terça-feira, 1 de setembro de 2015

"Tu és a esperança, a madrugada" - Poema de Eugénio de Andrade


Johann Gottfried Steffan (1815-1905), Early morning in the Netstal with the Glärnisch in the background, 1873



Tu és a esperança, a madrugada


Tu és a esperança, a madrugada. 
Nasceste nas tardes de setembro, 
quando a luz é perfeita e mais doirada, 
e há uma fonte crescendo no silêncio 
da boca mais sombria e mais fechada. 
Para ti criei palavras sem sentido, 
inventei brumas, lagos densos, 
e deixei no ar braços suspensos 
ao encontro da luz que vem contigo. 
Tu és a esperança onde deponho 
meus versos que não podem ser mais nada. 
Esperança minha, onde meus olhos bebem 
fundo, como quem bebe a madrugada. 


Eugénio de Andrade,
As Mãos e os Frutos, 1948 



Johann Gottfried Steffan, Young herdsman with goats and sheep, 1858



"A sabedoria da natureza é tal que não produz nada de supérfluo ou inútil." 




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