segunda-feira, 1 de agosto de 2016

"Entardecer" - Poema de Luís de Montalvor


Leonid Afremov, Sunset of Feelings



Entardecer


Sol-posto ungindo o mar: incensos de ouro!

Recolhe funda a tarde em sonho e mágoa. 
Surdina fluida: anda o silêncio a orar – 
E há crepúsculos de asas e, na água, 
O céu é mármore extático a cismar! 

E nas faces marmóreas dos rochedos 
Esboçam-se perfis, 
- Cintilações, 
Penumbra de segredos! 

Ó painéis de nuvens sobre a terra, 
Ogivas delirantes 
Na água refractando… 
Encheis de sombra o mar de espumas rasas, 
Iniciando 
A hora pânica das asas! 

E, à meia luz da tarde, 
Na areia requeimada, 
São vultos sonolentos 
As proas dos navios… 

Ó tristeza dos balões 
Iluminando, 
Na água prateada, 
Os pegos e baixios… 

Dormentes constelações 
Que, em fundos lacustres 
E musgosos, 
Pondes reverberações 
Em nossos olhos ansiosos. 

Ó tardes de aquático esplendor, 
Descendo em meu olhar! 

Num sonho de regresso, 
Numa ânsia de voltar, 
Em mim todo me esqueço 
E fico-me a cismar. 

A tarde é toda um sonho moribundo. 
É já olor da cor que amorteceu. 
O céu vive no mar: sono profundo. 
A asa do rumor no ar adormeceu! 


Luís de Montalvor 
(1892-1947), 
in 'Antologia Poética'



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