quinta-feira, 17 de julho de 2014

"Dezasseis Anos, Talvez"... Poema de António Manuel Couto Viana


Ron Hicks, 1965, American Impressionist painter 



Dezasseis Anos, Talvez


Dezasseis anos, talvez. 
Vejo-a, no café, cada manhã, 
A folhear, atenta, um compêndio de inglês, 
Com um perfume a Escola e a maçã. 

Não me canso de a olhar. Às vezes, olha 
(Um velho!), num desvio de atenção, 
E logo volta a folha, 
Enquanto molha 
o bolo no «galão». 

Eu saio, com pesar, bebida a «bica». 
Ela é a minha manhã, 
Tão natural, tão clara... que ali fica. 

- Que saudades da Escola! Que fome de maçã!


António Manuel Couto Viana, in 'Café de Subúrbio'




António Manuel Couto Viana


Poeta, encenador, ator e professor, António Manuel Couto Viana, nascido a 24 de janeiro de 1923, em Viana do Castelo, foi codiretor de Távola Redonda e diretor de Graal. Os primeiros livros de poesia de Couto Viana contrapõem-se, pelo equilíbrio e rigor formais e assunção da sinceridade lírica, ao contexto da poesia portuguesa do final da primeira metade do século, que oferecia "o aspeto de um acampamento desordenado e ruidoso, com pretensas mensagens tremulando no topo de mastros mal firmados" (cf. MOURÃO-FERREIRA, David - "De "O Avestruz Lírico" Até "A Face Nua", in Uma Vez - Uma Voz, 1985, p. 12). A participação no projeto da Távola Redonda, cujo título retoma um poema de António Manuel Couto Viana, datado de 1949, e publicado no fascículo 7, integra o poeta num grupo de autores que fixam como caminho para a aventura estética a busca de uma voz "pura e verdadeira", orientada para a "revalorizaçãodo lirismo", e exigindo ao poeta "autenticidade e um mínimo de consciência técnica, a criação em liberdade e, também, a diligência e capacidade de admirar, criticamente, os grandes poetas portugueses de gerações anteriores a 1950. Sem reservas ideológicas oupreconceitos de ordem estética" (VIANA, António Manuel Couto - "Breve Historial" in As Folhas Poesia Távola Redonda, Boletim Cultural daFundação C. Gulbenkian, VI série, n.º 11, outubro de 1988). Destes princípios brota uma poesia que se aproxima metricamente das matrizes tradicionais, com ligação, no aproveitamento de temáticas dos romanceiros, à tradição oral. Ao mesmo tempo, a poesia revela o contexto literário em que nasce, procurando o poeta, pela ironia, tentar superar "o receio do desacordo entre o tipo de poesia que pode fazer e aquele que o momento exige"(MOURÃO-FERREIRA, David, ibi, p. 13), dando voz, sobretudo a partir de Mancha Solar, à angústia e pessimismo de uma geração pós-guerra, que vive na iminência traumática de uma catástrofe universal ("vivemos ainda, mas sobre o abismo irremediável", "Aviso Inútil") e de uma nação bloqueada num regime totalitário, embora o poeta se mantenha sempre fiel a uma voz íntima e alheio aos "mitos de aluguer", ao partido "Dos homens gastos por bandeiras gastas, / Vigilantes de livros e de castas, / Emdefesa do mundo dividido" ("Pátria Exausta").

António Manuel Couto Viana. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-07-16].



Ron Hicks



"Quando somos jovens, temos manhãs triunfantes." 


(Victor Hugo)



Os Azeitonas - Quem és tu miúda

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