sábado, 12 de outubro de 2013

"Barco Negro" - Poema de David Mourão Ferreira


Frederik Sødring, Part of Møns Klint with the Sommerspiret



Barco Negro


De manhã temendo que me achasses feia,
acordei tremendo deitada na areia,
mas logo os teus olhos disseram que não
e o sol penetrou no meu coração. 

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
e o teu barco negro dançava na luz;
vi teu braço acenando, entre as velas já soltas.
Dizem as velhas da praia que não voltas:

São loucas! São loucas! 

Eu sei, meu amor, 
que nem chegaste a partir,
pois tudo em meu redor 
me diz que estás sempre comigo. 

No vento que lança areia nos vidros;
na água que canta, no fogo mortiço;
no calor do leito, nos bancos vazios; 
dentro do meu peito estás sempre comigo.


David Mourão-Ferreira



Barco Negro - Mariza (Concerto em Lisboa)


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