sábado, 29 de outubro de 2016

"Eis-me" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Viktor Bolesko, Summer on old Canal, 2012, canvas, oil, 60x80 cm



Eis-me


Tendo-me despido de todos os meus mantos 
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses 
Para ficar sozinha ante o silêncio 
Ante o silêncio e o esplendor da tua face 

Mas tu és de todos os ausentes o ausente 
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca 
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras 
E o teu encontro 
São planícies e planícies de silêncio 

Escura é a noite 
Escura e transparente 
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco 
E eu não habito os jardins do teu silêncio 
Porque tu és de todos os ausentes o ausente 


in 'Livro Sexto'


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