domingo, 13 de novembro de 2016

"O deserto inominável" - Poema de José Jorge Letria


O deserto inominável


O deserto é um silêncio depois do mar,
É o êxtase da luz sobre o coração da areia.
Vai-se e volta-se e nada se esquece.
Tudo se oculta para depois se dar a ver
No ponto em que os ventos se cruzam
E as almas gritam no fundo dos poços.
Os cestos sobem e descem prometendo água,
Uma frescura que derrete a febre.
Não são as tâmaras que adoçam a boca,
É a beleza das mulheres dissimulando
O desejo como um pecado sob a escuridão dos véus.
As serpentes assobiam ou cantam
Conforme o veneno que lhes molda o sangue.
Enroscam-se sobre as pedras
como fragmentos de lua à espera da manhã.
E a sombra alonga-se nas dunas
Ondulando rente às palmeiras
Como a última cobra do medo das crianças.
Não há ruído maior que este silêncio
Que se serve com tâmaras e com chá
Na mesa rasteira, sobre a terra molhada.
É no que não se nomeia que está o infinito.


Os Mares Interiores
Lisboa, Teorema, 2001




Giovanni Boldini (1842-1931), Portrait of a Man in Church, 1900



Para os que sofrem pode ser que eu tenha
um carme triste dos que não consolam
mas triste, sem rasgar mais funda a chaga,
que deixou na alma o desengano acerbo.

Para os que sofrem só conheço um livro.


Excerto de Kempis


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