quinta-feira, 14 de abril de 2016

"Amar-te é Vir de Longe" - Poema de Pedro Tamen


Thomas Hovenden (1840-1895), What O’Clock Is It? (1878)



Amar-te é Vir de Longe


Amar-te é vir de longe, 
descer o rio verde atrás de ti, 
abrir os braços longos desde os sete 
anos sob a latada ao pé do largo, 
guardar o cheiro a figos vistos lá, 
a olho nu, ao pé, ao pé de ti, 
parar a beber água numa fonte, 
um acaso perdido no caminho 
onde os vimes me roçam a memória 
e te anunciam mãos e te perfazem; 
como se o sino à hora de tocar 
já fosse o tempo todo badalado, 
e a tua boca se abrisse atrás do tojo, 
e abaixo dos calções as pernas nuas 
se rasgassem só para o pequeno sangue, 
tal o pequeno preço que me pedes. 
Atrás da curva estavas, és, serias, 
nos muros de granito, nas amoras. 
Amar-te era lembrança e profecias, 
uma porta já feita para abrir, 
e encontrar o lar ou música lavada 
onde, se nasces, vives, duras, moras 
— meu nome exato e pão 
no chão das alegrias. 


in 'Escrito de Memória'


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