domingo, 9 de outubro de 2016

"Véspera" - Poema de Carlos Drummond de Andrade





Véspera


Amor: em teu regaço as formas sonham 
o instante de existir: ainda é bem cedo 
para acordar, sofrer. Nem se conhecem 
os que se destruirão em teu bruxedo. 

Nem tu sabes, amor, que te aproximas 
a passo de veludo. És tão secreto, 
reticente e ardiloso, que semelhas 
uma casa fugindo ao arquiteto. 

Que presságios circulam pelo éter, 
que signos de paixão, que suspirália 
hesita em consumar-se, como flúor, 
se não a roça enfim tua sandália? 

Não queres morder célere nem forte. 
Evitas o clarão aberto em susto. 
Examinas cada alma. É fogo inerte? 
O sacrifício há de ser lento e augusto. 

Então, amor, escolhes o disfarce. 
Como brincas (e és sério) em cabriolas, 
em risadas sem modo, pés descalços, 
no círculo de luz que desenrolas! 

Contempla este jardim: os namorados, 
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo 
de teu capricho o hermético astrolábio, 
e perseguem o sol no dia findo. 

E se deitam na relva; e se enlaçando 
num desejo menor, ou na indecisa 
procura de si mesmos, que se expande, 
corpóreos, são mais leves do que brisa. 

E na montanha-russa o grito unânime 
é medo e gozo ingénuo, repartido 
em casais que se fundem, mas sem flama, 
que só mais tarde o peito é consumido. 

Olha, amor, o que fazes desses jovens 
(ou velhos) debruçados na água mansa, 
relendo a sem-palavra das estórias 
que nosso entendimento não alcança. 

Na pressa dos comboios, entre silvos, 
carregadores e campainhas, rouca 
explosão de viagem, como é lírico 
o batom a fugir de uma a outra boca. 

Assim teus namorados se prospectam: 
um é mina do outro; e não se esgota 
esse ouro surpreendido nas cavernas 
de que o instinto possui a esquiva rota. 

Serão cegos, autómatos, escravos 
de um deus sem caridade e sem presença? 
Mas sorriem os olhos, e que claros 
gestos de integração, na noite densa! 

Não ensaies de mais as tuas vítimas, 
ó amor, deixa em paz os namorados 
Eles guardam em si, coral sem ritmo, 
os infernos futuros e passados. 


in 'A Vida Passada a Limpo'


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