domingo, 6 de janeiro de 2013

"A Caridade" - Poema de João de Deus


Pintura de Arthur Hughes



A Caridade 


Eu podia falar todas as línguas 
Dos homens e dos anjos; 
Logo que não tivesse caridade, 
Já não passava de um metal que tine, 
De um sino vão que soa. 

Podia ter o dom da profecia, 
Saber o mais possível, 
Ter fé capaz de transportar montanhas; 
Logo que eu não tivesse caridade, 
Já não valia nada! 

Eu podia gastar toda afortuna 
A bem dos miseráveis, 
Deixar que me arrojassem vivo às chamas; 
Logo que eu não tivesse caridade, 
De nada me servia! 

A caridade é dócil, é benévola, 
Nunca foi invejosa, 
Nunca procede temerariamente, 
Nunca se ensoberbece! 

Não é ambiciosa; não trabalha 
Em seu proveito próprio; não se irrita; 
Nunca suspeita mal! 

Nunca folgou de ver uma injustiça; 
Folga com a verdade! 

Tolera tudo! Tudo crê e espera! 
Em suma tudo sofre! 



João de Deus,
in 'Campo de Flores'





 
João de Deus 


Poeta e pedagogo, João de Deus de Nogueira Ramos nasceu a 8 de março de 1830, no Algarve, e morreu a 11 de janeiro de 1896, em Lisboa.
Depois de ter frequentado, durante dez anos, o curso de Direito em Coimbra (onde foi uma das figuras mais destacadas da boémia estudantil da época e se relacionou com alguns elementos da Geração de 70, sobretudo Antero de Quental e Teófilo Braga), de ter dirigido em Beja, entre 1862 e 1864, o jornal O Bejense (onde publicou muitas das suas primeiras poesias), e de ter iniciado a prática de jurisconsulto, foi eleito deputado, em 1868, por Sines. Mudou-se para Lisboa, onde continuou a frequentar ambientes de boémia literária. Colaborou em vários jornais e revistas, como O Académico, Anátema, O Ateneu, Ciências, Artes e Letras, O Fósforo, Gazeta de Portugal, A Grinalda, Herculano, Prelúdios Literários e Revista de Coimbra. Por volta de 1868-1869, coligiu as suas poesias no volume Flores do Campo, a que se seguiram Ramo de Flores (1869), Folhas Soltas (1876), Despedidas do verão (1880) e Campo de Flores (1893). No seguimento da sua nomeação para o cargo de comissário-geral do ensino da leitura, viria a desempenhar um papel social e cultural da maior distinção, revelando-se decisivos os seus esforços para a alfabetização de camadas cada vez mais alargadas da população portuguesa. A publicação, em 1876, da célebre Cartilha Maternal, método de ensino da leitura verdadeiramente revolucionário no panorama pedagógico nacional, constituiu um marco importante desse processo. Devido, em parte, à sua ação de pedagogo, em 1895 foi agraciado com várias homenagens à escala nacional, entre as quais a de sócio-honorário da Academia Real das Ciências e do Instituto de Coimbra.
Como poeta, João de Deus situou-se num momento em que a via ultrarromântica estava já a esgotar-se, mas, apesar do apreço que lhe manifestavam autores como Antero de Quental, não se identificou com as preocupações filosóficas e sociais da Geração de 70. De facto, a temática dominante da sua obra poética afastou-o da nova corrente. O seu lirismo intimista versa constantemente sobre o amor, e por vezes perpassa um sentido de plácida religiosidade, exprimindo-se sempre num estilo simples. A sua obra abrange vários géneros, da ode à elegia, do epigrama à fábula, passando pelo soneto. João de Deus, que Antero considerava, já em 1860, "o poeta mais original do seu tempo", defendeu e praticou um lirismo depurado, inspirado, a exemplo de Garrett, na lírica tradicional portuguesa e na obra camoniana, de onde recuperaria o soneto como um dos seus géneros de eleição.

João de Deus. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-01-06].

  


Galeria de Arthur Hughes

Arthur Hughes, c.1859

Arthur Hughes (27 de janeiro de 1832 - 22 de Dezembro de 1915), foi um pintor e ilustrador Inglês associado com a Irmandade pré-rafaelita. Ele é o tio do pintor Inglês Edward Robert Hughes

An 1851 selfportrait of Arthur Hughes

Arthur Hughes


Arthur Hughes


Arthur Hughes


Arthur Hughes


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 Arthur Hughes


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