quarta-feira, 29 de outubro de 2014

"Foi para isso que os poetas foram feitos" - Poema de A. M. Pires Cabral


Foi para isso que os poetas foram feitos 


semear tempestades
e assegurar que cresçam
foi para isso que os poetas foram feitos

esgrimir com a mais idónea
das espadas: a coragem
foi para isso que os poetas foram feitos

namorar a perfeição
e às vezes alcançá-la
foi para isso que os poetas foram feitos


A. M. Pires Cabral



A. M. Pires Cabral 


António Manuel Pires Cabral mais conhecido por A. M. Pires Cabral nasceu na freguesia de Chacim, concelho de Macedo de Cavaleiros, Trás-os-Montes, a 13 de agosto de 1941. Licenciou-se em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra. Foi professor do ensino secundário e atualmente é diretor do Grémio Literário de Vila Real. Tornou-se conhecido ao ganhar o Prémio Círculo de Leitores de 1983 com o romance Sancirilo (1983). É um escritor cuja matéria literária se centra essencialmente na ruralidade transmontana.
Obras: PoesiaAlgures a Nordeste (poesia, 1974); Solo Arável (poesia, 1976); Trirreme (poesia, 1978); Roleta em Constantim (poesia, 1981). TeatroO Saco de Nozes (teatro, 1982); Artes Marginais (antologia poética, Lisboa, 1998); Desta Água Beberei (poesia, Vila Real, 1999); O Livro dos Lugares e Outros Poemas (poesia, Mirandela, 2000); Como se Bosch tivesse enlouquecido (Mirandela, 2003); Douro: Pizzicato e Chula (Lisboa, 2004); Que comboio é este (Vila Real, 2005); Antes que o rio seque (poesia reunida, Lisboa, 2006); As têmporas da cinza (Lisboa, 2008); Arado (Lisboa, 2009). Ficção Sancirilo (romance, 1983; 2.ª edição reescrita, Lisboa, 1996); O Diabo Veio ao Enterro (contos, 1985; 3.ª ed., 2010); Memórias de Caça (contos, 1987); O Homem que Vendeu a Cabeça (contos, 1987); Crónica da Casa Ardida (romance, 1992); Raquel e o Guerreiro (romance, 1995); Três Histórias Transmontanas (contos, 1998); Vilar Frio (novela, ilustrando o álbum de fotografias Portugal Terra Fria, de Georges Dussaud; Lisboa, 1997); Três Histórias Trasmontanas (contos, Vila Real, 1998); A Loba e o Rouxinol (romance, Lisboa, 2004); O Cónego (romance, Lisboa, 2007; Il Canonico, tradução italiana, Roma, 2009); O Porco de Erimanto e outras Fábulas (contos, Lisboa, 2010); Os Anjos Nus (contos, Lisboa, 2012). CrónicasOs Arredores do Paraíso (1991); Na Província Neva (crónicas de Natal, Vila Real, 1997). Literatura infantil Trocas e baldrocas ou Com a Natureza não se Brinca (Vila Nova de Gaia, 2007). Outras obrasO Diário de C* (Vila Real, 1995); Vila Real: Um Olhar Muito de Dentro (com fotografias de Albano da Costa Lobo, Vila Real, 2001); Douro Leituras (antologia, Régua, 2002). (Daqui)

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

"Movimento" - Poema de Octavio Paz


Wassily Kandinsky, Fuga, 1914, óleo sobre tela



Movimento


Se tu és a égua de âmbar 
eu sou o caminho de sangue 
Se tu és o primeiro nevão 
eu sou quem acende a fogueira da madrugada 
Se tu és a torre da noite 
eu sou o cravo ardendo em tua fronte 
Se tu és a maré matutina 
eu sou o grito do primeiro pássaro 
Se tu és a cesta de laranjas 
eu sou o punhal de sol 
Se tu és o altar de pedra 
eu sou a mão sacrílega 
Se tu és a terra deitada 
eu sou a cana verde 
Se tu és o salto do vento 
eu sou o fogo oculto 
Se tu és a boca da água 
eu sou a boca do musgo 
Se tu és o bosque das nuvens 
eu sou o machado que as corta 
Se tu és a cidade profunda 
eu sou a chuva da consagração 
Se tu és a montanha amarela 
eu sou os braços vermelhos do líquen 
Se tu és o sol que se levanta 
eu sou o caminho de sangue 


Octavio Paz, in "Salamandra" 
Tradução de Luis Pignatelli 



Octavio Paz

Octavio Paz Lozano (Cidade do México, 31 de Março de 1914 — Cidade do México, 19 de Abril de 1998) foi um poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano, notabilizado, principalmente, por seu trabalho prático e teórico no campo da poesia moderna ou de vanguarda. Recebeu o Nobel de Literatura de 1990.

Escritor prolífico cuja obra abarcou vários géneros, é considerado um dos maiores escritores do século XX e um dos grandes poetas hispânicos de todos os tempos.

Passou a infância nos Estados Unidos, acompanhando a família. De volta ao seu país, estudou direito na Universidade Nacional Autónoma do México. Cursou também especialização em literatura. Morou na Espanha, onde conviveu com diversos intelectuais. Viveu também em Paris, no Japão e na Índia.

Em 1945, ingressou no serviço diplomático mexicano. Quando morava em Paris, testemunhou e viveu o movimento surrealista, sofrendo grande influência de André Breton, de quem foi amigo. Em sua criação, experimentou a escrita automática, tendo praticado posteriormente uma poesia ainda vanguardista, porém mais concisa e objetiva, voltada a um uso mais preciso da função poética da linguagem.

Publicou mais de vinte livros de poesia e incontáveis ensaios de literatura, arte, cultura e política, desde Luna Silvestre, seu primeiro livro, de 1933.
Origem: Wikipédia


Composição VII - De acordo com Kandinsky, a peça mais complexa que ele já pintou (1913)


"A arte abstrata é a mais difícil de todas. Para entregar-se a ela é preciso ser bom desenhador, ter sensibilidade para a composição e para as cores e o que é mais importante, ser um poeta autêntico"


(Kandinsky)


Wassily Kandinsky


Wassily Kandinsky (Moscou, 16 de dezembro de 1866 (4 de dezembro no calendário juliano então em vigor na Rússia) — Neuilly-sur-Seine, 14 de dezembro de 1944) foi um artista russo, professor da Bauhaus e introdutor da abstração no campo das artes visuais. Apesar da origem russa, adquiriu a nacionalidade alemã em 1928 e a francesa em 1939.

Na década de 1910 Kandinsky desenvolve seus primeiros estudos não figurativos, fazendo com que seja considerado o primeiro pintor ocidental a produzir uma tela abstrata. Algumas das suas obras desta época, como "murnau - Jardim 1" (1910) e "Grüngasse em Murnau" (1909) mostram a influência dos Verões que Kandinsky passava em Murnau nessa época, notando-se um crescente abstracionismo nas suas paisagens. Outra influência nas suas pinturas foi a música do compositor Arnold Schönberg, com quem Kandinsky manteve correspondência entre 1911 e 1914.

Kandinsky também escreveu poemas brilhantes, abstratos, que fazem referência a cores e linhas, tais quais surgiam na percepção do artista. Sendo eminentemente vanguardistas, no entanto, seus poemas diferem de tudo quanto foi produzido por qualquer "ismo" em literatura ou poeta vanguardista conhecido, inclusive do trabalho poético de outros artistas predominantemente plásticos, tais como Picasso e Hans Arp, que tenderam a aderir, na escrita, a alguma vanguarda poética conhecida, como o Surrealismo.
Origem: Wikipédia

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

"Poema sobre o amor eterno" - de Valter Hugo Mãe


Pintura de Pier Toffoletti



poema sobre o amor eterno 


inventaram um amor eterno. trouxeram-no em braços 
para o meio das pessoas e ali ficou, à espera que lhe 
falassem. mas ninguém entendeu a necessidade de 
sedução. pouco a pouco, as pessoas voltaram a casa 
convictas de que seria falso alarme, e o amor eterno
 tombou no chão. não estava desesperado, nada 
do que é eterno tem pressa, estava só surpreso. um
 dia, do outro lado da vida, trouxeram um animal 
de duzentos metros e mil bocas e, por ocupar muito 
espaço, o amor eterno deslizou para fora da praça. 
ficou muito discreto, algo sujo. foi como um louco o 
viu e acreditou nas suas intenções. carregou-o para
 dentro do seu coração, fugindo no exato momento
 em que o animal de duzentos metros e mil bocas se
 preparava para o devorar


valter hugo mãe, in 'contabilidade'





Valter Hugo Mãe nasceu em Saurimo, Angola, no ano de 1971. 
Licenciou-se em Direito e é pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea. 
Publicou os romances: o nosso reino; o remorso de baltazar serapião, Prémio José Saramago em 2007; o apocalipse dos trabalhadores; a máquina de fazer espanhóis, Grande Prémio Portugal Telecom, categoria melhor livro do ano, e Prémio Portugal Telecom, categoria melhor romance do ano, em 2012; O Filho de Mil Homens e, recentemente, A Desumanização. A sua poesia encontra-se reunida no volume contabilidade
Escreveu diversos livros ilustrados para os mais novos, entre os quais: Quatro Tesouros; O Rosto e As mais belas coisas do mundo. 
Valter Hugo Mãe é vocalista do grupo musical Governo (www.myspace.com/ogoverno), projeto que editou o EP Propaganda Sentimental, com cinco canções, através do selo Optimus Discos. 
Escreve as crónicas Autobiografia imaginária, no Jornal de Letras, e Casa de papel, na revista de domingo do jornal Público. 
Outras informações sobre o autor podem ser encontradas no Facebook (Valter Hugo Mãe – Pag. Oficial) ou em www.valterhugomae.com. (Daqui)



Pintura de Pier Toffoletti



PIER TOFFOLETTI - Live painting and dancing with Valentina Versino - Why Company



"Tirai ao homem comum as ilusões da sua vida e roubais-lhe a felicidade."

(Henrik Ibsen)





Henrik  Johan Ibsen  (Skien, 20 de Março de 1828 — Cristiânia, 23 de Maio de 1906) foi um dramaturgo norueguês, considerado um dos criadores do teatro realista moderno. Foi o maior dramaturgo norueguês do Século XIX. Foi também poeta e diretor teatral, sendo considerado o “pai do drama em prosa” e um dos fundadores do modernismo no teatro. Entre seus maiores trabalhos destacam-se Brand, Peer Gynt, Um Inimigo do Povo, Imperador e Galileu, Casa de Bonecas, Hedda Gabler, Espectros, O Pato Selvagem e Rosmersholm

Muitas de suas peças foram consideradas escandalosas na época em que foram lançadas, mediante o facto de o teatro europeu estar sujeito ao modelo determinado pela vida familiar e pela propriedade. Os trabalhos de Ibsen analisavam a realidade contida por trás das convenções e costumes, o que trouxe muita inquietação para seus contemporâneos. Ele lançou um olhar crítico e a livre investigação sobre as condições de vida e as questões da moralidade da época. A poética peça Peer Gynt, no entanto, tem fortes elementos do Surrealismo.

Ibsen é muitas vezes classificado como um dos verdadeiramente grandes dramaturgos da tradição europeia. Richard Hornby o descreve como "um profundo e poético dramaturgo — o melhor desde Shakespeare". Ele influenciou outros dramaturgos e romancistas, tais como George Bernard Shaw, Oscar Wilde, James Joyce e Eugene O'Neill. Muitos críticos o consideram o maior dramaturgo desde Shakespeare.

Embora a maioria de suas peças sejam definidas na Noruega, muitas vezes em lugares que lembram Skien, a cidade portuária onde cresceu, Ibsen viveu por 27 anos na Itália e Alemanha e raramente visitou a Noruega durante seus anos mais produtivos. 
(Origem: Wikipédia)


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

"Suma Teológica"... Poema de Jorge de Sena


Cruzeiro Seixas, Sem título, sem data.
Serigrafia, 30.7 x 21.7 cm



Suma Teológica


Não vim de longe, meu amor, nem sossobraram 
navios no alto mar, quando nasci. 

Nada mudou. Continuaram as guerras; 
continuou a subir o preço do pão; 
continuaram os poetas, uma vez por outra, 
a perguntar por ti. 

É certo que, então, imensa gente 
envelheceu instantânea e misteriosamente. 

Mas até isso, meu amor, se não sabe ainda 
se foi por minha causa, 
se por causa de outros que terão nascido 
ao mesmo tempo que eu. 


Jorge de Sena, in 'Coroa da Terra'



Cruzeiro Seixas, Sem título, 1954
Serigrafia, 30,7 x 21.7 cm



"A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace." 


(Victor Hugo)



Cruzeiro Seixas

domingo, 19 de outubro de 2014

"O Mar é Longe, mas Somos Nós o Vento"... Poema de Pedro Tamen


José Navarro Llorens (pintor espanhol,1867-1923), llegar a la costa



O Mar é Longe, mas Somos Nós o Vento


O mar é longe, mas somos nós o vento; 
e a lembrança que tira, até ser ele, 
é doutro e mesmo, é ar da tua boca 
onde o silêncio pasce e a noite aceita. 
Donde estás, que névoa me perturba 
mais que não ver os olhos da manhã 
com que tu mesma a vês e te convém? 
Cabelos, dedos, sal e a longa pele, 
onde se escondem a tua vida os dá; 
e é com mãos solenes, fugitivas, 
que te recolho viva e me concedo 
a hora em que as ondas se confundem 
e nada é necessário ao pé do mar. 


Pedro Tamen, in "Daniel na Cova dos Leões"



José Navarro Llorens - Barcas en la Playa



"Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar." 


(Friedrich Nietzsche)



José Navarro Llorens - La cala de Granaella, Alicante

"Carta à Minha Filha"... Poema de Ana Luísa Amaral


Pintura de Oliveira Tavares



Carta à Minha Filha 


Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na metáfora dada
pela infância, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas - é sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.
E que o respeito inteiro e infinito
não precisa de vir depois do amor.
Nem antes. Que as filas só são úteis
como formas de olhar, maneiras de ordenar
o nosso espanto, mas que é possível pontos
paralelos, espelhos e não janelas.

E que tudo está bem e é bom: fila ou
novelo, duas cabeças tais num corpo só,
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio
ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela
tão útil para falar da vida, essa que,
sem tigelas, intactas ou partidas, continua
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.

Não sei que te dirão num futuro mais perto,
se quem assim habita os espaços das vidas
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te amar, não posso fazer isso,
e nesta noite quente a rasgar junho,
quero dizer-te da fila e do novelo
e das formas de amar todas diversas,
mas feitas de pequenos sons de espanto,
se o justo e o humano aí se abraçam.

A vida, minha filha, pode ser
de metáfora outra: uma língua de fogo;
uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também esse bolbo que me deste,
e que agora floriu, passado um ano.
Porque houve terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.


Ana Luísa Amaral, in 'Imagias 
(Um pouco só de Goya: Carta a minha Filha)'




Pintura de Oliveira Tavares


"Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos."

sábado, 18 de outubro de 2014

"Dormir um Pouco"... Poema de Albano Martins


Fotografia de Paulo Pereira, Foz do Douro - Porto



Dormir um Pouco...
 Homenagem a Federico García Lorca


Dormir um pouco — um minuto,
um século. Acordar
na crista
duma onda, ser
o lastro de espuma
que há no sono
das algas. Ou
ser apenas
a maré, que sempre
volta
para dizer: eu não morri, eu sou
a borboleta
do vento, a flor
incandescente destas águas.


Albano Dias Martins, in "Castália e Outros Poemas"




Fotografia de Paulo Pereira, Foz do Douro - Porto 



"Fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração."
 





Fotografia de Paulo Pereira, Sintra, Portugal


"Em todas as coisas da natureza existe algo de maravilhoso." 
 
 
(Aristóteles)


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

"Despedida" - Poema de José Agostinho Baptista


Ana Vidigal, A Vida Dói, 2014


Ana Vidigal (Lisboa, 6 de Agosto de 1960) é uma pintora portuguesa. Vive em Lisboa. É irmã dos arquitetos Egas José Vieira (n. 1962) e Nuno Vidigal (n. 1964).


Despedida


Uma harpa envelhece.
Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores
sonham junto às estátuas de treva.
A tua sombra está atrás da minha sombra e dança.
Tocas-me de tão longe, sobre a falésia, e não sei se
foi amor.
Certo rumor de cálices, uma súplica ao dealbar das
ruínas,
tudo se perdeu no solitário campo dos céus.
Uma estrela caía.
Esse fogo consumido queima ainda a lembrança do
sul, a sua extrema dor anoitecida.
Não vens jamais.
O teu rosto é a relva mutilada dos passos em que me
entristeço, a absoluta condenação.
Chove quando penso que um dia as tuas rosas floriam
no centro desta cidade.
Não quis, à volta dos lábios, a profanação do jasmim,
as tuas folhas de outubro.
Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça,
a nudez de quem sangra à vista das catedrais.
O meu peito abriga as tuas sementes, e morre.
Esta música é quase o vento.


José Agostinho Baptista, in “Paixão e Cinzas”



José Agostinho Baptista


José Agostinho Baptista, poeta português contemporâneo, nasceu a 15 de Agosto de 1948 na cidade do Funchal, Ilha da Madeira.
Com 21 anos, veio para Lisboa, onde iniciou a sua carreira literária. Colaborou na imprensa, nomeadamente no Comércio do Funchal e mais tarde no República e no Diário de Lisboa, cujo suplemento "O Juvenil" o tornou conhecido como poeta. Desde então e ao longo dos livros já publicados, a sua poesia vem sendo reconhecida, como uma das mais originais e importantes na atualidade, como bem assinalaram os textos que lhe foram dedicados em Portugal, Espanha, Itália e França.
Além de poeta, José Agostinho Baptista tem vindo a assinar diversas traduções de autores como Walt Whitman, W.B. Yeats, Tennessee Williams, Paul Bowles, Enrique Vila-Matas, Rabindranath Tagore, Robert Louis Stevenson, Malcolm Lowry, David Malouf, Sergio Pitol, Oliverio Macías Álvarez, entre outros.



Ana Vidigal, "Calafrio", 2004, técnica mista s/ tela, 146x114 cm


"Se às vezes, se em certos casos, a poesia imita a vida e a vida imita a poesia, então talvez cada verso seja uma linha da cabeça, uma linha do coração, uma linha da vida. E então, sonâmbula e feroz, a mão que escreve talvez não faça mais do que construir, palavra sobre palavra, a casa de um homem, a sua história. E a sua voz obscura passará sobre a terra, sobre os anos, completando a obra."
José Agostinho Baptista



Ana Vidigal, “Claridade”, 2011


"A poesia de José Agostinho Baptista é de certo modo um lamento, como dissemos, e por vezes extremamente pungente e por isso não podemos deixar de ter em conta o negativo que trespassa estes poemas delicadíssimos que são da melhor poesia que hoje se escreve em Portugal." 
António Ramos Rosa,
in Incisões Obliquas, 1987 



Ana Vidigal, “Neblina”, 2011


"José Agostinho Baptista é um poeta para quem a terra, e particularmente a ilha da Madeira, donde é natural, é um contorno existencial inseparável da subjetividade. Porém, esta profunda imersão na terra liga-se à própria ausência e a uma indefinível nostalgia cujo vazio o poema tenta preencher pela livre imaginação afetiva. É esta tensão entre a adesão existencial e a distância ou separação que existe no seio dela que faz de cada poema um apaixonado lamento, dilacerante mas sempre deslumbrante."
António Ramos Rosa, in A Parede Azul, 1991 



Ana Vidigal, S/Título, 1998, 130 X 190 cm
Acrílico e esmalte s/tela


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

"A Voz" - Poema de Alexandre Herculano


Marinha com veleiro ostentando a bandeira Real Portuguesa, por João Pedroso.

(João Pedroso Gomes da Silva (Lisboa, 1825 — 1890) foi um pintor, gravador e desenhista português, especializado na retratação de navios. Suas obras podem ser encontradas, hoje, no Museu de Marinha, em Santa Maria de Belém, e no Palácio Nacional da Ajuda, bem como em coleções particulares.)



A Voz


É tão suave ess'hora,
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a Lua
Das ondas a ardentia,

Se em alcantis marinhos,
Nas rochas assentado,
O trovador medita
Em sonhos enleado!

O mar azul se encrespa
Coa vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz já se divisa.

E tudo em roda cala
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso
Quebrando em furna algosa.

Ali folga o poeta
Nos desvarios seus,
E nessa paz que o cerca
Bendiz a mão de Deus.

Mas despregou seu grito
A alcíone gemente,
E nuvem pequenina
Ergueu-se no ocidente:

E sobe, e cresce, e imensa
Nos céus negra flutua,
E o vento das procelas
Já varre a fraga nua.

Turba-se o vasto oceano,
Com hórrido clamor;
Dos vagalhões nas ribas
Expira o vão furor,

E do poeta a fronte
Cobriu véu de tristeza;
Calou, à luz do raio,
Seu hino à natureza.

Pela alma lhe vagava
Um negro pensamento,
Da alcíone ao gemido,
Ao sibilar do vento.

Era blasfema ideia,
Que triunfava enfim;
Mas voz soou ignota,
Que lhe dizia assim:

«Cantor, esse queixume
Da núncia das procelas,
E as nuvens, que te roubam
Miríades de estrelas,

E o frémito dos euros,
E o estourar da vaga,
Na praia, que revolve,
Na rocha, onde se esmaga,

Onde espalhava a brisa
Sussurro harmonioso,
Enquanto do éter puro
Descia o Sol radioso,

Tipo da vida do homem,
É do universo a vida:
Depois do afã repouso,
Depois da paz a lida.

Se ergueste a Deus um hino
Em dias de amargura;
Se te amostraste grato
Nos dias de ventura,

Seu nome não maldigas
Quando se turba o mar:
No Deus, que é pai, confia,
Do raio ao cintilar.

Ele o mandou: a causa
Disso o universo ignora,
E mudo está. O nume,
Como o universo, adora!»

Oh, sim, torva blasfémia
Não manchará seu canto!
Brama a procela embora;
Pese sobre ele o espanto;

Que de sua harpa os hinos
Derramará contente
Aos pés de Deus, qual óleo
Do nardo recendente.


Alexandre Herculano,
 in 'A Harpa do Crente' 





 Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, grande historiador, nasceu em Lisboa a 28 de Março de 1810 e faleceu em Vale de Lobos a 13 de Setembro de 1877. Era filho de Teodoro Cândido da Araújo, recebedor da antiga Junta dos Juros, hoje Junta do Crédito Público, e de D. Maria do Carmo de S. Boaventura, filha de José Rodrigues de Carvalho, pedreiro empregado nas obras da Casa Real. A sua educação literária começou com o estudo do latim e latinidade nas aulas dos padres congregados de S. Filipe Nery, do hospício das Necessidades, sendo seu mestre o padre Vicente da Cruz.

Preparava-se para continuar os preparativos indispensáveis para a matrícula na Universidade de Coimbra, mas em 1827, cegando seu pai, e sofrendo seu avô materno um grande revés da fortuna, pela falta de pagamento de somas importantes de que era credor como mestre nas obras da Ajuda, faltaram-lhe os recursos; contudo, Alexandre Herculano não desanimou do seu propósito de se ilustrar, e conseguiu aprender particularmente as línguas francesa, inglesa e alemã, matriculando-se no primeiro ano da Aula do Comércio em 1830, seguindo o curso de Paleografia, a que então se chamava Diplomática, na Torre do Tombo, regido por Francisco Ribeiro dos Guimarães, no ano letivo de 1830-1831. Desta época data a primeira revelação que teve da literatura alemã, que lhe fez a marquesa de Alorna, como ele próprio confessa na biografia que escreveu daquela ilustre senhora. Contava 21 anos, e já o jovem estudante, com os conhecimentos variados que adquirira, bem mostrava que a sua mocidade fora bem dedicada ao estudo. Animavam-se então naquela época os ânimos políticos; a guerra civil com todos os seus horrores absolutistas, enchia de presos as cadeias do reino só pelo crime de serem liberais, e nas praças públicas eram os patíbulos levantados consecutivamente.

Alexandre Herculano viu-se obrigado a interromper os estudos para seguir a voragem da revolução; inimigo de todas as opressões, e estrénuo defensor da liberdade, uniu-se aos constitucionais, e sendo implicado na malograda revolta de infantaria n.º 4 em 31 de Agosto de 1831, teve de refugiar-se na casa do capelão da colónia alemã, passando dali a bordo da fragata francesa Melpomène, que estava fundeada rio Tejo, e depois, juntamente com outros emigrados, para o paquete inglês que se dirigia a Falmouth e Plymouth. Embarcou para Jersey, e dirigindo-se a Saint Malot, teve de arribar a Granville, seguindo daqui por terra com os seus companheiros a Rennes, capital da Bretanha, onde existia um depósito de emigrados portugueses. Nesta cidade aproveitava todas as horas de que podia dispor, em estudar na biblioteca os livros e manuscritos. Os emigrados embarcaram em Fevereiro de 1832 para Belle-Isle, na expedição que ia reunir-se na ilha Terceira ao imperador, que já ali estava, e chegaram a 19 de Março do referido ano. Alexandre Herculano fez parte da expedição, em que também se encontrava Garrett como praça de soldado de caçadores, e muitos outros homens notáveis, Herculano assentou praça em 26 de Março como voluntário da rainha D. Maria II, tendo o n.º 35 da terceira companhia. Pouca demora teve nos Açores, porque em 27 de Junho partia o pequeno exército liberal, composto de 7.500 bravos, com destino ao Porto, e em 8 de Julho desembarcava nas praias do Mindelo. No cerco do Porto, Herculano foi um dos mais valentes e dos que mais se distinguiram; achou-se nos mais temíveis transes, brilhando na sua nota de serviços datas gloriosas, como a do reconhecimento da cidade de Braga até Bouro em 14 de Julho de 1832, o de Valongo, a ação de Ponte Ferreira em 22 e 23 de Julho de 1832, etc. Em 22 de Fevereiro de 1833 foi dispensado do serviço militar para coadjuvar o bibliotecário do paço episcopal; esta escolha era devida à sua paixão literária já conhecida, embora os seus estudos fossem até então incompletos.

Por decreto de 17 de Julho de 1833 foi nomeado segundo bibliotecário da Biblioteca Pública do Porto, e exercia ainda esse cargo, quando rebentou a 10 de Setembro de 1836 o movimento em Lisboa contra a Carta Constitucional. Herculano mandou logo no dia 17 um ofício ao presidente da câmara municipal dando a sua demissão, dizendo que partia para Lisboa, porque prestara a maior fé à Carta Constitucional. Partidário exaltado da Carta, a ponto de prejudicar os seus próprios interesses, Alexandre Herculano defendeu-a com toda a energia, combatendo A Revolução de Setembro, jornal que então se criara em oposição. No Repositório Literário, do Porto, publicou três ou quatro artigos veementes e de máximo interesse. Foi também nesta época que apareceu a Voz do Profeta, que pelo estilo vigoroso e enérgico, fulminava com o maior arrojo o movimento político de 1836. A Voz do Profeta causou profunda impressão em todo o país. O rei D. Fernando nomeou-o em 1839 seu bibliotecário, com o vencimento anual de 600$000 réis, pagos do seu bolso, dando-lhe também casa para residir; pouco depois, Herculano, sem exigir mais remuneração, encarregou-se de organizar as bibliotecas reais da Ajuda e das Necessidades. Então, engolfado entre os livros que eram todo o seu pensar, continuou a vida de escritor, a quem o futuro reservara o justificado título de poeta filosófico, romancista eminente, e historiador profundo e consciencioso. Em 1837, a Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, querendo fundar O Panorama, um dos jornais literários mais importantes que se tem publicado em Lisboa, pediu a Alexandre Herculano que se encarregasse da sua direção. Foi o redator principal até Julho de 1839, mas, apesar de resignar este título, continuou a escrever, posto que com menos frequência, assinando os seus artigos até 1842.

Em 1843 efetuou-se novo contrato, e os Panoramas de 1853 e 1854 têm muitos artigos de Alexandre Herculano, que mais tarde se publicaram em livros. Em 1852, conjuntamente com o marquês de Niza, fundou o jornal político O País, em que fez veemente oposição ao governo. Dois anos mais tarde organizou outro jornal, intitulado O Português. A Academia Real das Ciências intentou a publicação dos Monumentos históricos de Portugal, desde o século VIII até ao século XV, começando por distribuir em épocas os trabalhos de indagação e catalogação dos mesmos monumentos, e devendo a primeira parte abranger os do século VIII até ao ano de 1280. Esta obra Importantíssima foi encetada, e compunha-se de três partes: Escritores, Diplomas e Cartas, Leis e Costumes. Alexandre Herculano havia sido nomeado sócio correspondente em 21 de Fevereiro de 1844, efetivo em 13 de Fevereiro de 1852 e de mérito em 14 de Junho de 1850. Ninguém mais habilitado do que ele poderia ser chamado para um trabalho daquela ordem, para o qual eram precisos grandes conhecimentos de diplomática e de paleografia, e a maior prática de rever arquivos. O parlamento votou a dotação anual de 1.000$000 réis para ajudar aquela empresa nas suas despesas extraordinárias. Em 6 de Junho do 1853 saiu de Lisboa Alexandre Herculano, em direção à Beira, onde até Setembro visitou todos os arquivos e bibliotecas; e no ano seguinte fez igual digressão nos mesmos meses até à, província do Minho, colhendo daquelas duas jornadas uma enorme porção de documentos de todos os arquivos eclesiásticos e seculares, que deviam ser chamados a Lisboa para serem examinados detidamente. Foram excessivas as dificuldades com que teve de lutar, porque muitas corporações religiosas opuseram a maior resistência em franquearem os arquivos, e muitos destes também se encontravam num lastimoso estado de abandono. Um deplorável incidente o obrigou a afastar-se.

Sendo em Março de 1856 nomeado guarda-mor da Torre do Tombo, Joaquim José da Costa Macedo, que pouco tempo antes pedira a sua exoneração de sócio e de secretário perpétuo da Academia, por grandes desinteligências que o tornavam incompatível nesta corporação com alguns dos seus colegas, Alexandra Herculano declarou terminantemente na sessão de 31 do referido mês, que em vista daquela nomeação, não podia voltar à Torre do Tombo, em consequência da incompatibilidade de privar com o novo guarda-mor; e como os seus trabalhos para a publicação dos Monumentos históricos exigiam as suas frequentes visitas ao arquivo nacional, resignava os serviços que poderia prestar, e assim demitia-se do cargo de vice-presidente, e até mesmo de sócio. A Academia em 9 de Outubro do mesmo ano, deu-lhe novo diploma de sócio, que ele aceitou, e em Dezembro tornou a elegê-lo vice-presidente. Herculano , numa carta datada de 27 deste mês, não só persiste na resolução de não ocupar a vice-presidência, mas declara-se «morto para as letras, enquanto se achar colocado pelos poderes públicos entre a humilhação e o silêncio, entre a desonra e a abstenção, porque a pátria tinha o direito de exigir tudo de seus filhos, menos o aviltamento.» Foi esta a razão porque deixou os Monumentos históricos e a História de Portugal, em que também trabalhava, e a vida ativa das letras, entregando-se à agricultura na quinta do Calhariz, pertencente aos duques de Palmela, no concelho de Sesimbra, que por esse tempo trazia arrendada, indo desterrar-se mais tarde, em 1867, para Vale de Lobos, onde se conservou até falecer.

Em 8 de Outubro de 1857 fora aposentado o guarda-mor da Torre do Tombo, e Alexandre Herculano tinha de novo aberta a porta daquele arquivo público, e como sócio da Academia, que se encarregara dos Monumentos históricos, voltou à sua tarefa até 1873, mas por sua morte deixou incompleta, apesar de ficarem muito adiantadas as três partes. A História da Inquisição, e a maneira como descreve no 1.º volume da História de Portugal a batalha de Ourique, negando a aparição de Cristo ao fundador da Monarquia, levantaram contra ele as iras de todo o clero, que não se fartava de o invetivar por toda a forma, tanto em folhetos, como em jornais religiosos, e até nos próprios púlpitos, chegando a acusá-lo de deprimidor das glórias portuguesas. Alexandre Herculano respondeu então com toda a energia, em 4 folhetos, que publicou em 1850: Eu e o clero, carta ao patriarca de Lisboa; Considerações pacíficas ao redator da Nação; duas cartas a Magessi Tavares, intituladas: Solemnia Verba; e em 1851 publicou outro folheto: A ciência Arábico Académica, carta a Silva Túlio em resposta ao folheto dum académico.

A respeito do casamento civil também escreveu três estudos, por ocasião de ser publicado um opúsculo pelo visconde de Seabra. Sobre este assunto, Herculano fez parte da comissão revisora do projeto do Código Civil, e é dele também a última redação do Código. No ano de 1858 o círculo de Sintra quis elegê-lo seu representante em Cortes, porém ele não aceitou. Era cavaleiro da ordem da Torre e Espada, agraciado por decreto do primeiro de Março de 1839. Aceitara esta mercê, porque entendia que a merecera como soldado, mas depois dessa data rejeitou sempre todas as honras, recusando a comenda da mesma ordem ao próprio soberano, el-rei D. Pedro V, que o procurara um dia para lha oferecer; os arminhos de par em 1861, e a grã-cruz da ordem reformada de S. Tiago em 1862. O motivo destas renúncias está exposto numa carta que publicou em 7 de Dezembro de 1862 no Jornal do Comércio. Apenas aceitou a eleição, por um dos círculos do Porto, para deputado em 1840, e a de vereador, e depois a de presidente da câmara de Belém em 1852. Enquanto viveu na sua casa da Ajuda, recebia todos os sábados a visita de muitos dos seus amigos, na maior parte escritores e poetas distintos, que o respeitavam como mestre, e com quem discutia política e literatura.

Os últimos anos da sua vida foram quase dedicados aos trabalhos agrícolas, prestando assim grandes serviços à agricultura. Poucas vezes vinha a Lisboa, e a última vez foi no primeiro de Setembro de 1877 para visitar o imperador do Brasil, retirando-se para Vale de Lobos já, bastante doente, falecendo no dia 13, conforme dissemos. O seu cadáver ficou depositado na igreja da Azóia, em Santarém, no jazigo do general Gorjão, e no dia 15 realizaram-se exéquias solenes, a que concorreu muita gente de Lisboa, representantes de toda a imprensa periódica, de corporações, da Academia Real das Ciências, deputados, ministros, etc. Suas Majestades, o Rei D. Luís e Senhora D. Maria Pia, também se fizeram representar. Sobre o féretro foi colocada uma coroa em nome da imprensa periódica, onde se lia a seguinte dedicatória: A Alexandre Herculano, a imprensa, 15-9-77. As repartições e uma grande parte dos estabelecimentos de Santarém, conservaram-se fechados no dia do funeral, em sinal de sentimento. Em 27 de Junho de 1888 foram solenemente trasladados os seus restos mortais para a igreja dos Jerónimos em Belém.

Alexandre Herculano casou no primeiro de Maio de 1867 com D. Mariana Hermínia de Meira. Era também sócio da Academia Real das Ciências de Turim, da Real Academia de História de Madrid, da Real Academia de Ciências da Baviera, membro do Instituto Histórico de França e do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. Além do muito que se tem escrito sobre, o grande historiador, mencionaremos o artigo do Sr. Dr. Teófilo Braga, na Enciclopédia Portuguesa Ilustrada, publicada no Porto, vol. V, pág. 68. A Revista Contemporânea, 1.° vol., pág. 7; o Novo Almanaque de lembranças luso-brasileiro para 1879, artigo de A. X. Rodrigues Cordeiro, etc.

"Um Céu e Nada Mais"... Poema de Ana Luísa Amaral


Nadir Afonso, A Gaivota 



Um Céu e Nada Mais


Um céu e nada mais — que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul — como de teto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais — que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.


Ana Luísa Amaral, in “Às Vezes o Paraíso”




Ana Luísa Amaral 


Ana Luísa Amaral (1956-) é uma poetisa portuguesa e professora de Literatura e Cultura Inglesa e Americana na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Ana Luísa Amaral nasceu em Lisboa e vive, desde os nove anos, em Leça da Palmeira. Tem um doutoramento sobre a poesia de Emily Dickinson e as suas áreas de investigação são Poéticas Comparadas, Estudos Feministas e Estudos Queer. É Professora Associada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde integra também a direção do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa. Tem publicações académicas várias em Portugal e no estrangeiro. É autora, com Ana Gabriela Macedo, do Dicionário de Crítica Feminista (Porto: Afrontamento, 2005) e preparou a edição anotada de Novas Cartas Portuguesas (1972), de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa (Lisboa: Dom Quixote, 2010). Coordena neste momento o projecto internacional financiado pela FCT Novas Cartas Portuguesas 40 anos depois, que envolve 13 equipas internacionais e mais de 15 países. Tem em preparação dois livros de ensaios.

Está representada em inúmeras antologias portuguesas e estrangeiras e tem feito leituras dos seus poemas em vários países, como Brasil, França, Estados Unidos da América, Alemanha, Irlanda, Espanha, Rússia, Roménia, Polónia, Suécia, Holanda, China, México, Colômbia e Argentina.

Em torno dos seus livros de poesia e infantis foram levados à cena espectáculos de teatro e leituras encenadas (como O olhar diagonal das coisas, A história da Aranha Leopoldina, Próspero morreu ou Amor aos Pedaços).

Em 2007, venceu o Prémio Literário Casino da Póvoa, atribuído no âmbito do encontro de escritores de expressão ibérica Correntes d'Escritas na Póvoa de Varzim, com a obra A Génese do Amor. No mesmo ano, foi galardoada em Itália com o Prémio de Poesia Giuseppe Acerbi. O seu livro Entre Dois Rios e Outras Noites obteve, em 2008, o Grande Prémio de Poesia da APE (Associação Portuguesa de Escritores).  (Daqui)

terça-feira, 14 de outubro de 2014

"O Poeta é um Guardador"... Poema de Ana Hatherly


Cruzeiro Seixas, O poeta



O Poeta é um Guardador 


o poeta é um guardador 

guarda a diferença 
guarda da indiferença 

no incerto 
guarda a certeza da voz 



Ana Hatherly, 
in "Um Calculador de Improbabilidades"



Cruzeiro Seixas, Estudo de uma palavra, 1972 


"Eu não me envergonho de corrigir meus erros e mudar as opiniões, porque não me envergonho de raciocinar e aprender." 





Cruzeiro Seixas, Sem título, 1954


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...