segunda-feira, 1 de abril de 2013

"Esta noite morrerás" - Poema de Ana Hatherly


(O quadro representa a amante de Picasso, Marie-Thérèse Walter, nua e reclinada.)



Esta noite morrerás


Esta noite morrerás. 
Quando a lua vier tocar-me o rosto 
terás partido do meu leito 
e aquele que procurar a marca dos teus passos 
encontra urtigas crescendo 
por sobre o teu nome. 
Esta noite morrerás. 
Quando a lua vier tocar-me o rosto 
terás partido do meu leito 
e uma gota de sangue ressequido 
é a marca dos teus passos. 
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio 
e na casa do tempo a hora é adorno. 
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca 
o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo 
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome. 
Constante. 
O mar é isso. 
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo 
por sobre o teu nome. 
O mar é tu morreste. 
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu partiste 
e no meu leito crescem folhas sangue. 
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua 
e a opacidade do mar. 
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um 
prisma, um girassol em panóplia. 
Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres 
partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus 
passos por sobre o meu rosto. 
A noite é eu procurar a marca dos teus passos. 
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações 
de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito 
é o teu rosto iminente. 
A lua é uma seta. 
Tu partiste é o silêncio em forma de lança. 
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier 
tocar-me o rosto vou uivar como um lobo. 
Vou clamar pelo teu sangue extinto. 
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos, 
a tua língua solta. 
O teu ventre, lua. 
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que 
o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto. 
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço 
um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca 
dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de 
noite e urtigas crescerem no meu leito. 
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe 
o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão 
mágica de tu poderes morrer-te. 
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro 
para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos 
teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado. 
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de 
tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto. 


in “Poesia 1958-1978”



Pablo Picasso, Sleeper near the shutters, 1936



"Como disse uma velha cantora argentina, com o tempo, a gente se despede lentamente das coisas conhecidas. Por isso o criador não envelhece: constantemente inventa novas imagens de abertura para espaços que não se conhecem."


Ana Hatherly, in Tisanas


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