sábado, 6 de outubro de 2012

"O poema" - de Herberto Helder


Lover's Walk by Gustave Léonhard de Jonghe (Belgian, 1829-1893) 



O poema

VII

A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.

Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.

Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.

É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. É Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
- Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.

- Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.

O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.

- A manhã começa a colocar o poema na parte
mais límpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.

Herberto Helder






Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira (Funchal, São Pedro, 23 de Novembro de 1930) é um poeta português de ascendência judaica, pai do jornalista Daniel Oliveira.
Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo trabalhado em Lisboa como jornalista, bibliotecário, tradutor e apresentador de programas de rádio. Viajou por diversos países da Europa realizando trabalhos corriqueiros, sem nenhuma relação com a literatura e foi redactor da revista Notícia em Luanda, Angola, em 1971, onde sofreu um acidente grave. 
É considerado um dos mais originais poetas vivos de língua portuguesa. É uma figura misantropa, e em torno de si paira uma atmosfera algo misteriosa uma vez que recusa prémios e se nega a dar entrevistas. Em 1994 foi o vencedor do Prémio Pessoa que recusou. 
A sua escrita começou por se situar no âmbito de um surrealismo tardio. Escreveu "Os Passos em Volta", um livro que através de vários contos, sugere as viagens deambulatórias de uma personagem por entre cidades e quotidianos, colocando ao mesmo tempo incertezas acerca da identidade própria de cada ser humano (ficção); "Photomaton e Vox", é uma colectânea de ensaios e textos e também de vários poemas. "Poesia Toda" é o título de uma antologia pessoal dos seus livros de poesia que tem sido depurada ao longo dos anos. Na edição de 2004 foram retiradas da recolha suas traduções. Alguns dos seus livros desapareceram das mais recentes edições da Poesia Toda, rebatizada Ofício Cantante, nomeadamente Vocação Animal e Cobra. 
A crítica literária aproxima sua linguagem poética do universo da Alquimia, da mística, da Mitologia edipiana e da Imago da Mãe.





Galeria de Gustave Léonhard de Jonghe 


Gustave Leonhard de Jonghe (Bélgica, 1829-1893) foi um pintor de retratos, motivos históricos, bem como cenas familiares, tendo sido premiado com medalhas de ouro em Amsterdam (1862) e em Paris (1863).
Sua grande especialidade foram os retratos femininos: mulheres bonitas em sedas preciosas, tendo como fundo decoração requintada, davam-lhe a oportunidade de exercitar com grande talento sua habilidade pictórica e detalhista.



Gustave Léonhard de Jonghe,  Girl with a rose


Gustave Léonhard de Jonghe, The Convalescent


Gustave Léonhard de Jonghe


Gustave Léonhard de Jonghe, The Letter


Gustave Léonhard de Jonghe


Gustave Léonhard de Jonghe


Gustave Léonhard de Jonghe


Gustave Léonhard de Jonghe, Lazy Afternoon


Gustave Léonard de Jonghe, A Playful Moment


Gustave Léonard de Jonghe, Aprés Le Bain


Gustave Léonard de Jonghe, Kind Heart


Gustave Léonard de Jonghe, Meditation


Gustave Léonard de Jonghe, Sunday Morning


Gustave Léonard de Jonghe


Gustave Léonard de Jonghe, The Convalescent


Gustave Léonard de Jonghe


Gustave Léonard de Jonghe


Gustave Léonard de Jonghe


Gustave Léonard de Jonghe, The Letter


Gustave Léonard de Jonghe


Gustave Léonard de Jonghe


Gustave Léonard de Jonghe, The Afternoon Visit


Gustave Léonhard de Jonghe, Idle Moments 


Gustave Léonhard de Jonghe


Gustave Léonhard de Jonghe, Preparing for the ball


Gustave Léonhard de Jonghe, Music Lesson - Oil on Canvas







Nat King Cole - Pretend


Nat King Cole, nome artístico de Nathaniel Adams Coles, (Montgomery, 17 de março de 1919 — Santa Mônica, 15 de fevereiro de 1965) foi um cantor e músico de jazz norte-americano, pai da cantora Natalie Cole. O apelido de "King Cole" veio de uma popular cantiga de roda inglesa conhecida como Old King Cole. Sua voz marcante imortalizou várias canções, como: Mona Lisa, Stardust, Unforgettable, Nature Boy, Christmas Song, "Quizás, Quizás, Quizás", entre outras. A sua revolucionária formação em piano, guitarra e baixo  tornou-se popular na música de jazz.
Nat King Cole aprendeu a tocar piano na igreja onde seu pai era pastor. Desde criança ele esteve ligado à música, tocando junto ao coral da mesma igreja. 
Cole lutou contra o racismo durante toda a sua vida, sempre recusando-se a cantar em plateias com segregação racial. Por ter um hábito de fumar diariamente três maços de cigarro, o cantor morreu vítima de câncer. Encontra-se sepultado no Forest Lawn Memorial Park (Glendale)Los Angeles, nos Estados Unidos. Um de seus últimos trabalhos foi no filme Cat Ballou, onde canta a balada da personagem título, interpretada por Jane Fonda.




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