domingo, 19 de junho de 2016

"Em horas inda louras, lindas" - Poema de Fernando Pessoa





Em horas inda louras, lindas


Em horas inda louras, lindas 
Clorindas e Belindas, brandas, 
Brincam no tempo das berlindas, 
As vindas vendo das varandas, 
De onde ouvem vir a rir as vindas 
Fitam a fio as frias bandas. 

Mas em torno à tarde se entorna 
A atordoar o ar que arde 
Que a eterna tarde já não torna! 
E o tom de atoarda todo o alarde 
Do adornado ardor transtorna 
No ar de torpor da tarda tarde. 

E há nevoentos desencantos 
Dos encantos dos pensamentos 
Nos santos lentos dos recantos 
Dos bentos cantos dos conventos.... 
Prantos de intentos, lentos, tantos 
Que encantam os atentos ventos. 


in "Cancioneiro"



Milton Avery, Two women, 1950


"Aonde poderia refugiar-me, se não tivesse os queridos dias da minha juventude?" 




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