quarta-feira, 25 de março de 2015

"Sobre um Poema" - Poema de Herberto Helder


Wassily Kandinsky, Points, 1920, 110.3 × 91.8 cm, Ohara Museum of Art



Sobre um Poema 


Um poema cresce inseguramente 
na confusão da carne, 
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto, 
talvez como sangue 
ou sombra de sangue pelos canais do ser. 

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência 
ou os bagos de uva de onde nascem 
as raízes minúsculas do sol. 
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis 
do nosso amor, 
os rios, a grande paz exterior das coisas, 
as folhas dormindo o silêncio, 
as sementes à beira do vento, 
- a hora teatral da posse. 
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço. 

E já nenhum poder destrói o poema. 
Insustentável, único, 
invade as órbitas, a face amorfa das paredes, 
a miséria dos minutos, 
a força sustida das coisas, 
a redonda e livre harmonia do mundo. 

- Em baixo o instrumento perplexo ignora 
a espinha do mistério. 
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Helder 


Herberto Helder de Oliveira (Funchal, São Pedro, 23 de Novembro de 1930 - Cascais, 23 de Março de 2015) foi um poeta português, considerado o "maior poeta português da segunda metade do século XX."

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