segunda-feira, 28 de setembro de 2015

"A Cachoeira de Paulo Afonso" - Poema de Castro Alves





A Cachoeira de Paulo Afonso


A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo!
A briga colossal dos elementos!
As garras do Centauro em paroxismo
Raspando os flancos dos parceis sangrentos.
Relutantes na dor do cataclismo
Os braços do gigante suarentos
Aguentando a ranger (espanto! assombro!)
O rio inteiro, que lhe cai no ombro!


Castro Alves

O poeta baiano Castro Alves publicou o poema A Cachoeira de Paulo Afonso, parte integrante da obra Os Escravos, em 1876.






"Depois de quatorze léguas de viagem, desde a foz do Rio S. Francisco, chega-se a esta cachoeira, de que se contam tantas grandezas fabulosas. 
Para bem descrevê-la, imaginai uma colossal figura de homem sentado com os joelhos e os braços levantados, e o rio de S. Francisco caindo com toda sua força sobre as costas. Não podereis ver sem estar trepado em um dos braços, ou em qualquer parte que lhe fique ao nível ou a cavaleiro sobre a cabeça. 
Parece arrebentar de debaixo dos pés, como a formosa cascata de Tivoli junto a Roma. Um mugir surdo e continuado, como os preparos para um terremoto, serve de acompanhamento à música estrondosa de variados e diversos sons, produzidos pelos choques das águas. Quer elas venham correndo velocíssimas ou saltando por cima das cristas de montanhas; quer indo em grandes massas de encontro a elas, e delas retrocedendo: caindo em borbotão nos abismos e deles se erguendo em úmida poeira, quer torcendo-se nas vascas do desespero, ou levantando-se em espumantes escarcéus; quer estourando como uma bomba; quer chegando-se aos vaivéns, e brandamente e com espandanas ou em flocos de escuma alvíssima como arminhos — é um espetáculo assombroso e admirável. 
A altura da grande queda foi calculada em 362 palmos. Há 17 cachoeiras, que são verdadeiros degraus do alto trono, onde assentou-se o gigante de nome Paulo Afonso. Muitas grutas apresentam os rochedos deste lugar, sombrias, arejadas, arruadas de cristalinas areias, banhadas de frígidas linfas.
S.M, o imperador visitou esta cachoeira na manhã de 20 de outubro de 1859. O presidente, Dr. Manuel Pinto de Souza Dantas, teve a ideia de erigir um monumento à visita imperial." 


Nota incorporada por Castro Alves no final do texto do poema. 
(Transcrita do Diário da Bahia

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