segunda-feira, 29 de junho de 2015

"Como de súbito na vida tudo cansa!" - Poema de Jorge de Sena



Henry Moore, Reclining Figure (1951), localizada no exterior do Museu  Fitzwilliam, Cambridge




Como de Súbito na Vida 


Como de súbito na vida tudo cansa! 
e cansa-nos a vida e nos cansamos dela, 
ou ela é quem se cansa de nós mesmos, 
na teima de existir e desejar? 
Porque, neste cansaço, não o que não tivemos, 
ou que perdemos, ou nos foi negado, 
o que de que se cansa, mas também 
o quanto temos, nos ama, se nos dá 
a até os simples gozos de estar vivo. 
Um dia é como se uma corda se quebrara, 
ou como se acabara de gastar-se, 
que nos prendia a tudo e tudo a nós. 
Não é que as coisas percam importância, 
as pessoas se afastem, se recusem, 
ou nós nos recusemos. Não. É mais 
ou menos que isto - se deseja igual 
ao como até há pouco desejávamos. 
É talvez mais. Mas sem valor algum. 
O dia é noite, a noite é dia, a luz 
se apaga ou se derrama sobre as coisas 
mas elas deixam de ter forma e cor, 
ou se sumir no espaço como forma oculta. 
E o que sentimos é pior que quanto 
dantes sentíamos nas horas ásperas 
da fúria de não ter ou de ter tido. 
Porque se sente o não sentir. Um tédio 
Não como o tédio antigo. Nem vazio. 
O não sentir. Que cansa como nada. 
Até dizê-lo cansa. É inútil. Cansa. 







Henry Spencer Moore (Castleford, Yorkshire, 1898Perry Green, Hertfordshire, 1986) foi um escultor e desenhista britânico que desenvolveu uma obra tridimensional predominantemente figurativa, com breves incursões pela abstração.
Filho de um engenheiro de minas, Moore se tornou conhecido por suas esculturas abstratas em grande escala, de bronze fundido e de mármore. Substancialmente sustentado pela instituição de arte britânica, Moore ajudou a introduzir uma forma especial de modernismo no Reino Unido.
Recebeu as condecorações Ordem de Mérito, Ordem dos Companheiros de Honra e fazia parte da Federação de Artistas Britânicos (Federation of British Artists).
Frequentou o Leeds College of Art e o Royal College of Art de Londres. Sua primeira exposição individual ocorreu em Londres, em 1928, onde apresentou 42 esculturas e 51 desenhos.
Foi influenciado sobretudo pela arte mexicana pré-colombiana, assim como pela arte arcaica e renascentista, pelo Surrealismo e pelo Construtivismo. A essa cultura visual vasta e multiforme do artista soma-se uma sensível capacidade de análise da natureza. (Daqui) 



Henry Moore in his studio in England (1975), by Allan Warren

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