segunda-feira, 26 de maio de 2014

"Os Amigos Nunca São para as Ocasiões"... de Miguel Esteves Cardoso


Charles Ginner (1878‑1952), The Café Royal, 1911



Os Amigos Nunca São para as Ocasiões


“Os amigos nunca são para as ocasiões. São para sempre. A ideia utilitária da amizade, como entreajuda, pronto-socorro mútuo, troca de favores, depósito de confiança, sociedade de desabafos, mete nojo. A amizade é puro prazer. Não se pode contaminar com favores e ajudas, leia-se dívidas. Pede-se, dá-se, recebe-se, esquece-se e não se fala mais nisso. 
A decadência da amizade entre nós deve-se à instrumentalização que tem vindo a sofrer. Transformou-se numa espécie de maçonaria, uma central de cunhas, palavrinhas, cumplicidades e compadrios. É por isso que as amizades se fazem e desfazem como se fossem laços políticos ou comerciais. Se alguém «falta» ou «não corresponde», se não cumpre as obrigações contratuais, é logo condenado como «mau» amigo e sumariamente proscrito. Está tudo doido. Só uma miséria destas obriga a dizer o óbvio: os amigos são as pessoas de que nós gostamos e com quem estamos de vez em quando. Podemos nem sequer darmo-nos muito, ou bem, com elas. Ou gostar mais delas do que elas de nós. Não interessa. A amizade é um gosto egoísta, ou inevitabilidade, o caminho de um coração em roda-livre. 
Os amigos têm de ser inúteis. Isto é, bastarem só por existir e, maravilhosamente, sobrarem-nos na alma só por quem e como são. O porquê, o onde e o quando não interessam. A amizade não tem ponto de partida, nem percurso, nem objectivo. É impossível lembrarmo-nos de como é que nos tornámos amigos de alguém ou pensarmos no futuro que vamos ter. 
A glória da amizade é ser apenas presente. É por isso que dura para sempre; porque não contém expectativas nem planos nem ansiedade.” 


Miguel Esteves Cardoso, in 'Explicações de Português'






Galeria de Charles Ginner
Malcolm Drummond (1880–1945) - Portrait of Charles Ginner, 1911 


Edward Le Bas - Portrait of Charles Ginner, 1930


Charles Ginner - Piccadilly Circus, 1912


Charles Ginner - Victoria Station, London, the Sunlit Square, 1913 


Charles Ginner - River Aire, Leeds, 1914


Charles Ginner - Roberts 8, 1916


Charles Ginner -The Dressmaking Factory, c1917 


Charles Ginner - The Church of All Souls, Langham Place, London, 1924


Charles Ginner - Claverton Street, Snow in Pimlico, 1939


Charles Ginner - Café Scene, 1939


Charles Ginner - Roof-tops, Pimlico, 1945



Citação


"No amor podemos substituir uma pessoa por outra, mas não na amizade, porque cada amigo tem o seu lugar e não podemos substitui-lo." 


António Lobo Antunes 
«Conversas com António Lobo Antunes», María Luisa Blanco (2002) 

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