segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

"O Mar Agita-se, como um Alucinado"... Poema de Alberto d'Oliveira




O Mar Agita-se, como um Alucinado



O Mar agita-se, como um alucinado:
A sua espuma aflui, baba da sua Dor...
Posto o escafandro, com um passo cadenciado,
Desce ao fundo do Oceano algum mergulhador.

Dá-lhe um aspecto estranho a campânula imensa:
Lembra um bizarro Deus de algum pagode indiano:
Na cólera do Mar, pesa a sua Indiferença
Que o torna superior, e faz mesquinho o Oceano!

E em vão as ondas se lhe enroscam à cabeça:
Ele desce orgulhoso, impassível, sem pressa,
Com suprema altivez, com ironias calmas:

Assim devemos nós, Poetas, no Mundo entrar,
Sem nos deixarmos absorver por esse Mar
— Pois a Arte é, para nós, o escafandro das Almas!


Alberto d'Oliveira, in "Bíblia do Sonho"



Sinking of the CSS Alabama (1922), by Xanthus Smith,
Franklin D. Roosevelt Presidential Library, Hyde Park, New York.



"A guerra é um massacre entre pessoas que não se conhecem para proveito de pessoas que se conhecem mas não se massacram."
 

(Paul Valéry)
 


Paul Valery (1871-1945)


Poeta, ensaísta, filósofo e crítico francês da escola simbolista, Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry nasceu a 30 de outubro de 1871, em Sète (perto de Montpellier), de pai francês e mãe italiana, e morreu a 20 de julho de 1945, em Paris
 
Foi aluno do liceu Montpellier, pensou em fazer carreira na Marinha e estudou Matemática, mas acabou por se matricular em Direito. Cultivou o seu interesse pela poesia e arquitetura. No fim do curso, em 1892, foi para Paris. Nesta altura, o seu círculo de amigos eram poetas como Stéphane Mallarmé, André Gide e Gustave Flaubert. De entre os seus ídolos contavam-se Edgar Allan Poe, Joris-Karl Huysmans e Stéphane Mallarmé.

Valéry escreveu bastantes poemas entre 1888 e 1891, muitos dos quais foram publicados em revistas pertencentes ao movimento simbolista, onde receberam críticas favoráveis.
O seu desespero e frustração por um amor não correspondido, em 1892, levam-no a renunciar a todas as preocupações emocionais e a voltar-se para a "ideologia do intelecto". 
 
A partir de 1894 passou a escrever segundo o método científico, publicando estes escritos nos famosos Cahiers. O seu novo ídolo era agora Leonardo da Vinci. Passou a considerar a literatura como uma perigosa paixão. Inclinou-se então para a  matemática mas voltou a reencontrar a criação artística ao procurar estabelecer a unidade criadora do espírito com Introduction à la méthode de Léonard de Vinci, onde contrasta as infinitas potencialidades da mente com a inevitável imperfeição da ação. Elaborou uma ética puramente intelectual com la Soirée avec M. Edmond Teste, em 1895.

Em 1912, André Gide pressionou-o a rever os seus primeiros escritos para serem publicados. Elaborou então o programa daquilo a que chamou "poesia pura", em que o sentido dependia totalmente da musicalidade. 
 
Em 1917, publicou la Jeune Parque, considerado o seu melhor poema. Seguiram-se le Cimetière Marin e Album de vers anciens, em 1920 e Charmes em 1922, uma coleção que inclui a sua famosa meditação sobre a morte no cemitério de Sète, onde hoje se encontra o seu túmulo.
Em 1925 foi eleito para a Academia Francesa. A 20 de junho de 1935 foi eleito sócio da classe de letras da Academia das Ciências de Lisboa. 
 
Para Valéry, os versos devem produzir encantamento e o poeta tem de crer no poder da palavra e na eficácia do som do vocábulo. Os famosos poemas de la Jeune Parque e Charmes produziram um encantamento tal, que em breve muitos os sabiam de cor. 
Valéry criou uma nova sintaxe poética e anexou à literatura o domínio inexplorado da sensibilidade. O seu lirismo encontra-se também nos livros em prosa. Mais tarde escreveu vários ensaios e folhetins literários e interessou-se pelas descobertas científicas e pelos problemas políticos do seu tempo.

Paul Valéry não escreveu poesia após 1922, mas o seu lugar como um dos maiores escritores franceses estava assegurado. Passou a dedicar atenção aos problemas da escrita poética e à sua composição literária, assim como à matemática e à ciência. Tornou-se uma figura pública bastante importante. Encontrava-se com escritores, cientistas e chefes de Estado estrangeiros. 
Fortemente interessado pelo estado da física moderna, Valéry proferiu inúmeros discursos e fez viagens por toda a Europa.  (Daqui)

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