quinta-feira, 31 de março de 2016

"Elegia Marítima" - Poema de Domingos Carvalho da Silva





Elegia Marítima


Nasceu da terra. Seu corpo, 
feito do limo das grutas, 
surgiu cavalgando um rio 
por uma estrada de luas. 

Através de ondas agrestes 
de um oceano vegetal, 
de onde acenavam aos olhos 
ilhotas de manacás, 

alcançou o colo das praias 
que a mão lasciva do mar 
aperta, despe e mergulha 
em seu aroma de sal. 

Ali viveu junto às vagas 
essa esquiva amendoeira, 
cabelos soltos à brisa, 
pés escondidos na areia. 

Um dia o mar a arrastou 
através de ilhas sem fim. 
Parti com ela. E hoje canta 
a morte dentro de mim. 


in 'Praia Oculta' 


quarta-feira, 30 de março de 2016

"Portugal, Porque Sim" - Poema de José Jorge Letria


Caverna costeira de Benagil, AlgarvePortugal



Portugal, Porque Sim


Podia chamar-te pai, asa de fogo, planta agreste,
alpendre aberto ao feitiço das estrelas.
Podia aninhar-me no casulo do teu abraço
e adormecer com o mistério que alimenta as tuas lendas.
Podia recordar os nomes dos rios e das serras
e das linhas secundárias que cruzam vales e montanhas.
Podia perguntar pelos teus filhos
esquecidos há muito nas errâncias deste mundo.
Podia querer interpretar a tua melancolia
como um sinal de saudade da grandeza perdida.
Podia reabrir, em página incerta, os teus livros raros,
os dos poetas que engrandeceram a título póstumo,
como os heróis, em pátria de carpideiras
e de oficiantes da mais daninha e entranhada inveja.
Podia entrar nas tuas casinhas baixas,
as de granito e as pintadas com a mansa alvura da cal.
Podia afagar-te as barbas brancas
que se tornaram salgadas no fragor das batalhas.
Podia desenterrar os teus mortos
só para saber que sonhos traídos os levaram à cova.
Podia desmascarar os vendilhões que falam em teu nome
como se falassem de negócios reles numa banca de feira,
Podia perguntar-te porque atravessas cabisbaixo
os largos das aldeias desertas e queres saber
o paradeiro dos teus filhos silenciosos e distantes,
daqueles que tomaram outros rumos
com a dor da tua ausência a ferir-lhes o peito.
Podia deitar-me ao teu colo
como se me deitasse na cama de urze
à beira dos promontórios que vigiam as fúrias do mar.
Podia chorar no teu ombro cansado todas as desditas
que foste obrigado a consentir e a calar.
Podia contar aos meus netos os feitos
do Gama, de Magalhães e de Cabral
e desenhar um mapa de glórias navegantes
só para eles saberem que um dia
usaste a efémera coroa de algas dos reinos do mar.
Podia pedir-te e dar-te contas
de tudo aquilo que sonhámos e não alcançámos.
Podia fazer tudo isso e muito mais,
mas prefiro vislumbrar na tristeza dos teus olhos
a ternura com que segues o rasto das aves e das estrelas
e depois abraçar-te e dizer-te: meu querido Portugal,
serás, até ao fim, a luz que não se apaga nem se rende
quando sonhamos com tudo aquilo que ainda te falta ser.





Praia da Marinha, situada no concelho de Lagoa,  AlgarvePortugal


terça-feira, 29 de março de 2016

"Amizade" - Poema de Pedro Homem de Mello





Amizade


Ser-se amigo é ser-se pai
( — Ou mais do que pai talvez...)
É pôr-se a boca onde cai
A nódoa que nos desfez.

É dar sem receber nada,
Consciente da prisão,
Onde os nossos passos vão
Em linha por nós traçada...

É saber que nos consome
A sede, e sentirmos bem
O Céu, por na Terra, alguém
Rir, cantar e não ter fome.

É aceitar a mentira
E achá-la formosa e humana
Só porque a gente respira
O ar de quem nos engana.


Pedro Homem de Mello, in "Miserere"



Mozart - Requiem in D minor 

segunda-feira, 28 de março de 2016

"A Avó" - Poema de Olavo Bilac


August Allebé (1838-1927)



A Avó


A avó, que tem oitenta anos,
Está tão fraca e velhinha! . . .
Teve tantos desenganos!
Ficou branquinha, branquinha,
Com os desgostos humanos.

Hoje, na sua cadeira,
Repousa, pálida e fria,
Depois de tanta canseira:
E cochila todo o dia,
E cochila a noite inteira.

Às vezes, porém, o bando
Dos netos invade a sala . . .
Entram rindo e papagueando:
Este briga, aquele fala,
Aquele dança, pulando . . .

A velha acorda sorrindo,
E a alegria a transfigura;
Seu rosto fica mais lindo,
Vendo tanta travessura,
E tanto barulho ouvindo.

Chama os netos adorados,
Beija-os, e, tremulamente,
Passa os dedos engelhados,
Lentamente, lentamente,
Por seus cabelos, doirados.

Fica mais moça, e palpita,
E recupera a memória,
Quando um dos netinhos grita:
“Ó vovó! conte uma história!
Conte uma história bonita!”

Então, com frases pausadas,
Conta historias de quimeras,
Em que há palácios de fadas,
E feiticeiras, e feras,
E princesas encantadas . . .

E os netinhos estremecem,
Os contos acompanhando,
E as travessuras esquecem,
Até que, a fronte inclinando
Sobre o seu colo, adormecem. . .




Victor Gilbert (1847-1933), My new brother



Provérbio


"A avó é mãe duas vezes."


domingo, 27 de março de 2016

"O Sono do João" - Poema de António Nobre


Jozef Israëls, Peasant's meal in Delden, 1885



O Sono do João


O João dorme... (Ó Maria,
Diz àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...)

Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango
O João seria... um morango!
Podia engoli-lo um leão
Quando nasce! As pombas são
Um poucochinho maiores...
Mas os astros são menores!

O João dorme... Que regalo!
Deixá-lo dormir, deixá-lo!
Calai-vos, águas do moinho!
Ó Mar! fala mais baixinho...
E tu, Mãe! e tu, Maria!
Pede àquele cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...

O João dorme, o Inocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo sono profundo!
Não acordes para o Mundo,
Pode levar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto é...

Ó Mãe! canta-lhe a canção,
Os versos do teu Irmão:
"Na vida que a Dor povoa,
Há só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir...
Tudo vai sem se sentir."

Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho... até morrer!

E tu vê-lo-ás crescendo
A teu lado (estou-o vendo
João! que rapaz tão lindo!)
Mas sempre sempre dormindo...

Depois, um dia virá
Que (dormindo) passará
do berço, onde agora dorme,
Para outro, grande, enorme:
E as pombas que eram maiores
Que João... ficarão menores!

Mas para isso, ó Maria!
Diz àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...

E os anos irão passando.

Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha também)
Perder a cor que, hoje, tem,
Perder as cores vermelhas
E for cheinho de engelhas,
Morrerá sem o sentir,
Isto é, deixa de dormir:
Acorda e regressa ao seio
De Deus, que é d'onde ele veio...

Mas para isso, ó Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:

Não vá o João acordar...


António Nobre (1867-1900),


sábado, 26 de março de 2016

"Povo" - Poema de Pedro Homem de Mello


Arkady Rylov, The Entry of the River Orlinka



Povo


Povo que lavas no rio
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia…
Mas a tua vida, não!

Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão…
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!

Procissões de praia e monte
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros a fonte?
Guardo o jeito desses braços…
Mas a tua vida, não!

Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama…
Tive a mesma condição
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las…
Mas a tua vida, não!

Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão
Rasguei certo corpo ao meio…
Vi certa curva em teu seio…
Mas a tua vida, não!

Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão…
Povo! Povo! Eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso.
Mas a tua vida, não!

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!


in "Miserere"



Dulce Pontes - Povo Que Lavas no Rio

"Regresso ao Lar" - Poema de Guerra Junqueiro


Michael Bilotta, Rooted Final



Regresso ao Lar


Ai, há quantos anos que eu parti chorando
deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
canta-me cantigas para me eu lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh, a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida.
canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago de amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama, que me deste o peito,
canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
pedrarias de astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...

Como antigamente, no regaço amado
(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!
Ai o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas manso, muito manso...
tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
que a minha alma durma, tenha paz, descanso,
quando a morte, em breve, ma vier buscar!


Guerra Junqueiro, in 'Os Simples'

sexta-feira, 25 de março de 2016

"Green God" - Poema de Eugénio de Andrade





Green God


Trazia consigo a graça 
das fontes quando anoitece. 
Era o corpo como um rio 
em sereno desafio 
com as margens quando desce. 

Andava como quem passa 
sem ter tempo de parar. 
Ervas nasciam dos passos, 
cresciam troncos dos braços 
quando os erguia no ar. 

Sorria como quem dança. 
E desfolhava ao dançar 
o corpo, que lhe tremia 
num ritmo que ele sabia 
que os deuses devem usar. 

E seguia o seu caminho, 
porque era um deus que passava. 
Alheio a tudo o que via, 
enleado na melodia 
duma flauta que tocava. 








"A solidão é um bom lugar para se visitar, mas não é nada bom para se lá ficar."




quinta-feira, 24 de março de 2016

"Amostra sem valor" - Poema de António Gedeão


Charles Spencelayh, The Old Dealer (The Old Curiosity Shop)



Amostra sem valor


Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém. 
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível: 
com ele se entretém 
e se julga intangível. 

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu, 
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito, 
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu, 
não pesa num total que tende para infinito. 

Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida 
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo, 
nesta insignificância, gratuita e desvalida, 
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.





Charles Spencelayh, The Penny Whistle



"O que se aprende na juventude dura a vida inteira."



Escritor espanhol, Francisco Gómez de Quevedo nasceu em 1580, em Madrid, e morreu em 1645. Era filho do Secretário da Princesa Maria (filha de D. Carlos V da Albânia, Carlos I de Espanha) e da dama de corte da mesma Princesa Maria, o que fez com que Quevedo tivesse desde o início um forte contacto e vivência com o ambiente cortesão. 
Formou-se em Direito, seguindo-se uma formação em Línguas Clássicas e Modernas Contemporâneas, com a variante do Português. A sua forte ligação e interesse pelas Línguas fez com que dominasse, pelo menos, sete línguas. 
Em 1605, começou por publicar a sua primeira poesia: Poderoso Caballero es Don Dinero, onde revela um forte sentimento pessimista em relação à sociedade, contrário ao ambiente social e cultural elevado e riquíssimo a que estava habituado. 
Em 1606, recebeu ordens menores, entrando assim para o Clero, donde viria a desistir pouco tempo depois. Daqui se percebe a influência cristã de Quevedo - embora seguisse uma filosofia estoica, só elegia desta filosofia aquilo que era compatível com o Cristianismo. 
Nesse mesmo ano, começou com grande força a sua produção literária, patrocinado pelo seu grande amigo o Duque de Lemos. 
Em 1620, aparece a primeira publicação completa das suas obras construídas até então. 
Quevedo era possuidor de um espírito terrível; lutador por coerência íntima, batia-se pelos seus elevados ideais, o que lhe trouxe muitas desvantagens em todos os sentidos. A meio do seu percurso de vida social e literária Quevedo foi preso por matar um homem que batia numa mulher e, a partir daqui, iniciou uma vida de clausura: passou de prisão para prisão até que foi exilado na Sicília (que pertencia então ao Reinado de Espanha), ganhando os favores e amizade do Birei da Sicília, o Duque de Ossuna. Voltou assim ao ambiente de corte, mesmo estando em exílio. Entretanto Filipe IV subiu ao poder em Espanha e o Duque de Ossuna é destituído. Quevedo foi novamente desterrado. Ficou preso vários anos e adoeceu gravemente. Quando foi libertado, resistiu por poucos mais anos, acabando por falecer em 1645. 
Quevedo sempre demonstrou ter plena consciência do estado decrépito do seu país, da ruína física e moral de Espanha, o que fez dele um espírito amargo e explosivo que se vai refletir em toda a sua obra. Como consequência, a sua obra é perpassada por duros rasgos de sarcasmo e burla. 
Era visto pela crítica como o escritor espanhol da época com as obras mais amplas e mais fecundas. Toda a sua produção literária é extremamente hiperbolizada, com uma genialidade incrível, onde as personagens não são humanas mas sim fantoches, numa tentativa de representar personagens reais completamente desumanizadas, refletindo a imagem de caricatura grotesca que ele tinha da sua própria sociedade. 
Quevedo sempre mostrou uma infindável capacidade de manipular o vocabulário (vastíssimo) que possuía, jogando sempre com conceitos, jogos de palavras, duplos sentidos e duplas intencionalidades, para provocar ambiguidades nos seus leitores. 
Dada a época literária em que se inseria - o Barroco (século XVII) - Quevedo manifesta o mais puro conceptismo, fruto da corrente Barroca que atravessou. Assim, toda a sua produção é puramente sentimental e não cerebral; as suas obras são um mero processo de interiorização e não um mecanismo formal. 
Demonstrou grande consciência e génio naquilo que escrevia. Todas as figuras de estilo, os processos de compilação de sentidos, são utilizados unicamente para expor o seu pensamento. 
As influências da época literária que atravessou e a sua própria personalidade instável, turbulenta, fazem-nos criar um mundo real próprio através de elementos idealizados - o mundo real que conhece não é idêntico ao que ele criou através de elementos idealizados. 
O conceito de grotesco que perpassa toda a sua obra inverte os mundos, criando o que ele próprio idealiza: utilizando dois planos antagónicos da sociedade - o nobre e o plebeu - relata-nos a degradação do nobre até à vulgaridade e a ascensão do plebeu até à nobreza, dando-nos, assim, o tal mundo ao revés que ele idealizava. 
A sua atitude perante a vida, marcada por um forte conhecimento das coisas e das pessoas, levou-o a uma conduta de puro Estoicismo: pessimismo e incredulidade. A mistura deste forte pensamento estoico e do radicalismo das suas ideias e posturas fizeram-no concluir que "nascer vai ser trocar o claustro materno pelo cárcere da vida". 
Para Quevedo, o mundo era uma prisão, a vida era apenas o caminho até à morte, a morte era o estado em que só o chamado amor poderia dar uma continuidade e o amor era, então, a redenção da morte eterna. Grande escritor do século XVII, Quevedo continua, até hoje, a ser estudado e alvo de inúmeros estudos académicos, dada a sua importância no mundo literário espanhol. (Daqui)


quarta-feira, 23 de março de 2016

"Os Filhos" - Poema de José Jorge Letria


Charles Burton Barber, Time to wake up, 1883



Os Filhos 


Os filhos são figuras estremecidas 
e, quando dormem, a felicidade 
cerra-lhes as pálpebras, toca-lhes 
os lábios, ama-os sobre as camas. 
É por mim que chamam quando temem 
o eclipse e o temporal. Trazem nos cabelos 
o aroma do leite e da festa das rosas. 
Voam-me por entre os dedos, por entre 
as malhas da rede de espuma 
que lanço a seus pés. Reinam 
num sítio de penumbra onde não 
me atrevo sequer a dizer quem sou. 


José Jorge Letria, in "Os Achados da Noite"



"Guie uma criança pelo caminho que ela deve seguir e guie-se por ela de vez em quando." 




segunda-feira, 21 de março de 2016

"A Bela Dama Sem Piedade" - Poema de John Keats


Walter Crane, La belle Dame Sans Merci (1865)



A Bela Dama Sem Piedade 



Oh! O que pode estar perturbando você, Cavaleiro em armas,
Sozinho, pálido e vagarosamente passando?
As sebes tem secado às margens do lago,
E nenhum pássaro canta.

Oh! O que pode estar perturbando você, Cavaleiro em armas?
Sua face mostra sofrimento e dor.
A toca do esquilo está farta,
E a colheita está feita.

Eu vejo uma flor em sua fronte,
Húmida de angústia e de febril orvalho,
E em sua face uma rosa sem brilho e frescor
Rapidamente desvanescendo também.

Eu encontrei uma dama nos campos,
Tão linda… uma jovem fada,
Seu cabelo era longo e seus passos tão leves,
E selvagens eram seus olhos.

Eu fiz uma guirlanda para sua cabeça,
E braceletes também, e perfumes em volta;
Ela olhou para mim como se amasse,
E suspirou docemente.

Eu a coloquei sobre meu cavalo e segui,
E nada mais vi durante todo o dia,
Pelos caminhos ela me abraçou, e cantava
Uma canção de fadas.

Ela encontrou para mim raízes de doce alívio,
mel selvagem e orvalho da manhã,
E em uma estranha linguagem ela disse…
“Verdadeiramente eu te amo.”

Ela me levou para sua caverna de fada,
E lá ela chorou e soluçou dolorosamente,
E lá eu fechei seus selvagens olhos
Com quatro beijos.

Ela cantou docemente para que eu dormisse
E lá eu sonhei…Ah! tão sofridamente!
O último dos sonhos que eu sempre sonhei
Nesta fria borda da colina.

Eu vi pálidos reis e também príncipes,
Pálidos guerreiros, de uma mortal palidez todos eles eram;
Eles gritaram…”A Bela Dama sem Piedade
Tem você escravizado!”

Eu vi seus lábios famintos e sombrios,
Abertos em horríveis avisos,
E eu acordei e me encontrei aqui,
Nesta fria borda da colina.

E este é o motivo pelo qual permaneço aqui
Sozinho e vagarosamente passando,
Descuidadamente através das sebes às margens do lago,
E nenhum pássaro canta.



tradução de Izabella Drumond


domingo, 20 de março de 2016

"As rosas" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Vladimir de Leon Llaguno, Regreso del bosque



As rosas


Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.




sábado, 19 de março de 2016

"A Meus Filhos" - Poema de António Osório


Myrtille Henrion Picco, Lilybellul à 8 ans (1989), huile sur toile / 61 x 50 cm



A Meus Filhos


A meus filhos 
desejo a curva do horizonte. 

E todavia deles tudo em mim desejo: 
o felino gosto de ver, 
o brilho chuvoso da pele, 
as mãos que desvendam e amam. 

Marga, 
meu fermento, 
neles caminho e me procuro, 
a corpo igual regresso: 

ao rápido besouro das lágrimas, 
ao calor da boca dos cães, 
à sua língua de faca afetuosa; 

à seta que disparam os ibiscos, 
à partida solene da cama de grades, 
ao encontro, na praia, com as algas; 

à alegria de dormir com um gato, 
de ver sair das vacas o leite fumegante, 
à chegada do amor aos quatro anos. 


in 'A Raiz Afectuosa'



Myrtille Henrion Picco, L'Enfant et le Chat (1989), huile sur toile / 50 x 61 cm



"A criança é alegria como o raio de sol e estímulo como a esperança."




Os Gatos e os Provérbios
(Imagens retiradas da internet)


"A criança e o gatinho vão a quem lhes faz miminho"

(Provérbio)




"De noite, todos os gatos são pardos"

(Provérbio)




"Filho de gata, ratos mata"

(Provérbio)




"Bonitas palavras não engordam gatos"

(Provérbio)




"Em casa de vilão, nem gato, nem cão"

(Provérbio)




"Do gato pisado sai o miado"

(Provérbio)




"A casa que não tem gatos tem muitos ratos"

(Provérbio)




"A curiosidade matou o gato"

(Provérbio)




"A gato que rói, nunca faltaram farrapos"

(Provérbio)




"A bom gato, bom rato" 

(Provérbio)




"A língua do cão é benta e a do gato sebenta"

(Provérbio)




"Bafo de gato, que nem chegue ao fato"

(Provérbio) 




quarta-feira, 16 de março de 2016

"Guardei-me para ti" - Poema de Lia Luft


Guardei-me para ti  


Guardei-me para ti como um segredo 
Que eu mesma não desvendei: 
Há notas nesta guitarra que não toquei, 
Há praias na minha ilha que nem andei.

É preciso que me tomes, além do riso e do olhar, 
Naquilo que não conheço e adivinhei; 
É preciso que me ensines a canção do que serei 
E me cries com teu gesto 
Que nem sonhei.




"Abaixo o mistério da poesia" - Poema de António Gedeão


A descoberta da terra, 1941. Pintura mural de Candido Portinari no edifício da Biblioteca do Congresso, Washington, DC.



Abaixo o mistério da poesia


Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,
Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas
Despertas;
Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;
Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;
Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;
Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for precido lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade: 

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA 


António Gedeão,
Linhas de Força


terça-feira, 15 de março de 2016

"O Silêncio" - Poema de Eugénio de Andrade


Alberto Pisa, Reading



O Silêncio



Quando a ternura 
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca, 
inda demora,

quando azuis irrompem 
os teus olhos

e procuram 
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras 
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.



Eugénio de Andrade,
in "Obscuro Domínio"


"Este Não-Futuro que a Gente Vive" - de Al Berto


Marcel Duchamp, Young Girl and Man in Spring, 1911



Este Não-Futuro que a Gente Vive



Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projetos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros. 


Al Berto, in "Entrevista à revista Ler (1989)"


(Al Berto é o pseudónimo literário de Alberto Raposo Pidwell Tavares. Nasceu em Coimbra, a 11 de Janeiro de 1948, e viveu parte da sua infância e adolescência em Sines. Em 1967 saiu de Portugal para residir em Bruxelas durante vários anos.
Inicialmente, a sua poesia revelou-se de inspiração surrealista, na linha de Herberto Hélder. Posteriormente, optou por agrupar poesia e prosa, numa escrita-deambulação. Em 1988, recebeu o prémio Pen Club de Poesia pela publicação de O Medo. Este título reuniu num único livro (posteriormente ampliado e reeditado) a obra poética de Al Berto. Faleceu a 13 de Junho de 1997, em Lisboa.)



GNR - "Quero Que Vá Tudo P'ró Inferno"


segunda-feira, 14 de março de 2016

"Destino de Poeta" - Poema de Octavio Paz


Christina Oiticica, Boca-Sentir




Destino de Poeta


Palavras? Sim, de ar, 
e no ar perdidas. 
Deixa-me perder entre palavras, 
deixa-me ser o ar nuns lábios, 
um sopro vagabundo sem contornos 
que o ar desvanece. 

Também a luz em si mesma se perde. 



Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra" 
Tradução de Luis Pignatelli


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