terça-feira, 8 de março de 2016

"Paixão Secreta" - Poema de Rabindranath Tagore



Myrtille Henrion Picco, De nos jours les humeurs vagues abondent (2007) / 89X89 cm
 


Paixão Secreta


Acordei com os primeiros pássaros, 
já minha lâmpada morria. 
Fui até à janela aberta e sentei-me, 
com uma grinalda fresca 
nos cabelos desatados... 
Ele vinha pelo caminho 
na névoa cor de rosa da manhã. 
Trazia ao pescoço 
uma cadeia de pérolas 
e o sol batia-lhe na fronte. 
Parou à minha porta 
e disse-me ansioso: 
— Onde está ela? 
Tive vergonha de lhe dizer: 
— Sou eu, belo caminhante, 
sou eu. 

Anoitecia 
e ainda não tinham acendido as luzes. 
Eu atava o cabelo, desconsolada. 
Ele chegava no seu carro 
todo vermelho, aceso pelo sol poente. 
Trazia o fato cheio de poeira. 
Fervia a espuma 
na boca anelante dos seus cavalos... 
Desceu à minha porta 
e disse-me com voz cansada: 
— Onde está ela? 
Tive vergonha de lhe dizer: 
— Sou eu, fatigado caminhante, 
sou eu. 

Noite de Abril. 
A lâmpada arde neste meu quarto 
que a brisa do Sul 
enche suavemente. 
O papagaio palrador 
dorme na sua gaiola. 
O meu vestido é azul 
como o pescoço dum pavão, 
e o manto verde como a erva nova. 
Sentada no chão, perto da janela, 
olho a rua deserta ... 
Passa a noite escura 
e não me canso de cantar: 
— Sou eu, caminhante sem esperança, 
sou eu. 


Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera" 
Tradução de Manuel Simões 



Myrtille Henrion Picco, Ella Mana (1995), huile sur toile / 92 x 65 cm
Collection privée, Allemagne



Flor da Paixão


Sei agora 
que a paixão 
é azul e coroada 
como o sangue e a cabeça 
das rainhas. Que tem 
nome de flor 
e é ímpar. Porque, 
se o não fosse, 
não seria paixão. 


 in "Castália e Outros Poemas"



Myrtille Henrion Picco, L'Appel (1991), huile sur toile / 100 x 81 cm
Collection privée, France

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