobiografia», como o próprio autor a intitulava. 
«Lunário». Lisboa: Contexto, 1988. 
«O Anjo Mudo». Lisboa: Contexto, 1993




Cruzeiro Seixas - Dormitório


Cruzeiro Seixas - O Segredo, 1959, técnica mista sobre papel


Obra de António Pedro - Pintor surrealista português


Obra de António Pedro



Vida e Obra do Pintor D'Assumpção

Pintura de D'Assumpção


D'Assumpção, Sem título, 1950


D'Assumpção,  Abstracção, 1960


Pintura de D'Assumpção


Pintura de D'Assumpção


Pintura de D'Assumpção


Pintura de D'Assumpção


Pintura de D'Assumpção


Pintura de D'Assumpção


Manuel Trindade D’Assumpção (Lisboa, 24 de Abril de 1926 - Lisboa, 21 de Julho de 1969) foi um pintor surrealista português.
Em 1934 parte para Portalegre, juntamente com a irmã e a madrasta. Inicia os seus estudos de pintura e fotografia com o pai, Luís D’Assumpção, e com Miguel Barrias, um pintor expressionista de talento. 
Em 1947, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, partiu para Paris onde se tornou discípulo de Fernand Léger, tendo depois estudado História da Arte com Jean Cassou no Louvre. Conheceu Atlan e Hains, pintores líricos, e António Maria Lisboa, que se tornou a sua única amizade definitiva e tutelar e de quem pintou um retrato. A morte do poeta, em 1953, causou-lhe grande impressão. 
Isolou-se em Portalegre, onde realizou para um café local um quadro, "Último Bailado" - Homenagem a Paul Éluard (1955), depois de numerosos quadros surrealistas, que desapareceram. Em 1958, regressa a Lisboa, disposto a expor, como acontece no Salão de Outono da S.N.B.A., onde, ao apresentar o quadro intitulado Génesis, que o critico José Augusto França elogiou num artigo no Diário de Noticias, atraiu as atenções do público mais esclarecido, conquistando rapidamente um núcleo de admiradores. Ainda no mesmo ano é premiado em Vila Real, sendo-lhe adquirido um quadro para o Museu de Arte Contemporânea. 
A sua pintura desta época apresenta grandes arquitecturas abstractas retalhadas, onde os contrastes de cores e de valores luminosos sugerem dinamicamente uma profundidade pura. Trata-se, numa primeira aproximação, de uma pintura cujo espaço ambíguo está próximo do da pintura da Escola de Paris, nomeadamente a de Alfred Mannessier e a de Bertholle, não sendo porém alheia à ambição surrealista de um Paalen. Em breve esta ambição do surreal leva D’Assumpção a conjugar estas arquitecturas com grandes figuras transparentes de intenção cabalística ou com sugestões de esferas e planos dinâmicos, em alusão simbólica ao cosmos. Alguns títulos são indicativos desta ambição poética: Génesis (1958), Mística (1958), Espaço-Deus (l960), etc. 
Em várias declarações, o próprio D’Assumpção não se considerava um artista, mas um médium. Em 1950, escreveu: "Quem disser que eu sou um artista está enganado. A pintura que faço não é minha, mas obra de um enorme Deus, que eu não vejo e que raramente cai em mim." Mais tarde, dizia aos seus amigos: "Pense bem, não é artista quem quer, embora todos tenham a liberdade de o querer; só é artista quem é." 
Inegavelmente bem apetrechado tecnicamente e vivendo quotidianamente o desespero da sua ambição criadora, D’Assumpção impressionou fortemente alguns pintores e poetas, mas o seu convívio difícil aumentou a sua solidão. Suicidou-se em 1969 com 43 anos de idade.
Em Portugal, encontra-se representado no Museu Municipal de Portalegre, Museu Nacional de Arte Contemporânea, Fundação Calouste Gulbenkian, Biblioteca-Museu Municipal de Albano Sardoeira, em Amarante, e Biblioteca da Câmara Municipal de Matosinhos.


Bond - Explosive

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