sábado, 15 de agosto de 2015

"A máscara da palavra" - Poema de Ana Hatherly


A Poesia Visual de Ana Hatherly


“[…] No nosso século, a Poesia Visual, quando surge por intermédio da Poesia Concreta, o que ela propõe não é uma solução de continuidade ou de metamorfose de tendências do passado: muito pelo contrário representa uma posição de ruptura”. (Hatherly 1989, 3)


A máscara da palavra


A máscara da palavra
revela-esconde
o rosto vago
de um sentido mundo

Paraíso acidental
metódico exercício
a máscara da palavra
colou-se ao rosto:
agora é
o nosso mais vital artifício

Com a máscara da palavra
reinventamos
o som da voz amada
que nos inunda
com seu luar de espuma


Ana Hatherly,
in A idade da escrita, 1998





Poeta de vanguarda, membro destacado do grupo da Poesia Experimental Portuguesa, Ana Hatherly foi um dos teorizadores desse movimento, iniciado nos anos 60 em Lisboa. Em 1958 iniciou a sua carreira literária e acabou por produzir uma extensa obra poética, traduzida nas principais línguas europeias e incluída em numerosas antologias internacionais. Dedicou-se também à investigação e divulgação da cultura portuguesa do período barroco, tendo publicado numerosos estudos sobre essa matéria e fundado a revista Claro-Escuro.
Doutorada pela Universidade da Califórnia em Berkeley, foi Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa onde fundou e dirigiu o Instituto de Estudos Portugueses. O nome Ana Hatherly aparece sempre ligado às vanguardas artísticas portuguesas e, neste campo, a autora deixou uma vasta produção nas áreas das artes visuais, pintura, desenho e cinema. O início da sua carreira artística data da década de 1960, tendo exposto os seus trabalhos, pela primeira vez, em 1967. Realizou várias exposições individuais e participou em numerosas exposições colectivas portuguesas e internacionais. Faleceu a 5 de agosto de 2015, em Lisboa. Tinha 86 anos. (Daqui)






"O meu trabalho começa com a escrita – sou um escritor que deriva para as artes visuais através da experimentação com a palavra. A Poesia Concreta foi um estádio necessário, mas mais importante foi o estudo da escrita, impressa e manuscrita […]. O meu trabalho também começa com a pintura – sou um pintor que deriva para a literatura através dum processo de consciencialização dos laços que unem todas as artes, particularmente na nossa sociedade. […] Em suma, posso dizer que o meu trabalho diz respeito a uma investigação do idioma artístico, particularmente do ponto de vista da representação – mental e visual."

 (Hatherly 1992, 75)




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