terça-feira, 18 de março de 2014

"Amor" - Poema de Irene Lisboa


Wols (Alfred Otto Wolfgang Schulze), Le Grand Orgasme, 1947


Amor


Aqueles olhos aproximam-se e passam. 
Perplexos, cheios de funda luz,
 doces e acerados, dominam-me. 
Quem os diria tão ousados?
 Tão humildes e tão imperiosos,
 tão obstinados!

 Como estão próximos os nossos ombros! 
Defrontam-se e furtam-se,
 negam toda a sua coragem. 
De vez em quando,
esta minha mão, 
que é uma espada e não defende nada,
 move-se na órbita daqueles olhos,
 fere-lhes a rota curta, 
Poderosa e plácida.

Amor, tão chão de Amor, 
que sensível és...
 Sensível e violento, apaixonado. 
Tão carregado de desejos!

 Acalmas e redobras 
e de ti renasces a toda a hora. 
Cordeiro que se encabrita e enfurece 
e logo recai na branda impotência.

 Canseira eterna! 
Ou desespero, ou medo. 
Fuga doida à posse, à dádiva.
 Tanto bater de asas frementes, 
tanto grito e pena perdida... 
E as tréguas, amor cobarde? 
Cada vez mais longe, 
mais longe e apetecidas. 
Ó amor, amor,
 que faremos nós de ti
e tu de nós?


Irene Lisboa 




Wols (Alfred Otto Wolfgang Schulze), La flamme, 1947




Wols (Alfred Otto Wolfgang Schulze), Bleu optimiste, 1951








Irene Lisboa


Irene Lisboa, Natal de 1917

 
 Irene Lisboa (Arruda dos Vinhos, 25 de dezembro de 1892 – Lisboa, 25 de novembro de 1958), poetisa e ficcionista, foi professora primária, realizou estudos de pedagogia na Suíça, França e Bélgica, tendo, neste domínio, publicado alguns estudos sob o pseudónimo de Manuel Soares. Colaborou em publicações periódicas como Presença, Sol Nascente, Seara Nova, Litoral e Cadernos de Poesia. Depois da publicação do volume de prosa 13 Contarelos, Irene Lisboa faz a sua verdadeira estreia no domínio das Letras portuguesas com a publicação das obras de poesia Um Dia e Outro Dia (1936) e Outono Havias de Vir (1937), sob o pseudónimo de João Falco. Obras acolhidas com louvor por uma parte da crítica, sobretudo aquela próxima de Seara Nova, e que inauguram, para José Gomes Ferreira, um novo molde de escrita poética feminina, levando "a poesia até às últimas consequências do desconcerto formal, dessacralizando-a, esvaziando-a de todos os rituais, sem contudo a banalizar nem tomar ares de revolucionária indómita" (p. 19), sendo que a "preferência não escondida pela gente do povo e o amor por certas pequeninas coisas" são alguns dos traços que lhe valeriam, na sua carreira literária, uma injusta indiferença por parte das casas editoras e da crítica mais conservadora. Do ponto de vista formal, a rutura com os cânones da lírica tradicional funda-se numa poesia de rigor novo, a uma vista inadvertida, próxima da prosa ("Achaste a forma que te convinha,/a forma boa para o teu pensamento.../metrificada ou não/mas curta, emotiva,/exclamativa. /Como tu agora escreves/pensamos nós todos/infinitas vezes." (in "Outro Dia", Um Dia e Outro Dia...); "Escrever assim... / escrever sem arte,/sem cuidado,/sem estilo,/sem nobreza,/sem lindeza.../sem maior concentração,/sem grandes pensamentos,/sem belas comparações,/não será escrever!/Mas assim me apetece,/que o entendam ou não,/que o admitam ou não,/escrever.../estender/o delgado, esfiado,/inoperante/pensamento." (in "Outro Dia" in Um Dia e Outro Dia...), impressão corroborada pela epígrafe que abre o segundo volume de versos, Ao que vos parecer versos chamai verso e ao resto chamai prosa, e que ficaria célebre na polémica - que teve como defensores, entre outros, Adolfo Casais Monteiro - para a afirmação do verso livre em Portugal. A escrita confessional, a atenção a momentos e pequenos nadas do quotidiano, a observação dos mais humildes, muitas vezes contendo implicitamente uma crítica a valores burgueses, a consciência de si mesma objetivizada no confronto com um mundo inóspito, transitarão da poesia para o volume Solidão - Notas do Punho de uma Mulher, uma obra híbrida, que se aproxima do género diarístico pela inclusão de algumas datações genéricas e por um pendor introspetivo que procura desarticular as causas de um mal-estar indefinido - dir-se-ia uma menina e moça da atualidade, obsidiada por uma tristeza omnipresente e encontrando na escrita um instrumento de autoconhecimento -, apoiando-se na memória e no registo da momentaneidade, mas que se aproxima também da novelística pela transfiguração da "experiência de observação do mundo e dos outros" (retratos, cenas) em "matéria de escrita" (cf. MORÃO, Paula - prefácio a Obras de Irene Lisboa, Lisboa, Presença, 1991). Entre a obra poética e publicação destas notas inscreve-se o volume narrativo Começa uma Vida, que, continuado em Voltar Atrás para Quê?, dá sequência, agora, sob a forma de novela autobiográfica, a um discurso do eu que se autoanalisa com lucidez e melancolia, e ao intimismo auto-reflexivo e fragmentário daqueles dois outros registos. A sua bibliografia abrange ainda obras para crianças, como Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma ou Queres Ouvir? Eu Conto - Histórias Para Maiores e Mais Pequenos se Entreterem, e coletâneas de crónicas, como O Pouco e o Muito, Esta Cidade ou Título Qualquer Serve. No que diz respeito ao género cronístico, também aí o "o sujeito aprende sobre si mesmo a partir da observação do mundo, alternando movimentos que o dobram sobre si com outros que, no exterior, lhe fornecem materiais de contraste. [...] As "vidas que me cercam", deste modo, têm um efeito de espelho amplificador da vida da narradora, assim posta na posição axial de quem faz parte de um tempo e de uma cidade." (cf. MORÃO, Paula - prefácio a Obras Completas de Irene Lisboa. Esta Cidade!, vol. V, Lisboa, Presença, 1995, pp. 10-11).

Irene Lisboa. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-03-18].


 
Irene Lisboa, Quinta dos Lacerdas Palma de Baixo, Outubro de 1933

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