sexta-feira, 12 de junho de 2015

"Lisboa" - poema de Tomas Tranströmer


António Neves, Elétrico - Lisboa, Acrílico, 75x55



Lisboa



No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes. 
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões. 
Acenavam através das grades. 
Gritavam que lhes tirassem o retrato.

"Mas aqui!", disse o condutor e riu à socapa como se cortado ao meio,
"aqui estão políticos". Vi a fachada, a fachada, a fachada 
e lá no cimo um homem à janela, 
tinha um óculo e olhava para o mar. 

Roupa branca no azul. Os muros quentes. 
As moscas liam cartas microscópicas. 
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa: 
"será verdade ou só um sonho meu?" 



Tomas Tranströmer, in "21 poetas secretos", 1987, Vega. 
(Tradução de Vasco Graça Moura)



António Neves, Elétrico na Estrela, Lisboa, Acrílico, 50x140


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