sábado, 31 de dezembro de 2016

"Colegial" - Poema de José Régio


Alexis Vollon  (French, 1865-1945), Petit garçon en costume marin



Colegial


Em cima da minha mesa,
Da minha mesa de estudo,
Mesa da minha tristeza
Em que, de noite e de dia,
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo,
A mim,
Também,
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!

À cabeceira do leito,
Dentro dum lindo caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora
Que se parece contigo,
E que tem, ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que tenho,
De menino pequenino...!

No fundo da minha mala,
Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços — e nada leves! —
Atados com um retrós...

Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(Sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta!





domingo, 25 de dezembro de 2016

"Natal Chique" - Poema de Vitorino Nemésio


Luis Claudio Morgilli (Brasil, 1955,  Impressionist painter),  Paris, Óleo sobre tela



Natal Chique


Percorro o dia que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.


Vitorino Nemésio,
in 'Antologia Poética' 


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

"Versos a uma cabrinha que eu tive" - Poema de Vitorino Nemésio


Richard Ansdell (English, 1815-1885), Goatherds, Gibraltar - ­Looking across the strait into Africa, 1871 



Versos a uma cabrinha que eu tive


Com seu focinho húmido
Esta cabrinha colhe
Qualquer sinal de noite
De que a erva se molhe.

Daquela flor pendente
Pra que seu passo apela
Parece que a semente
É o badalinho dela.

Sua pelerina escura
Vela-a da noite sentida;
Tem cada pêlo uma gota,
Com passos, poeira, vida.

De silêncio, silvas, fome,
Compõe nos úberos cheios
Toda a razão do seu nome
E fruto de seus passeios.

Assim já marcha grave
Como os navios entrando,
Pesada dos pensamentos
Da sua vida suave.

E enfim, no puro penedo
De seus casquinhos tocado,
Está como o ovo e a ave:
Grande segredo
Equilibrado. 


Eu comovido a oeste, 1940


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

"Natal" - Poema de António Salvado


Augustus Edwin Mulready (British, 1844–1905), Uncared for, 1871



Natal


Que nos trazes a não ser 
lágrimas cada vez mais, 
natal eterno a nascer 
de outros natais... 
Ligeira esperança que toca 
os nossos olhos molhados 
e o sangue da nossa boca, 
amordaçados... 

Ah bruxuleante luz 
acenando ao longe em vão 
e que a dor nos reproduz 
em ilusão... 
Ternura dum breve instante 
que o próprio instante desterra, 
morta no facto constante 
de tanta guerra... 


 in 'A Mar Arte'



Augustus Edwin Mulready (British, 1844–1905),  Fatigued Minstrels, 1883



"Sejamos bons e depois seremos felizes. Ninguém recebe o prémio sem primeiro fazer por isso."



segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

"Hino à Solidão" - Poema de António Feijó





Hino à Solidão


Diz-se que a solidão torna a vida um deserto; 
Mas quem sabe viver com a sua alma nunca 
Se encontra só; a alma é um mundo, um mundo aberto 
Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca. 

Mundo vasto que mil existências povoam: 
Imagens, concepções, formas do sentimento, 
— Sonhos puros que nele em beleza revoam 
E ficam a brilhar, sóis do seu firmamento. 

Dia a dia, hora a hora, o pensamento lavra 
Esse fecundo chão onde se esconde e medra 
A semente que vai germinar na palavra, 
Cantar no som, flores na cor, sorrir na pedra! 

Basta que certa luz de seus raios aqueça 
A semente que jaz na sua leiva escondida, 
Para que ela, a sorrir, desabroche e floresça, 
De perfumes enchendo as estradas da vida. 

Sei que embora essa luz nem para todos tenha 
O mesmo brilho, o mesmo impulso criador, 
Da glória, sempre vã, todo o asceta desdenha, 
Vivendo como um deus no seu mundo interior. 

E que mundo sublime, esse em que ele se agita! 
Mundo que de si mesmo e em si mesmo criou, 
E em cuja criação o seu sangue palpita, 
Que não há deus estranho aos orbes que formou. 

Nem lutas, nem paixões: ideais serenidades 
Em que o tempo se esvai sob o encanto da hora... 
O passado e o porvir são ânsias e saudades: 
Só no instante que passa a plenitude mora. 

Sombra crepuscular, que a noite não atinge, 
Nem a aurora desfaz: rosicler e luar, 
Meia tinta em que a alma abre os lábios de esfinge, 
E o seu mistério ensina a quem sabe escutar. 

Mas então, inundando essa penumbra doce, 
De não sei que sublime esplendor sideral, 
Como se a emanação dum ser divino fosse, 
Deixa no nosso olhar um reflexo imortal. 

Na vertigem que a vida exalta e desvaria, 
Pára alguém para ouvir um coração que bate 
No seio mais formoso, o olhar que se extasia 
Vê o mundo que nele em ânsias se debate? 

É só na solidão que a alma se revela, 
Como uma flor noturna as pétalas abrindo, 
A uma luz, que é talvez o clarão duma estrela, 
Talvez o olhar de Deus, de astro em astro caindo... 

E dessa luz, a flor sem forma, há pouco obscura, 
Recebe o seu quinhão de graça e de pureza, 
Como das mãos do artista, animando a escultura, 
O mármore recebe a sua alma — a beleza. 

Se sofrer é pensar, na paz do isolamento, 
Como dum cálix cheio o líquido extravasa, 
A dor, que a alma empolgou, transborda em pensamento, 
E a pouco e pouco extingue o fogo em que se abrasa. 

Como a montanha de oiro, a alma, em seu mistério, 
À superfície nunca o seu teor revela; 
Só depois de sondado e fundido o minério 
Se conhece a riqueza acumulada nela. 

Corações que a existência em tumulto arrebata! 
Esse oiro só se extrai do minério candente, 
No silêncio, na paz, na quietação abstrata, 
Das estrelas do céu sob o olhar indulgente... 


António Feijó, (1859-1917), in 'Sol de Inverno



Pieter Saenredam, Cathedral of Saint John at 's-Hertogenbosch, 1646



"Vive com os homens como se Deus te estivesse a ver; fala com Deus como se os homens te estivessem a ouvir."




domingo, 18 de dezembro de 2016

"Os Coelhinhos" - Poema de Odylo Costa Filho


Frederick Morgan, "Feeding the Rabbits" also known as "Alice in Wonderland"



Os Coelhinhos 


Iam dois coelhinhos
andando apressados
para o Céu — com medo
de serem caçados.

E também com medo
de passarem fome.
Pois — quando não dorme —
o coelhinho come.

E ainda tinha os filhos
que a coelha esperava...
O Céu era longe
e a fome era brava.

Jesus riu, com pena:
fez brotar na Lua
— para eles — florestas
de cenoura crua.


In Os bichos do céu, poesia (1972)



sábado, 17 de dezembro de 2016

"Os anjos" - Poema de Vitorino Nemésio


Simon Glücklich (1863-1943), Santa Cecília acompanhada de anjos, 1886



Os anjos


Os anjos são rijos como as pedras
E leves como as plumas.
Na leira rasa de aves, Tu, que redras
Terra, névoas e espumas,
—Deus, de teu nome! —sabes
Que um anjo é pouco e imenso:
Por isso cabes
No anjo e ergues o incenso.

Desfaleço a pensar-te,
Ó ser de Anjos e Deus
Que baixa em mim:
Sobe-me na alma, que ando a procurar-te
E dizendo-te Deus
Acho-te assim.

Anjos são os terríveis
Modos de Deus connosco;
Nós, as suas possíveis
Transparências a fosco.

Lívidos, sem respiração
Ficávamos do toque
Da primeira asa vinda;
Mas eles rondam apenas a oração
Que múrmura os evoque,
E vão-se, e tornam ainda.

Deles para cima, ainda mais graus de glória
Relutam ao sentido
Que deles vem à memória
Como uma bolha de ar na água do olvido:
No mais, são tão pesados,
Os anjos leves ao justo…
Tão alados,
Mas desgostosos do nosso susto!

É isso! Disse-mo agora
O verbo súbito surpreso:
Ser anjo é espanto da demora
Nossa e do peso pávido
Que nos estende.
Terrível é quem toca terra
Para a levar, e não a rende.

Que o anjo, de si, é àvido
De transe e rapidez,
E é ele que chora
Nosso chumbo, hora a hora:
É ele que não entende
A nossa estupidez.


in O Pão e a Culpa, Lisboa 1955


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

"Dia de Natal" - Poema de António Gedeão


John Koch (American, 1909-1978), Christmas Tree



Dia de Natal


Hoje é dia de ser bom. 
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças, 
de falar e de ouvir com mavioso tom, 
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças. 
É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem, 
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria, 
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem, 
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria. 

Comove tanta fraternidade universal. 
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos, 
como se de anjos fosse, 
numa toada doce, 
de violas e banjos, 
entoa gravemente um hino ao Criador. 
E mal se extinguem os clamores plangentes, 
a voz do locutor 
anuncia o melhor dos detergentes. 

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu 
e as vozes crescem num fervor patético. 
(Vossa excelência verificou a hora exata em que o Menino Jesus nasceu?) 
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.) 
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas. 
Toda a gente acotovela, se multiplica em gestos esfuziante, 
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas 
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante. 

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates, 
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica, 
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates, 
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica. 

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito, 
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores. 
E como se tudo aquilo nos dissesse diretamente respeito, 
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores. 

A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento. 
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar. 
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento 
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar. 

Mas a maior felicidade é a da gente pequena. 
Naquela véspera santa 
a sua comoção é tanta, tanta, tanta, 
que nem dorme serena. 
Cada menino abre um olhinho 
na noite incerta 
para ver se a aurora já está desperta. 
De manhãzinha 
salta da cama, 
corre à cozinha em pijama. 

Ah!!!!!!! 

Na branda macieza 
da matutina luz 
aguarda-o a surpresa 
do Menino Jesus. 

Jesus, 
o doce Jesus, 
o mesmo que nasceu na manjedoura, 
veio pôr no sapatinho 
do Pedrinho 
uma metralhadora. 

Que alegria 
reinou naquela casa em todo o santo dia! 
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas, 
fuzilava tudo com devastadoras rajadas 
e obrigava as criadas 
a caírem no chão como se fossem mortas: 
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá. 
Já está! 
E fazia-as erguer para de novo matá-las. 
E até mesmo a mamã e o sisudo papá 
fingiam 
que caíam 
crivados de balas. 

Dia de Confraternização Universal, 
dia de Amor, de Paz, de Felicidade, 
de Sonhos e Venturas. 
É dia de Natal. 
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade. 
Glória a Deus nas Alturas. 


António Gedeão, in 'Antologia Poética'


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

"Quando eu partir" - Poema de Ruy Cinatti


Abbott Fuller Graves (American, 1859-1936), Gardener



Quando eu partir


Quando eu partir, quando eu partir de novo
A alma e o corpo unidos,
Num último e derradeiro esforço de criação;
Quando eu partir...
Como se um outro ser nascesse
De uma crisália prestes a morrer sobre um muro estéril,
E sem que o milagre se abrisse
As janelas da vida...
Então pertencer-me-ei.
Na minha solidão, as minhas lágrimas
Hão de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência,
E eu serei o senhor da minha própria liberdade.
Nada ficará no lugar que eu ocupei.
O último adeus virá daquelas mãos abertas
Que hão de abençoar um mundo renegado
No silêncio de uma noite em que um navio
Me levará para sempre.
Mas ali
Hei de habitar no coração de certos que me amaram;
Ali hei de ser eu como eles próprios me sonharam;
Irremediavelmente...
Para sempre.





Abbott Fuller Graves, The Flower Garden



"Toda a obra de um homem, seja em literatura, música, pintura, arquitetura ou em qualquer outra coisa, é sempre um autorretrato; e quanto mais ele se tentar esconder, mais o seu caráter se revelará, contra a sua vontade."

Samuel Butler (1612-1680)



quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"Sebastião em sonho" - Poema de Georg Trakl


Pompeo Batoni (Italian painter, 1708–1787), The Sacred Family



Sebastião em sonho

1.

Uma mãe pariu a criança branca à luz da lua, 
À sombra da nogueira, do secular sabugueiro, 
Ébria do mosto das papoilas, do lamento dos melros; 
E silenciosas 
Inclinavam-se sobre essa mulher em compaixão as barbas de um rosto, 
Mudas no escuro da janela; e velhos trastes 
Ancestrais 
Apodreciam para ali; amor e fantasia outonal.

Tão estranho era o dia do ano, a triste infância, 
Quando o rapazinho desceu suavemente para as frescas águas, para os argênteos peixes, 
Paz e continência; 
Quando, pétreo, se atirou sob corcéis desenfreados, 
Na noite cinzenta a sua estrela desceu sobre ele; 
Ou quando, pela mão gelada da mãe, 
Pastava ao cair da noite pelo outonal cemitério de São Pedro, 
Frágil cadáver jazia mudo no escuro da câmara 
E ele erguia, para olhá-lo as frias pálpebras.

Ele, porém, era uma avezinha em troncos nus, 
O sino alongava-se no Novembro da noite, 
O silêncio do pai, quando a dormir descia a escada crepuscular. 

2.

Paz da alma. Solitária noite de inverno, 
As negras silhuetas dos pastores no velho lago; 
Criança na cabana de palha; oh, como baixava 
Levemente o rosto em negra febre. 
Noite sagrada.

Ou quando, pela dura mão do pai, 
Subia em silêncio o sombrio monte do Calvário 
E no entardecer, em nichos dos rochedos, 
A figura azul do Homem atravessava a sua lenda, 
Da ferida sob o coração corria purpúreo o sangue. 
Oh, como se elevava suavemente a cruz em escura alma.

Amor; quando em escuros becos a neve derretia, 
E no velho sabugueiro ficava alegremente presa uma brisa azulada. 
Na abóbada da sombra da nogueira; 
E silenciosamente aparecia ao rapaz o seu anjo rosado.

Alegria; quando em frescas salas soava à noitinha uma sonata, 
Nos vigamentos castanhos 
Uma borboleta azul saía da crisálida de prata.

Oh, a proximidade da morte. Em pétreo muro 
Curvava-se uma cabeça amarela, a criança calada, 
Quando nesse mês de Março, a lua declinava. 

3.

Sino rosado da Páscoa na abóbada tumular da noite 
E as vozes argênteas das estrelas, 
que fazem descer tremenda e sombria loucura da fronte de quem dorme.

Oh, que silencioso o andar rio azul abaixo 
Meditando sobre coisas olvidadas, enquanto nos ramos verdes 
O chamamento do melro leva um estranho ser à decadência.

Ou quando, pela ossuda mão do ancião, 
Passava à noite pela muralha arruinada da cidade 
E aquele levava no casaco negro uma criança rosada, 
O espírito do mal aparecia na sombra da nogueira.

Tatear por sobre os verdes degraus do verão. Oh, como o jardim 
Caiu suavemente no silêncio castanho do outono, 
Aroma e melancolia do velho sabugueiro, 
Quando na sombra de Sebastião se extinguiu a voz argêntea do anjo.


(1913) 

(Tradução de João Barrento)



Georg Trakl


Georg Trakl (Salzburgo, 3 de fevereiro de 1887 — Cracóvia, 3 de novembro de 1914) foi um proeminente poeta expressionista austríaco do início do século XX.
A poesia de Georg Trakl, assim como a de grande parte dos expressionistas, é marcada por profunda angústia, melancolia e desespero humano, priorizando o mundo interior em oposição ao exterior. Assim sendo, uma poesia extremamente subjetiva. Outro aspecto marcante de sua poesia é seu diálogo contante com o simbolismo francês, em especial Arthur Rimbaud e Charles Baudelaire. Atualmente sua obra goza de grande fama e prestígio internacional, sendo considerado por muitos críticos o maior dos poetas expressionistas. (Daqui)



terça-feira, 13 de dezembro de 2016

"Silêncio" - Poema de Octavio Paz


Charles Courtney Curran, Far Away Thoughts, Private collection




Silêncio


Assim como do fundo da música 
brota uma nota 
que enquanto vibra cresce e se adelgaça 
até que noutra música emudece, 
brota do fundo do silêncio 
outro silêncio, aguda torre, espada, 
e sobe e cresce e nos suspende 
e enquanto sobe caem 
recordações, esperanças, 
as pequenas mentiras e as grandes, 
e queremos gritar e na garganta 
o grito se desvanece: 
desembocamos no silêncio 
onde os silêncios emudecem. 


Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra" 
Tradução de Luis Pignatelli 


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

"Bolinhas de sabão" - Poema de Valéria Tarelho


Luigi Amato (italian painter, 1889-1961), Blowing Bubbles



Bolinhas de sabão


Bolinhas de sabão
sobem sobem
até que explodem
desaparecem no ar

Mais um sopro
e lá vão elas
- tão belas e circulares -
soltas tontas pelos ares

Cintilantes e molhadas
as bolhas são recheadas
de gostosas gargalhadas
e doces sonhos de criança

Todas elas redondinhas
grandes e pequenininhas
pairam brilham bailam
se movimentam
na dança
no embalo do vento

Sobem sobem
se desmancham
- uma a uma
então estoura -
e vão-se embora por fim

Nem assim
o encantamento
evapora





Danny MacAskill's Imaginate


domingo, 11 de dezembro de 2016

"Apesar das ruínas e da morte" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Tony Robert-Fleury (1837-1912), Portrait of a seated woman



Apesar das ruínas e da morte


Apesar das ruínas e da morte, 
Onde sempre acabou cada ilusão, 
A força dos meus sonhos é tão forte, 
Que de tudo renasce a exaltação 
E nunca as minhas mãos ficam vazias. 


in 'Antologia Poética'



"Noite de Natal" - Poema de António Feijó


Augustus Edwin Mulready (British, 1844–1905),  A Recess on a London Bridge, 1879



Noite de Natal

[A um pequenito, vendedor de jornais] 


Bairro elegante, – e que miséria! 
Roto e faminto, à luz sidéria, 
O pequenito adormeceu... 

Morto de frio e de cansaço, 
As mãos no seio, erguido o braço 
Sobre os jornais, que não vendeu. 

A noite é fria; a geada cresta; 
Em cada lar, sinais de festa! 
E o pobrezinho não tem lar... 

Todas as portas já cerradas! 
Ó almas puras, bem formadas, 
Vede as estrelas a chorar! 

Morto de frio e de cansaço, 
As mãos no seio, erguido o braço 
Sobre os jornais, que não vendeu, 

Em plena rua, que miséria! 
Roto e faminto, à luz sidéria, 
O pequenito adormeceu... 

Em torno dele – ó dor sagrada! 
Ao ver um círculo sem geada 
Na sua morna exalação, 

Pensei se o frio descaroável 
Do pequenino miserável 
Teria mágoa e compaixão... 

Sonha talvez, pobre inocente! 
Ao frio, à neve, ao luar mordente, 
Com o presépio de Belém... 

Do céu azul, às horas mortas, 
Nossa Senhora abriu-lhe as portas 
E aos orfãozinhos sem ninguém... 

E todo o céu se lhe apresenta 
Numa grande Árvore que ostenta 
Coisas dum vívido esplendor, 

Onde Jesus, o Deus Menino, 
Ao som dum cântico divino, 
Colhe as estrelas do Senhor... 

E o pequenito extasiado, 
Naquele sonho iluminado 
De tantas coisas imortais, 

– No céu azul, pobre criança! 
Pensa talvez, cheio de esperança, 
Vender melhor os seus jornais... 


António Feijó (1859-1917),
 in 'Antologia Poética' 



Augustus Edwin Mulready (British, 1844–1905)



"Viver é como amar: todas as razões são contra, e a força de todos os instintos é a favor." 




sábado, 10 de dezembro de 2016

"Soneto de Amor" - Poema de João de Barros


Abbey Altson (United Kingdom, 1866 - 1949), Portrait of a lady, 1916



Soneto de Amor


Tantos passaram pelo teu caminho
antes que fosse a hora de eu passar,
que tenho a dor de me não ver sozinho
na memória fiel do teu olhar.

Nenhum te disse frases de carinho,
nenhum parou, talvez, para te amar...
E vão perdidos no redemoinho
da vida, e nunca mais hão de voltar.

Para ti, nenhum foi o mesmo que eu...
- Mas porque a tua vista os abrangeu
mesmo sem alegria, amor ou fé,

deles alguma coisa em ti existe,
- alguma coisa que me deixa triste
porque não posso adivinhar o que é!...




sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

"Sofro, noite!" - Poema de José Gomes Ferreira


Abbott Fuller Graves (American, 1859-1936), Vessel Ashore, Private collection



Sofro, noite!


Não as dores metafísicas que os homens suam nas estrelas
para enfeitarem a fome da aristocracia das nuvens.
Não o terror súbito de nos vermos sozinhos na terra
sem uma voz nos astros que nos diga: «Cá estamos nós também!»
Não a tortura de saber se existe ou não existe
um Deus de carne igual à nossa a dar ordens às pedras.
Não a agonia dos lamentos que saem dos poços para o céu
e erram de árvore em árvore, de monte em monte, de corola em corola
com lobos voadores nos uivos dos vendavais.
Não o suor dos anjos na via láctea. O anseio do infinito. A angústia da sombra sem raízes.
Não o sufocar da treva no corredor cada vez mais estreito, cada vez mais estreito, cada vez mais estreito…
Não o assombro dos lírios negros. O gemer das almas nos cruzeiros
e todos os sofrimentos da lua habitada por fantasmas…

…Mas por outras razões mais desesperadamente vis,
mais limitadamente exíguas e diretas,
como esta mulher de xaile aqui na minha frente
a sofrer o mistério da fome
perdida na noite imensa,
na noite inquieta,
na noite absurda
cheia de crianças a chorar
lágrimas para além das estrelas,
ah! mas mais profundas e eternas
do que todos os mistérios do universo
com o céu e o inferno dentro da cabeça dos homens.

Lágrimas! – ouviste, noite?

Lágrimas de crianças espantadas de haver olhos sem lágrimas na vida.
Lágrimas de carne humana a rasgarem o frio dos penedos
e a molharem de lume o clamor dos bichos
presos à solidão da terra.

Lágrimas, ouviste?

Ah! poetas: não olhemos mais para o céu.
Deixemos os mistérios para depois
quando não houver na noite
outras razões de sofrer mais vis.

Não olhemos mais para o céu!

Abaixo as estrelas, a lua, a via láctea
e todo esse espetáculo de luzes
como um candelabro de cometas
a iluminar a festa da miséria
no palácio do mundo.

Abaixo os astros! Essas caricaturas das lágrimas dos homens
de propósito belas e suspensas
para nos esquecermos das outras
que nos doem, nos olhos,
a inutilidade de chorar.

Lágrimas – ouviste, noite?
Lágrimas de grito!
Lágrimas de beber!

(1900-1985)


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"Consoada" - Poema de Manuel Bandeira


Floris van Dyck (c.1575–1651), Dutch banquet with cheese, bread, nuts and fruit, 1622


Consoada


Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.


Manuel Bandeira
(Brasil, 1886-1968)





Floris van Dyck (c.1575–1651), Still Life with Fruit, Nuts and Cheese, 1610, showing a Dutch breakfast.


"Eu não como carne porque vi carneiros e porcos sendo mortos. Eu vi e senti a dor desses animais. Eles sentem a aproximação da morte. Eu não pude suportar a cena. Chorei como uma criança. Corri para o topo da colina e mal conseguia respirar... senti-me sufocado... senti a morte do carneiro." 


Vaslav Nijinsk, in The diary of Vaslav Nijinsky - página 73
(Kiev, 1889 - Londres, 1950), Bailarino e coreógrafo



Floris van Dyck (c.1575–1651), Still Life, 1628



Vegetarianismo


Vegetarianismo ou vegetarismo é um regime alimentar baseado no consumo de alimentos de origem vegetal. Define-se como a prática de não comer qualquer tipo de animal, com ou sem uso de laticínios e ovos

O vegetarianismo pode ser adotado por diferentes razões. Uma das principais é o respeito à vida dos animais. Tal motivação ética foi codificada em várias crenças religiosas juntamente com os direitos dos animais. Outras motivações estão relacionadas com a saúde, o meio ambiente, a estética e a economia.

Existe uma grande variação de dietas vegetarianas em relação aos produtos que são ou não consumidos. A forma mais popular de vegetarianismo é o ovolactovegetarianismo, que exclui todos os tipos de carnes, mas inclui ovos, leite e laticínios. Há também o lactovegetarianismo, que exclui todos os tipos de carne e também o ovo. Mas é consumido leite e os seus derivados. Outra forma de dieta vegetariana é o vegetarianismo estrito: neste, são excluídos todos os produtos de origem animal, como ovos, laticínios e mel. O vegetarianismo estrito é frequentemente confundido com o veganismo

O vegetarianismo tem sua origem na tradição filosófica indiana, que chega ao Ocidente na doutrina pitagórica. Nas raízes indianas e pitagóricas do vegetarianismo, são ligadas a noção de pureza e contaminação, não correspondendo com a visão de respeito aos animais. O nascimento de uma sensibilidade em relação aos animais, que condena o consumo de animais por motivos morais ou solidários, é muito recente na história da humanidade e surge a partir do século XIX em alguns países da Europa.

O vegetarianismo ético, que visa o respeito pela vida animal teve origem na Antiguidade, sendo que ao longo da História da humanidade, inúmeros autores têm vindo a criticar e questionar consumo de carne com base nesse aspecto. Por exemplo: Mahavira, Asoka, Pitágoras, Empédocles, Plutarco, Porfírio, Ovídio, São Ricardo de Wyche, Leonardo da Vinci, John Ray, Thomas Tryon, Bernard Mandeville, Alexander Pope, Isaac Newton, Voltaire, George Cheyne, David Hartley, Oliver Goldsmith, Joseph Ritson, Lewis Gompertz, Ellen White, Johnny Appleseed, Percy Bysshe Shelley, Alphonse de Lamartine, Amos Bronson Alcott, William Alcott, Gustav Struve, Georg Friedrich Daumer, Richard Wagner, Liev Tolstoi,George Bernard Shaw, Romain Rolland, Élisée Reclus, Mahatma Gandhi, Franz Kafka, Isaac Bashevis Singer, Albert Einstein, entre muitos outros.
Este facto é demonstrado por autores como Howard Williams, Rod Preece, Norm Phelps, Walter e Portmess  e Rynn Berry.

Uma das passagens mais antigas a favor de um vegetarianismo ético surgiu quando Ovídio, nas Metamorfoses, pôs, na boca de Pitágoras, estas palavras:

Que crime horrível lançar em nossas entranhas as entranhas de seres animados, nutrir na sua substância e no seu sangue o nosso corpo! para conservar a vida a um animal, porventura é mister que morra um outro? Porventura é mister que em meio de tantos bens que a melhor das mães, a terra, dá aos homens com tamanha profusão, prodigamente, se tenha ainda de recorrer à morte para o sustento, como fizeram ciclopes, e que só degolando animais seja possível cevar a nossa fome? [...] É desumanidade não nos comovermos com a morte do cabrito, cujos gritos tanto se assemelham aos das crianças, e comermos as aves a que tantas vezes demos de comer. Ah! quão pouco dista dum enorme crime!”
Este trecho de Ovídio reflete os ensinamentos dos pitagóricos no primeiro século.

Já na Era Cristã, São João Crisóstomo escreveu que a alimentação carnívora é uma luxúria e que o Homem, ao comer carne, é pior que os animais selvagens, que só têm essa forma de se alimentarem. No Renascimento, os ensaios de Michel de Montaigne evidenciam bastante sensibilidade para com os animais. Exemplo disso é a seguinte passagem: ´

"Nunca pude ver sem constrangimento perseguir e matar inocentes animais, quase sempre indefesos, e dos quais nunca o homem recebeu a mais pequena ofensa." Ou ainda: "Para algumas mães, é um passatempo ver o filho torcer o pescoço a um frango, bater ou magoar um cão ou um gato [...] isso são meios, sementes e raízes da crueldade, tirania e traição."

Poucos anos depois, Bernard Mandeville foi um dos muitos autores que criticaram o consumo de carne com base nos motivos éticos:

"Eu não posso compreender com um homem, que não está inteiramente endurecido e habituado à vista do sangue e do massacre, possa assistir sem remorso ao massacre de animais como o boi e o carneiro, nos quais o coração, o cérebro, os nervos, diferem tão pouco dos nossos, e cujos órgãos dos sentidos, e por consequência do coração, são os mesmos que no ser humano." 

Por sua vez, já no século XIX, Lamartine estava convencido de que "matar os animais para nos sustentarmos com a sua carne e o seu sangue é uma das mais deploráveis e das mais vergonhosas enfermidades da condição humana."

A britânica Anna Kingsford é considerada a mãe do vegetarianismo no Ocidente. Depois de seis anos de estudo, conquistou diploma em Paris (1880), quando pôde, então, exercer a advocacia pelos animais com maior autoridade. A sua tese final, L'Alimentation Végétale de l'Homme ("A alimentação Vegetal Humana"), foi uma das obras fundamentais sobre os benefícios do vegetarianismo, tendo sido publicada com o título em inglês The Perfect Way in Diet (1881). Fundou a Food Reform Society nesse ano e viajou à Europa para divulgar a dieta do vegetarianismo na Inglaterra; e a Paris, Gênova e Lausanne para falar do uso de animais em experimentos científicos(Daqui)


Floris van Dyck (c.1575–1651), Still Life with Cheese, 1615 


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