quarta-feira, 15 de abril de 2015

"Paisagem" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Ferdinand Hodler, Lake Geneva, as seen from Chexbres, 1905



Paisagem 


Passavam pelo ar aves repentinas, 
O cheiro da terra era fundo e amargo, 
E ao longe as cavalgadas do mar largo 
Sacudiam na areia as suas crinas. 

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura, 
Era a carne das árvores, elástica e dura.
Eram as gotas de sangue da resina 
E as folhas em que a luz se descombina. 

Eram os caminhos num ir lento, 
Eram as mãos profundas do vento,
Era o livre e luminoso chamamento 
Da asa dos espaços fugitiva. 

Eram os pinheirais onde o céu poisa, 
Era o peso e era a cor de cada coisa 
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exalação afirmativa. 

Era a verdade e a força do mar largo, 
Cuja voz, quando se quebra, sobe, 
Era o regresso sem fim e a claridade 
Das praias onde a direito o vento corre. 



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