quinta-feira, 24 de março de 2016

"Amostra sem valor" - Poema de António Gedeão


Charles Spencelayh, The Old Dealer (The Old Curiosity Shop)



Amostra sem valor


Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém. 
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível: 
com ele se entretém 
e se julga intangível. 

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu, 
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito, 
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu, 
não pesa num total que tende para infinito. 

Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida 
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo, 
nesta insignificância, gratuita e desvalida, 
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.





Charles Spencelayh, The Penny Whistle



"O que se aprende na juventude dura a vida inteira."



Escritor espanhol, Francisco Gómez de Quevedo nasceu em 1580, em Madrid, e morreu em 1645. Era filho do Secretário da Princesa Maria (filha de D. Carlos V da Albânia, Carlos I de Espanha) e da dama de corte da mesma Princesa Maria, o que fez com que Quevedo tivesse desde o início um forte contacto e vivência com o ambiente cortesão. 
Formou-se em Direito, seguindo-se uma formação em Línguas Clássicas e Modernas Contemporâneas, com a variante do Português. A sua forte ligação e interesse pelas Línguas fez com que dominasse, pelo menos, sete línguas. 
Em 1605, começou por publicar a sua primeira poesia: Poderoso Caballero es Don Dinero, onde revela um forte sentimento pessimista em relação à sociedade, contrário ao ambiente social e cultural elevado e riquíssimo a que estava habituado. 
Em 1606, recebeu ordens menores, entrando assim para o Clero, donde viria a desistir pouco tempo depois. Daqui se percebe a influência cristã de Quevedo - embora seguisse uma filosofia estoica, só elegia desta filosofia aquilo que era compatível com o Cristianismo. 
Nesse mesmo ano, começou com grande força a sua produção literária, patrocinado pelo seu grande amigo o Duque de Lemos. 
Em 1620, aparece a primeira publicação completa das suas obras construídas até então. 
Quevedo era possuidor de um espírito terrível; lutador por coerência íntima, batia-se pelos seus elevados ideais, o que lhe trouxe muitas desvantagens em todos os sentidos. A meio do seu percurso de vida social e literária Quevedo foi preso por matar um homem que batia numa mulher e, a partir daqui, iniciou uma vida de clausura: passou de prisão para prisão até que foi exilado na Sicília (que pertencia então ao Reinado de Espanha), ganhando os favores e amizade do Birei da Sicília, o Duque de Ossuna. Voltou assim ao ambiente de corte, mesmo estando em exílio. Entretanto Filipe IV subiu ao poder em Espanha e o Duque de Ossuna é destituído. Quevedo foi novamente desterrado. Ficou preso vários anos e adoeceu gravemente. Quando foi libertado, resistiu por poucos mais anos, acabando por falecer em 1645. 
Quevedo sempre demonstrou ter plena consciência do estado decrépito do seu país, da ruína física e moral de Espanha, o que fez dele um espírito amargo e explosivo que se vai refletir em toda a sua obra. Como consequência, a sua obra é perpassada por duros rasgos de sarcasmo e burla. 
Era visto pela crítica como o escritor espanhol da época com as obras mais amplas e mais fecundas. Toda a sua produção literária é extremamente hiperbolizada, com uma genialidade incrível, onde as personagens não são humanas mas sim fantoches, numa tentativa de representar personagens reais completamente desumanizadas, refletindo a imagem de caricatura grotesca que ele tinha da sua própria sociedade. 
Quevedo sempre mostrou uma infindável capacidade de manipular o vocabulário (vastíssimo) que possuía, jogando sempre com conceitos, jogos de palavras, duplos sentidos e duplas intencionalidades, para provocar ambiguidades nos seus leitores. 
Dada a época literária em que se inseria - o Barroco (século XVII) - Quevedo manifesta o mais puro conceptismo, fruto da corrente Barroca que atravessou. Assim, toda a sua produção é puramente sentimental e não cerebral; as suas obras são um mero processo de interiorização e não um mecanismo formal. 
Demonstrou grande consciência e génio naquilo que escrevia. Todas as figuras de estilo, os processos de compilação de sentidos, são utilizados unicamente para expor o seu pensamento. 
As influências da época literária que atravessou e a sua própria personalidade instável, turbulenta, fazem-nos criar um mundo real próprio através de elementos idealizados - o mundo real que conhece não é idêntico ao que ele criou através de elementos idealizados. 
O conceito de grotesco que perpassa toda a sua obra inverte os mundos, criando o que ele próprio idealiza: utilizando dois planos antagónicos da sociedade - o nobre e o plebeu - relata-nos a degradação do nobre até à vulgaridade e a ascensão do plebeu até à nobreza, dando-nos, assim, o tal mundo ao revés que ele idealizava. 
A sua atitude perante a vida, marcada por um forte conhecimento das coisas e das pessoas, levou-o a uma conduta de puro Estoicismo: pessimismo e incredulidade. A mistura deste forte pensamento estoico e do radicalismo das suas ideias e posturas fizeram-no concluir que "nascer vai ser trocar o claustro materno pelo cárcere da vida". 
Para Quevedo, o mundo era uma prisão, a vida era apenas o caminho até à morte, a morte era o estado em que só o chamado amor poderia dar uma continuidade e o amor era, então, a redenção da morte eterna. Grande escritor do século XVII, Quevedo continua, até hoje, a ser estudado e alvo de inúmeros estudos académicos, dada a sua importância no mundo literário espanhol. (Daqui)


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