sábado, 12 de setembro de 2015

"No Fim do Verão" - Poema de Eugénio de Andrade


Jorge Pinheiro (n.1931), O Jogo da Macaca I, 2004, Óleo sobre tela, 140x180 cm




No Fim do Verão


No fim do verão as crianças voltam, 
correm no molhe, correm no vento. 
Tive medo que não voltassem. 
Porque as crianças às vezes não 
regressam. Não se sabe porquê 
mas também elas 
morrem. 
Elas, frutos solares: 
laranjas romãs 
dióspiros. Sumarentas 
no outono. A que vive dentro de mim 
também voltou; continua a correr 
nos meus dias. Sinto os seus olhos 
rirem; seus olhos 
pequenos brilhar como pregos 
cromados. Sinto os seus dedos 
cantar com a chuva. 
A criança voltou. Corre no vento. 


Eugénio de Andrade, in 'O Sal da Língua'




Jorge Pinheiro, O corvo, Óleo sobre tela, 1989



“Não tenho a certeza de nada, mas a visão das estrelas faz-me sonhar.” 



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