terça-feira, 30 de abril de 2013

"O Jardim"... Poema de António Ramos Rosa


Paul Sérusier - O Talismã (1888)



O Jardim 


Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas, 
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes. 
Sequências de convergências e divergências, 
ordem e dispersões, transparência de estruturas, 
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas. 

Geometria que respira errante e ritmada, 
varandas verdes, direções de primavera, 
ramos em que se regressa ao espaço azul, 
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem 
composta pelo vento em sinuosas palmas. 

Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio. 
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena. 
Sou uma pequena folha na felicidade do ar. 
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis. 
É aqui, é aqui que se renova a luz. 





Galeria de Paul Sérusier 
Paul Serusier - Le Tisserand (1888) 


Paul Sérusier - La barrière fleurie, Le Pouldu (1889) 

Paul Sérusier - Printemps au Pouldu (1890)


Paul Sérusier - Ferme au Pouldu (1890)


Paul Sérusier - Solitude (1891)


Paul Sérusier - Ève Bretonne ou Mélancolie, vers 1891, Musée d'Orsay, Paris. 


Paul Sérusier - Laundresses at the River 1892, Musée d'Orsay, Paris


Paul Sérusier - Deux bretonnes sous un pommier en fleurs (1892)


Paul Sérusier - L'averse 1893, Musée d'Orsay, Paris


Paul Sérusier - Boys on a River bank, 1906


Paul Sérusier - Landscape 1912, Musée d'Orsay, Paris



Photo of Paul Sérusier


Paul Sérusier (1864—1927) foi um pintor pós-impressionista francês.
Estudou na Academia Julian e foi monitor na mesma instituição em meados da década de 1880. No Verão de 1888 viajou para Pont-Aven e juntou-se a um grupo de jovens artistas liderados por Paul Gauguin.
Entretanto, em Pont-Aven, o artista pinta O Talismã, sob a supervisão de Gauguin. Sob influência dos dois, formou-se o grupo pós-impressionista Les Nabis. Pierre Bonnard, Edouard Vuillard e Maurice Denis tornaram-se os mais conhecidos do grupo, mas à época, a sua influência no grupo era periférica.
Trabalhou, finalmente, na Académie Ranson e publicou o seu livro ABC de la peinture em 1921.
Paul Sérusier teve uma influência reconhecida na arte pós-impressionista, e é lembrado como um dos grandes pintores vanguardistas franceses do início do século XX e um dos mais influentes na pintura da época, mesmo que ele próprio estivesse bastante influenciado por Gauguin. A sua principal obra, O talismã, reflete essa influência. O seu trabalho, e o dos seus companheiros, antecedeu o fauvismo.


Paul Sérusier - L'Incantation ou Le Bois Sacré (1914)

Amo! ... de J. G. de Araújo Jorge




Odilon Redon - Espírito da Floresta, 1890


Amo!



Amo a terra! Amo o sol! Amo o céu! Amo o mar!
Amo a vida! Amo a luz! Amo as árvores! Amo
a poesia que escrevo e entusiasta declamo
aos que sentem como eu a alegria de amar!


Amo a noite! Amo a antiga palidez do luar!
A flor presa aos cabelos soltos de algum ramo!
Uma folha que cai! Um perfume no ar
onde um desejo extinto sem querer inflamo!


Amo os rios! E a estranha solidão em festa,
dessa alma que possuo multiforme e inquieta
como a alma multiforme e inquieta da floresta!


Amo a cor que há nos sons! Amo os sons que há na cor!
E em mim mesmo - amo a glória de sentir-me um Poeta
e amar imensamente o meu imenso amor!


J. G. de Araújo Jorge


(José Guilherme de Araújo Jorge (Tarauacá, 20 de maio de 1914 - Rio de Janeiro, 27 de janeiro de 1987), mais conhecido como J. G. de Araújo Jorge, foi um poeta e político brasileiro
 
 
 
 
 

Galeria de Odilon Redon


Odilon Redon - A Árvore




Odilon Redon - Anêmonas e Lilases em Vaso Azul




Odilon Redon - Bouquet de flores




Odilon Redon - Bouquet de flores num vaso




Odilon Redon - Vase of poppies




Odilon Redon - Composição: Flowers, sem data, coleção particular




Odilon Redon - Mistério




Odilon Redon - Roger e Angelica, c. 1910




Odilon Redon - Roger e Angelica, 1909 
 
 
 
Odilon Redon - The Chariot of Apollo
 
 
 
Odilon Redon - Sita, c. 1893 

"Fraga e Sombra" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Odilon RedonBusto de Homem dormindo no meio de Flores



Fraga e Sombra


A sombra azul da tarde nos confrange.
Baixa, severa, a luz crepuscular.
Um sino toca, e não saber quem tange
é como se este som nascesse do ar.

Música breve, noite longa. O alfanje
que sono e sonho ceifa devagar
mal se desenha, fino, ante a falange
das nuvens esquecidas de passar.

Os dois apenas, entre céu e terra,
sentimos o espetáculo do mundo,
feito de mar ausente e abstrata serra.

E calcamos em nós, sob o profundo
instinto de existir, outra mais pura
vontade de anular a criatura.





Odilon Redon, Roger and Angelica, 1910-1912


"Procurem ver o mundo como na verdade ele pode ser visto, como um lugar maravilhoso, que, à semelhança de um jardim, podemos cultivar e tornar ainda melhor. Procurem ter a humildade de um jardineiro experiente, de um jardineiro que sabe que muitas das suas tentativas não irão ser bem sucedidas."
Karl Popper (1983)


Karl Raimund Popper (Viena, 28 de Julho de 1902 — Londres, 17 de Setembro de 1994) foi um filósofo da ciência austríaco naturalizado britânico. É considerado por muitos como o filósofo mais influente do século XX a tematizar a ciência. Foi também um filósofo social e político de estatura considerável, um grande defensor da democracia liberal e um oponente implacável do totalitarismo.
Ele é talvez mais conhecido pela sua defesa do falsificacionismo como um critério da demarcação entre a ciência e a não-ciência, e pela sua defesa da sociedade aberta.
Nascido numa família de classe alta de origem judaica secularizada, foi educado na Universidade de Viena. Concluiu o doutoramento em filosofia em 1928 e ensinou numa escola secundária entre 1930 e 1936. Em 1937, a ascensão do Nazismo levou-o a emigrar para a Nova Zelândia, onde foi professor de filosofia em Canterbury University College, Christchurch. Em 1946, foi viver na Inglaterra, tornando-se assistente (reader) de lógica e de método científico na London School of Economics, onde foi nomeado professor em 1949. Foi nomeado cavaleiro da Rainha Isabel II em 1965, e eleito para a Royal Society em 1976. Reformou-se da vida académica em 1969, apesar de ter permanecido activo intelectualmente até à sua morte, em 1994. Recebeu a insígnia de Companheiro de Honra (Companion of Honour) em 1982.
Popper recebeu vários prémios e honras no seu campo, incluindo o prémio Lippincott da associação americana de ciência política, o prémio Sonning, e o estatuto de membro na sociedade real, na academia britânica, London School of Economics, Kings College de Londres, Darwin College de Cambridge e o  Prémio Kyoto (1992).



Odilon Redon - Decorative Pannels


Odilon Redon - Coquille, 1912 


Odilon Redon - Bazon, the artist's cat


Odilon Redon Buda, 1904


Odilon Redon - São João, 1892




Odilon Redon - São Sebastião, 1910-1912             Odilon Redon - O Nascimento de Vênus, 1912


"Labirinto ou não foi nada" - Poema de David Mourão Ferreira


Odilon Redon, Portrait of Violette Heymann, 1910. Pastels, 72 x 92 cm



Labirinto ou não foi nada


Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua. . .
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.


David Mourão Ferreira 



Galeria do pintor Odilon Redon


Odilon Redon, autorretrato, 1867


(Bertrand-Jean Redon, conhecido como Odilon Redon (Bordeaux, 20 de abril de 1840 — Paris, 6 de julho de 1916) foi um pintor e artista gráfico francês, considerado o mais importante dos pintores do Simbolismo, por ser o único que soube criar uma linguagem plástica particular e original.) 


 Odilon Redon - Moça


 Odilon Redon - Perfil e Flores


 Odilon Redon Senhora das Flores


 Odilon Redon - Beatrice, 1885


 Odilon Redon - Flores


 Odilon Redon Evocação,  coleção particular


 Odilon Redon - Nuvens Flor, 1903 


 Odilon Redon - Ophelia, 1900-1905 


 Odilon Redon - Ophelia among the flowers, 1905-1908


sábado, 27 de abril de 2013

"Posso escrever os versos mais tristes" - Poema de Pablo Neruda


The Watercarrier, Eugene de Blaas, 1908



Posso escrever os versos mais tristes


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.


Pablo Neruda 



Eugene de Blaas, The Serenade, 1910 - Oil on canvas


Eugene de Blaas, The Flirtation, 1904


Eugene de Blaas, The Love Letter, 1904


Eugene de Blaas, Flirtation at the Well, 1902


O artista Eugene de Blaas também conhecido como Eugenio De Blaas ou Eugen von Blaas, nasceu em 24 de julho na cidade italiana de Albano, perto de Roma, em 1843, de pais austríacos. Sua carreira foi enriquecida por uma família talentosa e artística. Seu pai, Carl von Blaas (1815-1894), professor na Academia de Roma e na Academia de Veneza, foi um dos retratistas mais notáveis ​​da sociedade romana. Seu irmão mais novo, Júlio, também foi um pintor, dedicado principalmente aos animais e questões militares.
 Em todas as academias que frequentou, Eugene de Blaas cultivou preciosos prémios, mas foi em Veneza que  se destacou e se estabeleceu como um pintor de óleo, líder do género Venetian e também em aquarelas. Seu tema favorito foi o quotidiano do povo veneziano. Pintava com técnica apurada e cores vibrantes que demonstram seu total domínio na arte do retrato. Ele descreveu cenas que eram características de Veneza, como os pescadores locais, belas mulheres cercadas por gondoleiros e a arquitetura maravilhosa. Retratou o charme e a elegância de Veneza, apostando na pele, cabelos, rendas, bordados e outras texturas macias.
Visitou a Bélgica, Viena, França e viveu na Inglaterra por um tempo. Entre 1875 e 1892, também se exibiu na “Royal Academy”, na Galeria de Grafton e na Galeria Nova em Londres. Apresentou-se em muitas coleções particulares e nos museus de Leicester, Melbourne, Nottingham, Sheffield Sydney e Viena. Eugene de Blaas morreu no dia 10 fevereiro, na cidade italiana de Veneza, em 1932.


Eugene de Blaas, Sur le Balcon, 1877


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