sexta-feira, 22 de maio de 2015

"Rua de Roma"... Poema de David Mourão-Ferreira


Centro histórico de RomaItália, Património Mundial pela UNESCO




Rua de Roma


Quero uma rua de Roma 
com seus rubros com seus ocres 
com essa igreja barroca 
essa fonte esse quiosque 
aquele pátio na sombra 
ao longe a luz de um zimbório 
mais o cimo dessa torre 
que não tem raiz no solo.
Em troca darei Moscovo 
Oslo Tóquio Banguecoque. 
Fugaz e secreta à força 
de se mostrar rumorosa 
só essa rua de Roma 
em cada nervo me toca. 
Por isso a quero assim toda 
opulenta de tão pobre 
com o voo desta pomba 
o ribombar desta moto 
com este bar de mau gosto 
em cuja esplanada tomo 
este espresso após o almoço 
à tarde um campari soda. 
Em troca darei Lisboa 
Londres Rio Nova Iorque 
toda a prata todo o ouro 
que não tenho em nenhum cofre 
só no cotão do meu bolso 
e no que a pátria me explora. 
Quero essa rua de Roma. 
Aqui onde estou sufoco. 
Aqui as manhãs irrompem 
de noites que nunca morrem. 
Quero esse musgo essa fonte 
essas folhas que se movem 
sob o sopro do siroco 
ora tépido ora tórrido 
frente à igreja barroca 
tão apagada por fora 
mas que do altar ao coro 
por dentro aparece enorme. 
Quero essa rua de Roma 
casta rugosa remota. 
Em troca darei as lobas 
que não aleitaram Rómulo 
mas me deixaram na boca 
o travo do transitório. 
Quero essa rua de Roma 
sem conhecer quem lá mora 
além da madonna loura 
misto de corça e de cobra 
que ao longo de tantas noites 
tanta insónia me provoca. 
Quanto às restantes pessoas 
inventarei como sofrem. 
Quero essa rua de Roma. 
Terá de ser sem demora. 
Sabemos lá quando rondam 
abutres à nossa roda. 
Mas não me lembro do nome 
da rua que assim evoco 
soberba se bem que tosca 
direita se bem que torta 
com um Sol que tanto a doura 
como a seguir a devora. 
Em troca darei o troco 
do que por nada se troca 
o florescer de uma bomba 
o deflagrar de uma rosa. 
Quero essa rua de Roma. 
Amanhã. Ontem. Agora. 
Que importa saber-lhe o nome 
se a trago dentro dos olhos. 
Há uma igual em Verona. 
Outra ainda mais a norte. 
Outra talvez nem tão longe 
num burgo que o mundo ignora. 
Outra que apenas se encontra 
onde a paixão a descobre. 
Mas rua sempre de Roma. 
Romana em todo o seu porte 
mistura de alma e de corpo 
aquém além do ilusório. 
Romana mesmo que em Roma 
não haja quem a recorde. 
Onde quer que o sexo a sonhe 
e o coração a coloque 
é lá que todo sou todo. 
Aqui não.
 Aqui não posso.


David Mourão-Ferreira, in 'Os Ramos Os Remos'






 Ettore Roesler Franz
Retrato de Ettore Roesler Franz (1845-1907) por Giacomo Balla (1871-1958),
 pintado em Villa d'Este, c. 1902, exposto na Bienal de Veneza de 1903


Ettore Roesler Franz (Roma, 11 de maio de 1845 - Roma, 26 de março de 1907) foi um pintor e fotógrafo italiano de origem alemã. Era especialista na técnica de aguarela. Seu trabalho mais famoso é uma série de 120 aguarelas chamada "Roma sparita", onde ele retratou com grande realismo partes da cidade que ele supunha que seriam destruídas no esforço de modernização. Muitas dessas aquarelas estão hoje no Museu de Roma em Trastevere.
Em 1902, ele foi retratado por Giacomo Balla numa famosa pintura exibida na Bienal de Veneza.




"Roma sparita" 
Aguarelas de Ettore Roesler Franz

Ponte Rotto em Roma



 Piazza Barberini



















 

Pensamento


"A humanidade que deveria ter seis mil anos de experiência, recai na infância a cada geração."




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