quarta-feira, 15 de outubro de 2014

"A Voz" - Poema de Alexandre Herculano


Marinha com veleiro ostentando a bandeira Real Portuguesa, por João Pedroso.

(João Pedroso Gomes da Silva (Lisboa, 1825 — 1890) foi um pintor, gravador e desenhista português, especializado na retratação de navios. Suas obras podem ser encontradas, hoje, no Museu de Marinha, em Santa Maria de Belém, e no Palácio Nacional da Ajuda, bem como em coleções particulares.)



A Voz


É tão suave ess'hora,
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a Lua
Das ondas a ardentia,

Se em alcantis marinhos,
Nas rochas assentado,
O trovador medita
Em sonhos enleado!

O mar azul se encrespa
Coa vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz já se divisa.

E tudo em roda cala
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso
Quebrando em furna algosa.

Ali folga o poeta
Nos desvarios seus,
E nessa paz que o cerca
Bendiz a mão de Deus.

Mas despregou seu grito
A alcíone gemente,
E nuvem pequenina
Ergueu-se no ocidente:

E sobe, e cresce, e imensa
Nos céus negra flutua,
E o vento das procelas
Já varre a fraga nua.

Turba-se o vasto oceano,
Com hórrido clamor;
Dos vagalhões nas ribas
Expira o vão furor,

E do poeta a fronte
Cobriu véu de tristeza;
Calou, à luz do raio,
Seu hino à natureza.

Pela alma lhe vagava
Um negro pensamento,
Da alcíone ao gemido,
Ao sibilar do vento.

Era blasfema ideia,
Que triunfava enfim;
Mas voz soou ignota,
Que lhe dizia assim:

«Cantor, esse queixume
Da núncia das procelas,
E as nuvens, que te roubam
Miríades de estrelas,

E o frémito dos euros,
E o estourar da vaga,
Na praia, que revolve,
Na rocha, onde se esmaga,

Onde espalhava a brisa
Sussurro harmonioso,
Enquanto do éter puro
Descia o Sol radioso,

Tipo da vida do homem,
É do universo a vida:
Depois do afã repouso,
Depois da paz a lida.

Se ergueste a Deus um hino
Em dias de amargura;
Se te amostraste grato
Nos dias de ventura,

Seu nome não maldigas
Quando se turba o mar:
No Deus, que é pai, confia,
Do raio ao cintilar.

Ele o mandou: a causa
Disso o universo ignora,
E mudo está. O nume,
Como o universo, adora!»

Oh, sim, torva blasfémia
Não manchará seu canto!
Brama a procela embora;
Pese sobre ele o espanto;

Que de sua harpa os hinos
Derramará contente
Aos pés de Deus, qual óleo
Do nardo recendente.


Alexandre Herculano,
 in 'A Harpa do Crente' 





 Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, grande historiador, nasceu em Lisboa a 28 de Março de 1810 e faleceu em Vale de Lobos a 13 de Setembro de 1877. Era filho de Teodoro Cândido da Araújo, recebedor da antiga Junta dos Juros, hoje Junta do Crédito Público, e de D. Maria do Carmo de S. Boaventura, filha de José Rodrigues de Carvalho, pedreiro empregado nas obras da Casa Real. A sua educação literária começou com o estudo do latim e latinidade nas aulas dos padres congregados de S. Filipe Nery, do hospício das Necessidades, sendo seu mestre o padre Vicente da Cruz.

Preparava-se para continuar os preparativos indispensáveis para a matrícula na Universidade de Coimbra, mas em 1827, cegando seu pai, e sofrendo seu avô materno um grande revés da fortuna, pela falta de pagamento de somas importantes de que era credor como mestre nas obras da Ajuda, faltaram-lhe os recursos; contudo, Alexandre Herculano não desanimou do seu propósito de se ilustrar, e conseguiu aprender particularmente as línguas francesa, inglesa e alemã, matriculando-se no primeiro ano da Aula do Comércio em 1830, seguindo o curso de Paleografia, a que então se chamava Diplomática, na Torre do Tombo, regido por Francisco Ribeiro dos Guimarães, no ano letivo de 1830-1831. Desta época data a primeira revelação que teve da literatura alemã, que lhe fez a marquesa de Alorna, como ele próprio confessa na biografia que escreveu daquela ilustre senhora. Contava 21 anos, e já o jovem estudante, com os conhecimentos variados que adquirira, bem mostrava que a sua mocidade fora bem dedicada ao estudo. Animavam-se então naquela época os ânimos políticos; a guerra civil com todos os seus horrores absolutistas, enchia de presos as cadeias do reino só pelo crime de serem liberais, e nas praças públicas eram os patíbulos levantados consecutivamente.

Alexandre Herculano viu-se obrigado a interromper os estudos para seguir a voragem da revolução; inimigo de todas as opressões, e estrénuo defensor da liberdade, uniu-se aos constitucionais, e sendo implicado na malograda revolta de infantaria n.º 4 em 31 de Agosto de 1831, teve de refugiar-se na casa do capelão da colónia alemã, passando dali a bordo da fragata francesa Melpomène, que estava fundeada rio Tejo, e depois, juntamente com outros emigrados, para o paquete inglês que se dirigia a Falmouth e Plymouth. Embarcou para Jersey, e dirigindo-se a Saint Malot, teve de arribar a Granville, seguindo daqui por terra com os seus companheiros a Rennes, capital da Bretanha, onde existia um depósito de emigrados portugueses. Nesta cidade aproveitava todas as horas de que podia dispor, em estudar na biblioteca os livros e manuscritos. Os emigrados embarcaram em Fevereiro de 1832 para Belle-Isle, na expedição que ia reunir-se na ilha Terceira ao imperador, que já ali estava, e chegaram a 19 de Março do referido ano. Alexandre Herculano fez parte da expedição, em que também se encontrava Garrett como praça de soldado de caçadores, e muitos outros homens notáveis, Herculano assentou praça em 26 de Março como voluntário da rainha D. Maria II, tendo o n.º 35 da terceira companhia. Pouca demora teve nos Açores, porque em 27 de Junho partia o pequeno exército liberal, composto de 7.500 bravos, com destino ao Porto, e em 8 de Julho desembarcava nas praias do Mindelo. No cerco do Porto, Herculano foi um dos mais valentes e dos que mais se distinguiram; achou-se nos mais temíveis transes, brilhando na sua nota de serviços datas gloriosas, como a do reconhecimento da cidade de Braga até Bouro em 14 de Julho de 1832, o de Valongo, a ação de Ponte Ferreira em 22 e 23 de Julho de 1832, etc. Em 22 de Fevereiro de 1833 foi dispensado do serviço militar para coadjuvar o bibliotecário do paço episcopal; esta escolha era devida à sua paixão literária já conhecida, embora os seus estudos fossem até então incompletos.

Por decreto de 17 de Julho de 1833 foi nomeado segundo bibliotecário da Biblioteca Pública do Porto, e exercia ainda esse cargo, quando rebentou a 10 de Setembro de 1836 o movimento em Lisboa contra a Carta Constitucional. Herculano mandou logo no dia 17 um ofício ao presidente da câmara municipal dando a sua demissão, dizendo que partia para Lisboa, porque prestara a maior fé à Carta Constitucional. Partidário exaltado da Carta, a ponto de prejudicar os seus próprios interesses, Alexandre Herculano defendeu-a com toda a energia, combatendo A Revolução de Setembro, jornal que então se criara em oposição. No Repositório Literário, do Porto, publicou três ou quatro artigos veementes e de máximo interesse. Foi também nesta época que apareceu a Voz do Profeta, que pelo estilo vigoroso e enérgico, fulminava com o maior arrojo o movimento político de 1836. A Voz do Profeta causou profunda impressão em todo o país. O rei D. Fernando nomeou-o em 1839 seu bibliotecário, com o vencimento anual de 600$000 réis, pagos do seu bolso, dando-lhe também casa para residir; pouco depois, Herculano, sem exigir mais remuneração, encarregou-se de organizar as bibliotecas reais da Ajuda e das Necessidades. Então, engolfado entre os livros que eram todo o seu pensar, continuou a vida de escritor, a quem o futuro reservara o justificado título de poeta filosófico, romancista eminente, e historiador profundo e consciencioso. Em 1837, a Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, querendo fundar O Panorama, um dos jornais literários mais importantes que se tem publicado em Lisboa, pediu a Alexandre Herculano que se encarregasse da sua direção. Foi o redator principal até Julho de 1839, mas, apesar de resignar este título, continuou a escrever, posto que com menos frequência, assinando os seus artigos até 1842.

Em 1843 efetuou-se novo contrato, e os Panoramas de 1853 e 1854 têm muitos artigos de Alexandre Herculano, que mais tarde se publicaram em livros. Em 1852, conjuntamente com o marquês de Niza, fundou o jornal político O País, em que fez veemente oposição ao governo. Dois anos mais tarde organizou outro jornal, intitulado O Português. A Academia Real das Ciências intentou a publicação dos Monumentos históricos de Portugal, desde o século VIII até ao século XV, começando por distribuir em épocas os trabalhos de indagação e catalogação dos mesmos monumentos, e devendo a primeira parte abranger os do século VIII até ao ano de 1280. Esta obra Importantíssima foi encetada, e compunha-se de três partes: Escritores, Diplomas e Cartas, Leis e Costumes. Alexandre Herculano havia sido nomeado sócio correspondente em 21 de Fevereiro de 1844, efetivo em 13 de Fevereiro de 1852 e de mérito em 14 de Junho de 1850. Ninguém mais habilitado do que ele poderia ser chamado para um trabalho daquela ordem, para o qual eram precisos grandes conhecimentos de diplomática e de paleografia, e a maior prática de rever arquivos. O parlamento votou a dotação anual de 1.000$000 réis para ajudar aquela empresa nas suas despesas extraordinárias. Em 6 de Junho do 1853 saiu de Lisboa Alexandre Herculano, em direção à Beira, onde até Setembro visitou todos os arquivos e bibliotecas; e no ano seguinte fez igual digressão nos mesmos meses até à, província do Minho, colhendo daquelas duas jornadas uma enorme porção de documentos de todos os arquivos eclesiásticos e seculares, que deviam ser chamados a Lisboa para serem examinados detidamente. Foram excessivas as dificuldades com que teve de lutar, porque muitas corporações religiosas opuseram a maior resistência em franquearem os arquivos, e muitos destes também se encontravam num lastimoso estado de abandono. Um deplorável incidente o obrigou a afastar-se.

Sendo em Março de 1856 nomeado guarda-mor da Torre do Tombo, Joaquim José da Costa Macedo, que pouco tempo antes pedira a sua exoneração de sócio e de secretário perpétuo da Academia, por grandes desinteligências que o tornavam incompatível nesta corporação com alguns dos seus colegas, Alexandra Herculano declarou terminantemente na sessão de 31 do referido mês, que em vista daquela nomeação, não podia voltar à Torre do Tombo, em consequência da incompatibilidade de privar com o novo guarda-mor; e como os seus trabalhos para a publicação dos Monumentos históricos exigiam as suas frequentes visitas ao arquivo nacional, resignava os serviços que poderia prestar, e assim demitia-se do cargo de vice-presidente, e até mesmo de sócio. A Academia em 9 de Outubro do mesmo ano, deu-lhe novo diploma de sócio, que ele aceitou, e em Dezembro tornou a elegê-lo vice-presidente. Herculano , numa carta datada de 27 deste mês, não só persiste na resolução de não ocupar a vice-presidência, mas declara-se «morto para as letras, enquanto se achar colocado pelos poderes públicos entre a humilhação e o silêncio, entre a desonra e a abstenção, porque a pátria tinha o direito de exigir tudo de seus filhos, menos o aviltamento.» Foi esta a razão porque deixou os Monumentos históricos e a História de Portugal, em que também trabalhava, e a vida ativa das letras, entregando-se à agricultura na quinta do Calhariz, pertencente aos duques de Palmela, no concelho de Sesimbra, que por esse tempo trazia arrendada, indo desterrar-se mais tarde, em 1867, para Vale de Lobos, onde se conservou até falecer.

Em 8 de Outubro de 1857 fora aposentado o guarda-mor da Torre do Tombo, e Alexandre Herculano tinha de novo aberta a porta daquele arquivo público, e como sócio da Academia, que se encarregara dos Monumentos históricos, voltou à sua tarefa até 1873, mas por sua morte deixou incompleta, apesar de ficarem muito adiantadas as três partes. A História da Inquisição, e a maneira como descreve no 1.º volume da História de Portugal a batalha de Ourique, negando a aparição de Cristo ao fundador da Monarquia, levantaram contra ele as iras de todo o clero, que não se fartava de o invetivar por toda a forma, tanto em folhetos, como em jornais religiosos, e até nos próprios púlpitos, chegando a acusá-lo de deprimidor das glórias portuguesas. Alexandre Herculano respondeu então com toda a energia, em 4 folhetos, que publicou em 1850: Eu e o clero, carta ao patriarca de Lisboa; Considerações pacíficas ao redator da Nação; duas cartas a Magessi Tavares, intituladas: Solemnia Verba; e em 1851 publicou outro folheto: A ciência Arábico Académica, carta a Silva Túlio em resposta ao folheto dum académico.

A respeito do casamento civil também escreveu três estudos, por ocasião de ser publicado um opúsculo pelo visconde de Seabra. Sobre este assunto, Herculano fez parte da comissão revisora do projeto do Código Civil, e é dele também a última redação do Código. No ano de 1858 o círculo de Sintra quis elegê-lo seu representante em Cortes, porém ele não aceitou. Era cavaleiro da ordem da Torre e Espada, agraciado por decreto do primeiro de Março de 1839. Aceitara esta mercê, porque entendia que a merecera como soldado, mas depois dessa data rejeitou sempre todas as honras, recusando a comenda da mesma ordem ao próprio soberano, el-rei D. Pedro V, que o procurara um dia para lha oferecer; os arminhos de par em 1861, e a grã-cruz da ordem reformada de S. Tiago em 1862. O motivo destas renúncias está exposto numa carta que publicou em 7 de Dezembro de 1862 no Jornal do Comércio. Apenas aceitou a eleição, por um dos círculos do Porto, para deputado em 1840, e a de vereador, e depois a de presidente da câmara de Belém em 1852. Enquanto viveu na sua casa da Ajuda, recebia todos os sábados a visita de muitos dos seus amigos, na maior parte escritores e poetas distintos, que o respeitavam como mestre, e com quem discutia política e literatura.

Os últimos anos da sua vida foram quase dedicados aos trabalhos agrícolas, prestando assim grandes serviços à agricultura. Poucas vezes vinha a Lisboa, e a última vez foi no primeiro de Setembro de 1877 para visitar o imperador do Brasil, retirando-se para Vale de Lobos já, bastante doente, falecendo no dia 13, conforme dissemos. O seu cadáver ficou depositado na igreja da Azóia, em Santarém, no jazigo do general Gorjão, e no dia 15 realizaram-se exéquias solenes, a que concorreu muita gente de Lisboa, representantes de toda a imprensa periódica, de corporações, da Academia Real das Ciências, deputados, ministros, etc. Suas Majestades, o Rei D. Luís e Senhora D. Maria Pia, também se fizeram representar. Sobre o féretro foi colocada uma coroa em nome da imprensa periódica, onde se lia a seguinte dedicatória: A Alexandre Herculano, a imprensa, 15-9-77. As repartições e uma grande parte dos estabelecimentos de Santarém, conservaram-se fechados no dia do funeral, em sinal de sentimento. Em 27 de Junho de 1888 foram solenemente trasladados os seus restos mortais para a igreja dos Jerónimos em Belém.

Alexandre Herculano casou no primeiro de Maio de 1867 com D. Mariana Hermínia de Meira. Era também sócio da Academia Real das Ciências de Turim, da Real Academia de História de Madrid, da Real Academia de Ciências da Baviera, membro do Instituto Histórico de França e do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. Além do muito que se tem escrito sobre, o grande historiador, mencionaremos o artigo do Sr. Dr. Teófilo Braga, na Enciclopédia Portuguesa Ilustrada, publicada no Porto, vol. V, pág. 68. A Revista Contemporânea, 1.° vol., pág. 7; o Novo Almanaque de lembranças luso-brasileiro para 1879, artigo de A. X. Rodrigues Cordeiro, etc.

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