domingo, 19 de julho de 2015

"A morte devagar" - de Martha Medeiros


Claudia SoriaA Walk in the Woods2013, Acrílico e colagem de papel sobre madeira



A morte devagar

Morre lentamente quem é escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos itinerários. Quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor, e não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos 'is' a um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos, coração aos tropeços e os sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca trocar o certo pelo duvidoso para ir atrás de um sonho, quem não se permite fugir dos conselhos sensatos, pelo menos uma vez na vida.

Morre lentamente quem não viaja quem não lê quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem não tem amor-próprio, quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua falta de sorte, da chuva incessante.

Morre lentamente quem abandona um projeto antes de iniciá-lo. Quem não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe perguntam sobre algo que sabe.

Evitamos a morte em pequenas doses, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples ato de respirar. Somente a paciência ardente fará que conquistemos uma felicidade plena.


Trecho da crónica "A Morte Devagar", publicada por Martha Medeiros no dia 1 de novembro de 2000, muitos vezes, equivocadamente, atribuído a Pablo Neruda



Martha Medeiros

Martha Medeiros, brasileira, nasceu no dia 20 de agosto de 1961. Colunista do jornal “Zero Hora” de Porto Alegre, e “O Globo” do Rio de Janeiro, desistiu da carreira de Publicitária para ingressar no mundo da literatura, como escritorajornalistaaforista e poeta.

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