segunda-feira, 16 de setembro de 2013

"No País dos Sacanas" - Poema de Jorge de Sena


Carlos Botelho (1899 1982), Vista de Lisboa, 1981Serigrafia



No País dos Sacanas


Que adianta dizer-se que é um país de sacanas? 
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas, 
e todos estão contentes de se saberem sacanas. 

Não há mesmo melhor do que uma sacanice 
para poder funcionar fraternalmente 
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais, 
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias 
em que tanto se dividem e afinal se irmanam. 

Dizer-se que é de heróis e santos o país, 
a ver se se convencem e puxam para cima as calças? 
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos, 
ingénuos e sacaneados é que foram disso? 

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora. 
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice, 
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender 
que a nobreza, a dignidade, a independência, a 
justiça, a bondade, etc., etc., sejam 
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados 
a um ponto que os mais não são capazes de atingir. 

No país dos sacanas, ser sacana e meio? 
Não, que toda a gente já é pelo menos dois. 
Como ser-se então nesse país? Não ser-se? 
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia. 
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.




Carlos Botelho, Lisboa, 1962, óleo sobre tela, 54 x 76,5 cm



"Encontrou-se, em boa política, o segredo de fazer morrer de fome aqueles que, cultivando a terra, fazem viver os outros."




Alejandro Sanz - Não Me Compares ft. Ivete Sangalo




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