sexta-feira, 26 de agosto de 2016

"A Ceifeira" - Poema de Luís Augusto Palmeirim


Mota Urgeiro, A Ceifeira



A Ceifeira


Há quem diga por inveja
Que és feia por ser trigueira;
Dizem as damas da corte,
Deixai-as dizer ceifeira.

Quisera que elas te vissem
Feita senhora festeira,
Que me dissessem depois,
Se eras ou não feiticeira!

Que vissem com que requebros
Tu vais a mercar na feira,
Que vissem como inocente
Vais depois pular na eira.

Mariquinhas de olhos pretos,
Mimosa—gentil ceifeira,
És bela por caprichosa,
És linda por ser trigueira.

Hei de ir à festa e de longe
Ver-te na dança ligeira,
A ver se coras na dança,
A ver se tens quem te queira.

Hei de ir depois alcançar-te
No atalho, mesmo à beira,
E dizer-te que na dança
Eras gentil, a primeira.

A dizer-te que eras linda
Como aurora prazenteira;
A contar-te que na festa
Eras só, sem companheira.

A contar-te que não perdes
Por te chamarem trigueira,
A ti, rainha da festa
Mimosa—gentil ceifeira.

A ti que eu vi assentada
Ontem à noite à lareira,
Crendo deveras num conto,
Num conto de feiticeira.

A ti que vergas a cinta,
Como se verga a palmeira,
Que tens escrita no rosto
Inspiração verdadeira.

A ti que dormes com o Cristo 
Pendente da cabeceira;
Que só choraste na vida,
Uma vez—por brincadeira!

A quem chamam, por inveja,
A Mariquinhas trigueira;
Porque sabem que és de todas
A mais mimosa ceifeira!

Porque tens nos olhos negros
O condão de dar cegueira,
A quem os fita de perto,
Com atenção verdadeira.

Só te falta alva capela,
Das flores da laranjeira,
Que a todos diga que a noiva
Era ainda há pouco a festeira.

Que nos dê a triste nova,
Que pela vez derradeira,
Vemos de perto tão perto
Aquela fronte fagueira.

A quem as mais, por despique,
Vendo a formosa ceifeira,
Diziam — coitada dela
Sendo assim morre solteira!


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