quinta-feira, 24 de setembro de 2015

"Enquanto pasta alegre o manso gado" - Poema de Tomás António Gonzaga


Henry Herbert La Thangue (British, 1859-1929), Back from the common, Heyshott, West Sussex



Lira XIX


Enquanto pasta alegre o manso gado, 
Minha bela Marília, nos sentemos 
À sombra deste cedro levantado.

Um pouco meditemos 
Na regular beleza,
Que em tudo quanto vive, nos descobre
A sábia natureza. 

Atende, como aquela vaca preta 
O novilhinho seu dos mais separa, 
E o lambe, enquanto chupa a lisa teta.
Atende mais, ó cara, 
Como a ruiva cadela
Suporta que lhe morda o filho o corpo,
E salte em cima dela. 

Repara, como cheia de ternura 
Entre as asas ao filho essa ave aquenta, 
Como aquela esgravata a terra dura,
E os seus assim sustenta; 
Como se encoleriza,
E salta sem receio a todo o vulto,
Que junto deles pisa. 

Que gosto não terá a esposa amante, 
Quando der ao filhinho o peito brando, 
E refletir então no seu semblante!
Quando, Marília, quando 
Disser consigo: “É esta
De teu querido pai a mesma barba,
A mesma boca, e testa.”



Tomás António Gonzaga,
in Marília de Dirceu, Parte I (1792)



Tomás António Gonzaga

Tomás António Gonzaga  (Miragaia, Porto, 11 de agosto de 1744 — Ilha de Moçambique, 1810), cujo nome arcádico é Dirceu, foi um jurista, poeta e ativista político português das Américas. Considerado o mais proeminente dos poetas árcades, é ainda hoje estudado em escolas e universidades por seu "Marília de Dirceu" .
Tomás Gonzaga foi para o Brasil com 7 anos de idade. Fez seus primeiros estudos com os jesuítas. Em Portugal, formou-se em Coimbra e escreveu o Tratado de Direito Natural, tese com a qual se candidatou à carreira universitária. Foi magistrado em Portugal, retornando ao Brasil com 38 anos, na condição de Ouvidor de Vila Rica. Datam dessa época, as Liras de Marília de Dirceu (1ª parte), inspiradas em Maria Joaquina Dorotéia de Seixas, noiva do poeta. Em 1789, foi preso por implicações na Inconfidência Mineira. Remetido para a prisão da Ilha das Cobras, escreve, no cárcere, a segunda parte das Liras. Em 1792, parte, degredado, para Moçambique, onde reconstrói a vida e morre.
Sua principal obra são as Liras de Marília de Dirceu, inspiradas em seu romance com Maria Dorotéia. Esta obra apresenta-se dividida em duas partes distintas: a primeira discorre sobre a iniciação amorosa, o namoro, a felicidade do amante, os sonhos de uma família, a defesa da tradição e da propriedade, sempre numa postura patriarcal:

“Irás a divertir-te na floresta,
sustentada, Marília, no meu braço;
aqui descansarei a quente sesta
dormindo um leve sono em teu regaço
enquanto a luta jogam os pastores,
e emparelhados correm nas campinas
toucarei teus cabelos de boninas,
nos troncos gravarei os teus louvores.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!”

A segunda parte, sob a influência dos sofrimentos provocados pela cadeia, mostra-nos uma série de reflexões que abordam desde a justiça dos homens até os caminhos do destino e a eterna consolação no amor que sente por Marília:

“Nesta triste masmorra,
de um semivivo corpo sepultura,
inda, Marília, adoro
a tua formosura.
amor na minha idéia te retrata;
busca, extremoso, que eu assim resista,
à dor imensa, que me cerca e mata.”

As Cartas Chilenas, por outro lado, completam a obra de Gonzaga. São poemas satíricos em forma de carta que circulavam em Vila Rica às vésperas da Inconfidência, eram assinadas por Critilo e endereçados a Doroteu. A autoria das Cartas foi motivo de longas discussões entre os historiadores; só recentemente definiu-se a questão: Critilo, morador em Santiago do Chile (na verdade, Vila Rica), narra os desmandos e arbitrariedades do governador chileno, Fanfarrão Minésio, um político sem moral (na realidade, Luís da Cunha Meneses, governador de Minas Gerais até pouco antes da Inconfidência).


TEXTO I
Cartas Chilenas (fragmento)

“Escuta a história de um modesto chefe
Que acaba de reger a nossa Chile:
Tem pesado semblante, a cor é baça
O corpo de estatura um tanto esbelta,
Feições compridas e olhadura feia,
Tem grossas sobrancelhas, testa curta,
Nariz direito e grande, fala pouco
Em rouco, baixo som de mau falsete,

Sem ser velho, já tem cabeço ruço
E cobre este defeito a fria calva
A força de polvilho, que lhe deita.

Ainda me parece que estou vendo
No gordo rocinante escarranchado
As longas calças pelo umbigo atadas.
Amarelo colete e sobre tudo
Vestida uma vermelha e justa farda.
De cada bolso da fardeta, pendem
Listadas pontas de dois brancos lenços;
Na cabeça vazia se atravessa
Um chapéu desmarcado, nem sei como
Sustenta o pobre só do laço o peso.

[Tomás Antônio Gonzaga]


TEXTO II - LIRA A

“Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
que vivia de guardar alheio gado
de tosco trato, de expressões grosseiro,
dos frios gelos e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal e nele assisto;
dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
das brancas ovelhinhas tiro o leite
e mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!”

[Tomás Antônio Gonzaga]


LIRA B

“Eu, Marilia, não fui nenhum vaqueiro,
fui honrado pastor da tua aldeia;
vestia finas lãs e tinha sempre
a minha choça do preciso cheia.
Tiraram-me o casal e o manso gado,
nem tenho a que me encoste um só cajado.

Para ter que te dar, é que eu queria
de mor rebanho ainda ser o dono;
prezava o teu semblante, os teus cabelos
ainda muito mais que um grande trono.
Agora que te oferece já não vejo,
além de um puro amor, de um são desejo.

[Tomás Antônio Gonzaga]
(Daqui)

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