quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"Sebastião em sonho" - Poema de Georg Trakl


Pompeo Batoni (Italian painter, 1708–1787), The Sacred Family



Sebastião em sonho

1.

Uma mãe pariu a criança branca à luz da lua, 
À sombra da nogueira, do secular sabugueiro, 
Ébria do mosto das papoilas, do lamento dos melros; 
E silenciosas 
Inclinavam-se sobre essa mulher em compaixão as barbas de um rosto, 
Mudas no escuro da janela; e velhos trastes 
Ancestrais 
Apodreciam para ali; amor e fantasia outonal.

Tão estranho era o dia do ano, a triste infância, 
Quando o rapazinho desceu suavemente para as frescas águas, para os argênteos peixes, 
Paz e continência; 
Quando, pétreo, se atirou sob corcéis desenfreados, 
Na noite cinzenta a sua estrela desceu sobre ele; 
Ou quando, pela mão gelada da mãe, 
Pastava ao cair da noite pelo outonal cemitério de São Pedro, 
Frágil cadáver jazia mudo no escuro da câmara 
E ele erguia, para olhá-lo as frias pálpebras.

Ele, porém, era uma avezinha em troncos nus, 
O sino alongava-se no Novembro da noite, 
O silêncio do pai, quando a dormir descia a escada crepuscular. 

2.

Paz da alma. Solitária noite de inverno, 
As negras silhuetas dos pastores no velho lago; 
Criança na cabana de palha; oh, como baixava 
Levemente o rosto em negra febre. 
Noite sagrada.

Ou quando, pela dura mão do pai, 
Subia em silêncio o sombrio monte do Calvário 
E no entardecer, em nichos dos rochedos, 
A figura azul do Homem atravessava a sua lenda, 
Da ferida sob o coração corria purpúreo o sangue. 
Oh, como se elevava suavemente a cruz em escura alma.

Amor; quando em escuros becos a neve derretia, 
E no velho sabugueiro ficava alegremente presa uma brisa azulada. 
Na abóbada da sombra da nogueira; 
E silenciosamente aparecia ao rapaz o seu anjo rosado.

Alegria; quando em frescas salas soava à noitinha uma sonata, 
Nos vigamentos castanhos 
Uma borboleta azul saía da crisálida de prata.

Oh, a proximidade da morte. Em pétreo muro 
Curvava-se uma cabeça amarela, a criança calada, 
Quando nesse mês de Março, a lua declinava. 

3.

Sino rosado da Páscoa na abóbada tumular da noite 
E as vozes argênteas das estrelas, 
que fazem descer tremenda e sombria loucura da fronte de quem dorme.

Oh, que silencioso o andar rio azul abaixo 
Meditando sobre coisas olvidadas, enquanto nos ramos verdes 
O chamamento do melro leva um estranho ser à decadência.

Ou quando, pela ossuda mão do ancião, 
Passava à noite pela muralha arruinada da cidade 
E aquele levava no casaco negro uma criança rosada, 
O espírito do mal aparecia na sombra da nogueira.

Tatear por sobre os verdes degraus do verão. Oh, como o jardim 
Caiu suavemente no silêncio castanho do outono, 
Aroma e melancolia do velho sabugueiro, 
Quando na sombra de Sebastião se extinguiu a voz argêntea do anjo.


(1913) 

(Tradução de João Barrento)



Georg Trakl


Georg Trakl (Salzburgo, 3 de fevereiro de 1887 — Cracóvia, 3 de novembro de 1914) foi um proeminente poeta expressionista austríaco do início do século XX.
A poesia de Georg Trakl, assim como a de grande parte dos expressionistas, é marcada por profunda angústia, melancolia e desespero humano, priorizando o mundo interior em oposição ao exterior. Assim sendo, uma poesia extremamente subjetiva. Outro aspecto marcante de sua poesia é seu diálogo contante com o simbolismo francês, em especial Arthur Rimbaud e Charles Baudelaire. Atualmente sua obra goza de grande fama e prestígio internacional, sendo considerado por muitos críticos o maior dos poetas expressionistas. (Daqui)



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