domingo, 27 de novembro de 2016

"No sorriso louco das mães" - Poema de Herberto Helder


Maximilien Luce (1858 -1941), Maternité, 1895



No sorriso louco das mães


No sorriso louco das mães batem as leves 
gotas de chuva. Nas amadas 
caras loucas batem e batem 
os dedos amarelos das candeias. 
Que balouçam. Que são puras. 
Gotas e candeias puras. E as mães 
aproximam-se soprando os dedos frios. 
Seu corpo move-se 
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões 
e órgãos mergulhados, 
e as calmas mães intrínsecas sentam-se 
nas cabeças filiais. 
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado 
vendo tudo, 
e queimando as imagens, alimentando as imagens 
enquanto o amor é cada vez mais forte. 
E bate-lhes nas caras, o amor leve. 
O amor feroz. 
E as mães são cada vez mais belas. 
Pensam os filhos que elas levitam. 
Flores violentas batem nas suas pálpebras. 
Elas respiram ao alto e em baixo. São 
silenciosas. 
E a sua cara está no meio das gotas particulares 
da chuva, 
em volta das candeias. No contínuo 
escorrer dos filhos. 
As mães são as mais altas coisas 
que os filhos criam, porque se colocam 
na combustão dos filhos, porque 
os filhos estão como invasores dentes-de-leão 
no terreno das mães. 
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos, 
e atiram-se, através deles, como jatos 
para fora da terra. 
E os filhos mergulham em escafandros no interior 
de muitas águas, 
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos 
e na agudeza de toda a sua vida. 
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa, 
e através dele a mãe mexe aqui e ali, 
nas chávenas e nos garfos. 
E através da mãe o filho pensa 
que nenhuma morte é possível e as águas 
estão ligadas entre si 
por meio da mão dele que toca a cara louca 
da mãe que toca a mão pressentida do filho. 
E por dentro do amor, até somente ser possível 
amar tudo, 
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor. 


Herberto Helder, in 'Excerto do poema «Fonte», 
publicado em A Colher na Boca, 1961'



Maximilien Luce (1858 -1941) La Gare de l'Est sous la neige, 1917


"Escreve-se um poema devido à suspeita de que enquanto o escrevemos algo vai acontecer, uma coisa formidável, algo que nos transformará, que transformará tudo."


Jornal Público, 4 Dezembro 1990


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