domingo, 19 de maio de 2013

"Perseverança" - Poema de Alexander Search (Heterónimo de Fernando Pessoa)


Carl Svante Hallbeck, Cromolitografia mostrando ao fundo a aurora boreal (1856).



Perseverança

Não digas que o trabalho é desperdiçado,
Nem que o esforço falha ou parece, no fundo;
Não digas que aquele ao dever curvado
É um entre os tantos sonhos do mundo.

Pois não é em vão que em golpes seguidos,
Com pressa medida, em fragor crescente,
O mar actua nos rochedos batidos
E invade a praia, ruidosamente.

É certo que enfrentam suas investidas,
Do seu bater forte parecem troçar,
Esmagam com força as vagas erguidas
E em espuma fazem as ondas rasgar.

Mas ele bate e bate com força
Em dias, semanas, em meses e anos,
Até que apareça mossa sobre mossa
Que mostre seus gastos, pacientes ganhos.

E os anos passam, as gerações vão,
E menores se quedam as rochas cavadas;
Mas ele, com lenta e firme precisão,
Baterá na terra suas altas vagas.

Certo como o sol e despercebido
Como duma árvore é o seu crescer,
Trabalha, trabalha sem ser iludido
P'la tenaz imagem que se pode ver.

E quando o seu fim de todo obtém,
Em sonoro embate, p'ra fender, se lança,
Seu poder imenso ainda mantém
E, inda mais além, nas águas avança.


Alexander Search
, in "Poesia"
 Heterónimo de Fernando Pessoa


Alexander Search é um dos vários heterónimos criados pelo poeta e escritor português Fernando Pessoa. Foi criado em 1899, quando Pessoa ainda era estudante e vivia na África do Sul (1896-1905) acompanhando sua mãe e padrasto, que era diplomata. Com este nome, o poeta escrevia cartas a si mesmo, além de poemas escritos em inglês e português em 1903. Alem deste heterónimo, Pessoa criou ao longo da sua vida imensos outros, incluindo um irmão deste Alexander Search, o qual deu o nome de Charles James Search.
É possível, apesar do pouco que se conhece desta parte da obra do autor, dar a estes poemas a sua autoria: Ao Meu Maior Amigo; Fraternidade; Piedade? Não!; O Mundo; Mania da Dúvida; Quem Sonha Mais?; Dor Suprema; Morte em Vida; Sonhos; Homens do Presente; Soneto de um Céptico; Perfeição; Perseverança.



Carl Svante Hallbeck 





Carl Svante Hallbeck, Mondnacht



"A inconstância deita tudo a perder, na medida em que não deixa germinar nenhuma semente." 

Henri Amiel 


 
Henri Frédéric Amiel
Suiça
1821 // 1881
Escritor/Poeta/Filósofo


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