sábado, 12 de novembro de 2016

"Louvor do Esquecimento" - Poema de Bertolt Brecht


Salvador DalíA Separação do Átomo, 1947



Louvor do Esquecimento


Bom é o esquecimento. 
Senão como é que 
o filho deixaria a mãe que o amamentou? 
Que lhe deu a força dos membros e 
o retém para os experimentar. 

Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre 
que lhe deu o saber? 
Quando o saber está dado 
o discípulo tem de se pôr a caminho. 

Na velha casa 
entram os novos moradores. 
Se os que a construíram ainda lá estivessem 
a casa seria pequena de mais. 

O fogão aquece. O oleiro que o fez 
já ninguém o conhece. O lavrador 
não reconhece a broa de pão. 

Como se levantaria, sem o esquecimento 
da noite que apaga os rastos, o homem de manhã? 
Como é que o que foi espancado seis vezes 
se ergueria do chão à sétima 
para lavrar o pedregal, para voar 
ao céu perigoso? 

A fraqueza da memória dá 
fortaleza aos homens. 


in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas' 
Tradução de Paulo Quintela


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