domingo, 15 de outubro de 2017

"Minha Mãe" - Poema de Casimiro de Abreu


Arthur John Elsley (British Painter, 1860-1952), Good Night, 1914



Minha Mãe


Da pátria distante e saudoso,
Chorando e gemendo meus cantos de dor,
Eu guardo no peito a imagem querida
Do mais verdadeiro, do mais santo amor:
- Minha mãe! -

Nas horas caladas das noites de estio,
Sentado sozinho com a face na mão,
Eu choro e soluço por quem me chamava
O filho querido do seu coração:
- Minha mãe! -

No berço, pendente dos ramos floridos,
Em que eu pequenino feliz dormitava,
Quem é que esse berço com todo o cuidado
cantando cantigas alegres embalava?
- Minha mãe! -

De noite, alta noite, quando eu já dormia,
Sonhando esses sonhos dos anjos dos céus,
Quem é que meus lábios dormentes roçava,
Qual anjo da guarda, qual sopro de Deus?
- Minha mãe! -

Feliz bom filho, que pode contente
Na casa paterna, de noite e de dia,
Sentir as carícias do anjo de amores,
Da estrela brilhante que a vida nos guia:
- Uma mãe! -

Por isso eu agora, na terra do exílio,
Sentado sozinho com a face na mão,
Suspiro e soluço por quem me chamava:
«Oh filho querido do meu coração!»
- Minha mãe! -





Arthur John Elsley, Baby's Bath Time



"Um único raio de sol é suficiente para afastar várias sombras."



domingo, 8 de outubro de 2017

"Ave-Maria" - Poema de Fernando Pessoa


Enguerrand Quarton ou Charonton (1410 - 1466), A Coroação da Virgem, 1452-53



AVE-MARIA

À minha mãe


Ave Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada
Ouvi a prece tirada
No meu peito da amargura!

Vós que sois cheia de graça,
Escutai minha oração,
Conduzi-me pela mão
Por esta vida que passa!

O Senhor, que é vosso filho
Que seja sempre connosco,
Assim como é convosco
Eternamente o seu brilho!

Bendita sois vós, Maria,
Entre as mulheres da terra;
A vossa alma só encerra
Doce imagem de alegria!

Mais radiante do que a luz
E bendito, oh Santa Mãe,
É o fruto que provém
Do vosso ventre, Jesus!

Gloriosa Santa Maria,
Vós que sois a Mãe de Deus
E que morais lá nos céus,
Velai por mim cada dia!

Rogai por nós pecadores,
Ao vosso filho, Jesus,
Que por nós morreu na cruz
E que sofreu tantas dores!

Orai, agora, oh Mãe querida
E (quando quiser a sorte)
Na hora da nossa morte
Quando nos fugir a vida!

Ave Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada,
Ouvi a prece tirada
No meu peito da amargura.




sábado, 7 de outubro de 2017

"As fadas" - Poema de Antero de Quental


William Henry Margetson (British painter, 1861-1940), 
Cinderella and the Fairy Godmother, Date unknown 



As fadas


As fadas...  eu creio nelas!
Umas são moças e belas,
Outras, velhas de pasmar... 
Umas vivem nos rochedos,
Outras, pelos arvoredos,
Outras, à beira do mar... 

Algumas em fonte fria
Escondem-se, enquanto é dia,
Saem só ao escurecer... 
Outras, debaixo da terra,
Nas grutas verdes da serra,
É que se vão esconder... 

O vestir… são tais riquezas,
Que rainhas, nem princesas
Nenhuma assim se vestiu!
Porque as riquezas das fadas
São sabidas, celebradas
Por toda a gente que as viu... 

Quando a noite é clara e amena
E a lua vai mais serena,
Qualquer as pode espreitar,
Fazendo rodas, ocupadas
Em dobar suas meadas
De ouro e de prata, ao luar.

O luar é os seus amores!
Sentadinhas entre as flores
Horas se ficam sem fim,
Cantando suas cantigas,
Fiando suas estrigas,
Em roca de oiro e marfim.

Eu sei os nomes de algumas:
Viviana ama as espumas
Das ondas nos areais,
Vive junto ao mar, sozinha,
Mas costuma ser madrinha
Nos batizados reais.

Morgana é muito enganosa;
Às vezes, moça e formosa,
E outras, velha, a rir, a rir... 
Ora festiva, ora grave,
E voa como uma ave,
Se a gente lhe quer bulir.

Que direi de Melusina?
De Titânia, a pequenina,
Que dorme sobre um jasmim?
De cem outras, cuja glória 
Enche as páginas da história
Dos reinos de el-rei Merlin?

Umas têm mando nos ares;
Outras, na terra, nos mares;
E todas trazem na mão
Aquela vara famosa,
A vara maravilhosa, 
A varinha de condão.

O que elas querem, num pronto,
Fez-se ali! parece um conto... 
Mesmo de fadas...  eu sei!
São condões que dão à gente,
Ou dinheiro reluzente
Ou joias, que nem um rei!

A mais pobre criancinha
Se quis ser sua madrinha,
Uma fada… ai, que feliz!
São palácios, num momento... 
Beleza, que é um portento... 
Riqueza, que nem se diz... 

Ou então, prendas, talento,
Ciência, discernimento,
Graças, chiste, discrição... 
Vê-se o pobre inocentinho
Feito um sábio, um adivinho,
Que aos mais sábios vai à mão!

Mas, com tudo isto, as fadas
São muito desconfiadas;
Quem as vê não há de rir.
Querem elas que as respeitem,
E não gostam que as espreitem,
Nem se lhes há de mentir.

Quem as ofende...  Cautela!
A mais risonha, a mais bela,
Torna-se logo tão má,
Tão cruel, tão vingativa!
É inimiga agressiva,
É serpente que ali está!

E têm vinganças terríveis!
Semeiam coisas horríveis,
Que nascem logo no chão... 
Linguas de fogo que estalam!
Sapos com asas que falam!
Um anão preto! Um dragão!

Ou deitam sortes na gente... 
O nariz faz-se serpente,
A dar pulos, a crescer... 
É-se morcego ou veado... 
E anda-se assim encantado,
Enquanto a fada quiser!

Por isso quem por estradas
For, de noite, e vir as fadas
Nos altos mirando o céu,
Deve com jeito falar-lhes
Muito cortez e tirar-lhes
Até ao chão o chapéu.

Porque a fortuna da gente
Está às vezes somente
Numa palavra que diz;
Por uma palavra, engraça
Uma fada com quem passa,
E torna-o logo feliz.

Quantas vezes já deitado,
Mas sem sono, inda acordado
Me ponho a considerar
Que condão eu pediria,
Se uma fada, um belo dia,
Me quisesse a mim fadar... 

O que seria? Um tesouro?
Um reino? Um vestido de ouro?
Ou um leito de marfim?
Ou um palácio encantado,
Com seu lago prateado
E com pavões no jardim?

Ou podia, se eu quisesse,
Pedir também que me desse
Um condão, para falar
A língua dos passarinhos,
Que conversam nos seus ninhos... 
Ou então, saber voar!

Oh, se esta noite sonhando,
Alguma fada, engraçando
Comigo (podia ser!)
Me tocasse da varinha,
E fosse minha madrinha
Mesmo a dormir, sem a ver... 

E que amanhã acordasse
E me achasse...  eu sei? Me achasse
Feito um príncipe, um emir!... 
Até já, imaginando,
Se estão meus olhos fechando... 
Deixa-me já, já dormir!





sábado, 30 de setembro de 2017

"Sucedem-se os dias húmidos por dentro da minha espera" - Poema de Dórdio Guimarães


Beniamino Parlagreco (1856/1902), Paisagem do interior do Rio de Janeiro, c.1900,
 óleo sobre madeira, 15,8 x 24 cm. Foto: Gedley Braga



Da espera


sucedem-se os dias húmidos por dentro da minha espera
adio o arco-íris o salto montês da cabra que trago no peito
grande a náusea perfuma a dor dos verões suspensos cegos
se aquece a alma erguida na ponta dos pés do desassossego 

arredondam-se as estações neste gesticular incerto de índio
largo coração galego esqueço-me com coisas livres minúsculas
vermes róseos longos braços barcos à deriva que tenho do mar
espreito a fundo as horas que me separam do jazigo ou berço 

de boca amarga à gargalhada empreendo a lágrima lúcida
solar se verte o sangue no circo dos ágeis dedos de não voar
queria-me eu apto e louro com olhos de maçã cheios de amor 

já pestanejo as emoções seguintes que se anunciam verdes
no chegar do veado friorento que vem comer as ervas litorais
dobro-me à mulher à página ao morto inesperado e para quê? 



Benjamino Parlagrecco, Leitura na Varanda, óleo s/ cartão (fim do século XIX)


"Os desgostos da vida ensinam a arte do silêncio."



"Cismar" - Poema de Álvares de Azevedo


Émile Eisman Semenowsky (Polish/French, 1857-1911), The love note



Cismar


Fala-me, anjo de luz! és glorioso
À minha vista na janela à noite,
Como divino alado mensageiro
Ao ebrioso olhar dos froixos olhos
Do homem que se ajoelha para vê-lo,
Quando resvala em preguiçosas nuvens
Ou navega no seio do ar da noite.
Romeu

 Ai! Quando de noite, sozinha à janela,
Co’a face na mão te vejo ao luar,
Por que, suspirando, tu sonhas donzela?
A noite vai bela,
E a vista desmaia
Ao longe na praia
Do mar!

Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,
Como água da chuva cheiroso jasmim?
Na cisma que anjinho te conta segredos?
Que pálidos medos?
Suave morena,
Acaso tens pena
De mim?

Donzela sombria, na brisa não sentes
A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?
E a noite, que inspira no seio dos entes
Os sonhos ardentes,
Não diz-te que a voz
Que fala-te a sós
Sou eu?

Acorda! Não durmas da cisma no véu!
Amemos, vivamos, que amor é sonhar!
Um beijo, donzela! Não ouves?
No céu A brisa gemeu…
As vagas murmuram…
As folhas sussurram: Amar!




Émile Eisman Semenowsky, Girl Holding a Dove, 1882


"O corpo é o templo onde a natureza pede para ser reverenciada."

(Donatien Alphonse François, Marquês de Sade)



sexta-feira, 29 de setembro de 2017

"À Flor da Pele" - Poema de João Camilo


Pintura de Joseph Lorusso



À Flor da Pele


Acende o cigarro, rapariga. E olha para a
rua onde passam transeuntes desconhecidos.
A tarde vai avançando e nós morrendo nela
ou morrendo nela as nossas esperanças,
a ilusão de eternidade. A beleza o que é?
Braços nus, o ventre liso nu, os cabelos caídos
nos ombros. A desconhecida concentra em si
a atenção do homem desocupado. Para
distrair-se, ele olha para ela e recorda-se
da história antiga do amor, reconstrói
ficções que sabe serem apenas ficções. Assim
passa o tempo, depois irá para casa. Quem
sabe o segredo mais secreto da existência
de cada um? Todos nós temos uma
história. Uns calam-na, outros murmuram
entre dentes os episódios essenciais, outros
encontram palavras com que construir o
poema hermético. Que diferença é que faz?
De tudo se constrói a existência, se alimenta
o sentido. Camisa branca à flor da pele, a
rapariga levantou-se e foi lá dentro do café
comprar qualquer coisa. Palavras, deixai-me
celebrar o vão movimento dos ponteiros do
relógio, os episódios vãos, a nossa morte.



Poeta e ensaísta, de nome completo João Camilo dos Santos, nasceu em 1943. É licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa e doutorado pela Université de Haute Bretagne, com uma tese sobre a arte do romance em Carlos de Oliveira. 
Leitor de Português nas universidades de Oslo, Rennes, Aix-en-Provence e professor convidado na Universidade de Grenoble, é atualmente professor catedrático de Português da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, onde dirige um Centro de Estudos Portugueses.
A sua poesia fixa com discreta ironia pequenas micronarrativas e imagens do quotidiano, não hesitando em converter em tema e linguagem poética motivos comuns. (Daqui)


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

"Ode ao Cidadão Anónimo" - Poema de E. M. de Melo e Castro


António Costa Pinheiro, Painel de azulejos, Estação Alameda, 1997.



Ode ao Cidadão Anónimo


Tu, cidadão anónimo, igual a ti próprio e a mim/outro
Que compras tudo o que és capaz de comprar
E deitas para o lixo tudo o que compraste

Que ganhas a tua vida perdendo a tua vida
Vida que é pequena e que só tens uma
Mas finges ignorar

Que pagas as contas que fazes sem saber porquê
Mas esperas descontos nos contos do vigário
que os teus credores te contam

Tu que ainda há pouco alimentavas a ilusão
de que o que fazes é produtivo para o teu país,
vais verificando dia a dia
que o teu trabalho é inútil principalmente para ti
porque um dia te despedem
até ficares despido

porque quem não precisa de ti não quer senão o teu voto
e tu que te lixes no lixo
porque o trabalho que fizeste toda a vida
é muito mais bem feito por qualquer robot
e ninguém dá por isso se não for feito
por isso és despedido
Assim desfruta a tua liberdade de desempregado
o melhor que puderes
porque és livre e por isso descartável

Está é a mais extraordinária descoberta da sociologia neoliberal
cibernetizada e deves ficar feliz com isso!

Mas não digas a ninguém.
Chora essa tua felicidade sozinho.

Se és velho, nunca vás para uma casa de repouso.
Finge que trabalhas.
Finge que te pagam, mesmo sabendo que nada recebes
Porque dá mais gozo não receber um salário venenoso
Que é teu
Mas irá fortalecer o sistema capitalista
E o igualmente selvagem neoliberalismo…
De que tanto gostas
E em que votaste à toa!


E. M. de Melo e Castro 
(n. Covilhã, 1932),
 in '15 Odes Ocas'



António Costa Pinheiro, Painel de azulejos, Estação Alameda, 1997.


"[...] para mim, trabalhar o verso, trabalhar a prosa, trabalhar o signo não verbal, quer com meios gráficos convencionais ou com meios tecnológicos avançados, faz parte de um processo total que eu chamo poiésis, isto é, a produção do artefato, a produção do objeto, mas do objeto novo, evidentemente. E é justamente nesta inovação, ou nos aspetos transgressivos em relação às normas estabelecidas para a produção de versos, de poemas em prosa ou até mesmo de poemas visuais, é na transgressão que, para mim, se encontra o ponto crucial dessa produção".

 E. M. de Melo e Castro, 2001


António Costa Pinheiro, Painel de azulejos, Estação Alameda, 1997.


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

"Passeio ao Campo" - Poema de Florbela Espanca


 
Gregory Frank Harris (b.1953), The Poppy Field



Passeio ao Campo


Meu Amor! Meu Amante! Meu Amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina...
Pele doirada de alabastro antigo...
Frágeis mãos de madona florentina...
- Vamos correr e rir por entre o trigo! –

Há rendas de gramíneas pelos montes...
Papoilas rubras nos trigais maduros...
Água azulada a cintilar nas fontes...

E à volta, Amor... tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras!...


Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"



Gregory Frank Harris, Springtime in the Fields


"O amor é um som que reclama um eco." 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

"Passa uma borboleta por diante de mim" - Poema de Alberto Caeiro


Berthe Morisot (1841–1895), La Chasse aux Papillons, 1874Museu de Orsay



Passa uma borboleta por diante de mim 


Passa uma borboleta por diante de mim 
E pela primeira vez no Universo eu reparo 
Que as borboletas não têm cor nem movimento, 
Assim como as flores não têm perfume nem cor. 
A cor é que tem cor nas asas da borboleta, 
No movimento da borboleta o movimento é que se move, 
O perfume é que tem perfume no perfume da flor. 
A borboleta é apenas borboleta 
E a flor é apenas flor. 


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XL" 
Heterónimo de Fernando Pessoa





"É erro vulgar confundir o desejar com o querer. O desejo mede os obstáculos; a vontade vence-os." 



domingo, 24 de setembro de 2017

"A História da Moral" - Poema de Alexandre O'Neill


Ivan Kap, Conversation



A História da Moral


Você tem-me cavalgado,
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.


Alexandre O'Neill,
in "De ombro na ombreira", 1969



Ivan Kap, The poker player


"A tentativa de trazer o céu para a terra invariavelmente produz o inferno."

(Karl Popper)


"Os Amantes de Novembro" - Poema de Alexandre O'Neill


Leopold Burger (austrian, 1861-1903), Liebespaar am Wiesenrand (Sommer), 
Teil des Zyklus Die vier Jahreszeiten, 1894



Os Amantes de Novembro


Ruas e ruas dos amantes 
Sem um quarto para o amor 
Amantes são sempre extravagantes 
E ao frio também faz calor 

Pobres amantes escorraçados 
Dum tempo sem amor nenhum 
Coitados tão engalfinhados 
Que sendo dois parecem um 

De pé imóveis transportados 
Como uma estátua erguida num 
Jardim votado ao abandono 
De amor juncado e de outono. 


 in 'No Reino da Dinamarca'

sábado, 23 de setembro de 2017

"A Cor da tua Alma" - Poema de Juan Ramón Jiménez


Adolf Hölzel (1853-1934), The Love Letter



A Cor da tua Alma


Enquanto eu te beijo, o seu rumor 
nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro 
que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro 
da árvore que é a árvore de meu amor. 

Não é fulgor, não é ardor, não é primor 
o que me dá de ti o que te adoro, 
com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro, 
é o ouro feito sombra: a tua cor. 

A cor de tua alma; pois teus olhos 
vão-se tornando nela, e à medida 
que o sol troca por seus rubros seus ouros, 
e tu te fazes pálida e fundida, 
sai o ouro feito tu de teus dois olhos 
que me são paz, fé, sol: a minha vida! 


Juan Ramón Jiménez, in "Ríos que se Van" 
Tradução de José Bento


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

"Lisboa com suas casas" - Poema de Álvaro de Campos


 Real Bordalo (Lisboa, 1925 - 2017), Lisboa



Lisboa com suas casas


Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores...
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
A força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.


Álvaro de Campos, in "Poemas"
 Heterónimo de Fernando Pessoa



O artista plástico português Real Bordalo


Artur Real Chaves Bordalo da Silva nasceu em Lisboa em 1925, estudou desenho na Sociedade Nacional de Belas-Artes e o trabalho artístico destaca-se em aguarela e óleo, sobretudo paisagens urbanas, em particular edifícios e locais históricos da capital.

Ainda adolescente trabalhou com João Rosa Rodrigues, Francisco Branco e, mais tarde, com Leitão de Barros em cenografia, na Tobis e na Lisboa Filme. Foi pintor na Fábrica da Cerâmica Constância Faiança Bastitini, desenhador técnico, retocador de rotogravura e desenhador maquetista no Diário de Notícias.

Entre 1948 e 1950 recebeu três prémios, entre eles a menção honrosa em aguarela na Sociedade Nacional de Belas-Artes. Em 1952, com 27 anos, inaugurou a primeira exposição individual com trabalhos em aguarela e pastel no Casino da Figueira da Foz.

A obra de Real Bordalo encontra-se representada no Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha, em museus municipais de cidades como Lisboa, Lagos, Porto e Santarém, e em coleções particulares de França, Japão, Itália, Estados Unidos e Alemanha.

Real Bordalo morreu em junho de 2017, em Lisboa, aos 91 anos de idade. (Daqui)



Real Bordalo, Lisboa 


"Lisboa é a nitidez através do ar. Lisboa é a cor manchada dos muros. Lisboa é o musgo novo a nascer sobre o musgo seco. Lisboa é o desenho de fendas, como relâmpagos, a escorrerem pela superfície dos muros. Lisboa é a imperfeição criteriosa. Lisboa é o céu refletido."

José Luís Peixoto, in Cemitério de Pianos



segunda-feira, 11 de setembro de 2017

"Em Lisboa com Cesário Verde" - Poema de Eugénio de Andrade


Carlos Botelho (1899-1982), Ramalhete de Lisboa, 1935, óleo sobre contraplacado, 72 x 100 cm



Em Lisboa com Cesário Verde 


Nesta cidade, onde agora me sinto 
mais estrangeiro do que um gato persa; 
nesta Lisboa, onde mansos e lisos 
os dias passam a ver as gaivotas, 
e a cor dos jacarandás floridos 
se mistura à do Tejo, em flor também; 
só o Cesário vem ao meu encontro, 
me faz companhia, quando de rua 
em rua procuro um rumor distante 
de passos ou aves, nem eu já sei bem. 
Só ele ajusta a luz feliz dos seus 
versos aos olhos ardidos que são 
os meus agora; só ele traz a sombra 
de um verão muito antigo, com corvetas 
lentas ainda no rio, e a música, 
sumo do sol a escorrer da boca, 
ó minha infância, meu jardim fechado, 
ó meu poeta, talvez fosse contigo 
que aprendi a pesar sílaba a sílaba 
cada palavra, essas que tu levaste 
quase sempre, como poucos mais, 
à suprema perfeição da língua. 


Homenagens e outros Epitáfios, 1974 



Carlos BotelhoLisboa e o Tejo, 1935



Lisboa


Alguém diz com lentidão:
“Lisboa, sabes…”
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu, sabias?


Eugénio de Andrade, in Até Amanhã, 1956



Carlos Botelho, Lisboa e o Tejo, 1950,  54,5 x 73,5 cm



Lisboa


Esta névoa sobre a cidade, o rio,
as gaivotas doutros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder,
esta névoa onde começa a luz de Lisboa,
rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,
nada mais quero de degrau em degrau.






Aos jacarandás de Lisboa 


São eles que anunciam o verão.
Não sei doutra glória, doutro
paraíso: à sua entrada os jacarandás
estão em flor, um de cada lado.
E um sorriso, tranquila morada,
à minha espera.
O espaço a toda a roda
multiplica os seus espelhos, abre
varandas para o mar.
É como nos sonhos mais pueris:
posso voar quase rente
às nuvens altas – irmão dos pássaros –,
perder-me no ar.


in Os Sulcos da Sede, 2001



Carlos Botelho, Calçada da Glória, Lisboa (Elevador da Glória), 1950





Carlos António Teixeira Bastos Nunes Botelho (Lisboa, 18 de Setembro de 1899 — Lisboa, 18 de Agosto de 1982), foi um pintor, ilustrador e caricaturista português. Foi aluno do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, tendo-se seguidamente inscrito na Escola de Belas-Artes de Lisboa, que abandonou ao fim de pouco tempo. 
Entre 1926 e 1929 fez, com regularidade, páginas de banda desenhada para o semanário infantil ABCzinho. Em 1928, iniciou uma crónica humorística no semanário Sempre Fixe, na página Ecos da Semana, colaboração que manteve durante mais de 22 anos. Em 1930, monta o seu primeiro atelier na Costa do Castelo, em Lisboa, na casa a que a sua mulher, professora do ensino primário, tinha direito pela função exercida. A localização desta casa, onde viveu até 1949, influenciou certamente a sua temática, oferecendo-lhe temas e referências que influenciaram o seu percurso artístico.
Em 1937, integra a equipa de decoradores do Pavilhão de Portugal, durante a Exposição Internacional de Artes e Técnica em Paris. Nesta cidade teve acesso a uma retrospectiva da obra de Van Gogh que o terá influenciado largamente, determinando mesmo, a sua obra numa primeira fase expressionista. 
Em 1938 recebeu o prémio Amadeo de Souza-Cardoso, pelo retrato do seu pai. Em 1939, permanece nos Estados Unidos da América por um período longo, integrando a equipa de decoradores dos pavilhões portugueses, das Exposições Internacionais de Nova Iorque e de São Francisco. Em 1940, integrou uma das equipas de decoradores da Exposição do Mundo Português, em Lisboa. Neste ano recebe também o Prémio Columbano.
Denominado pela crítica como “pintor de Lisboa”, Carlos Botelho é autor de uma das mais importantes colecções de Arte Moderna Portuguesa. Tendo a cidade de Lisboa por cenário, real ou fictício, o pintor encontrou uma paleta característica que varia entre os tons de rosa velho e amarelo torrado, com os seus telhados vermelhos, as janelas e mansardas geometricamente arrumadas entre azulejos e gradeamentos, construindo composições ricas em cor e volume. Botelho faz também de Lisboa laboratório de impressões e experiências que traz de outras cidades e de outros pintores, cruzando-as com as suas próprias viagens por Lisboa, na escolha dos motivos e dos modos de os registar. (Daqui)



Carlos Botelho, 'Panorâmica-78' (Lisboa - Vista de São Pedro de Alcântara)



"Só é arte o espontâneo que se submete ao consciente."




sábado, 9 de setembro de 2017

"A Lavadeira" - Poema de Cora Coralina


Charles Courtney Curran (1861-1942), A Breezy Day, 1887



A Lavadeira


Essa mulher...
Tosca. Sentada. Alheada ...
Braços cansados
Descansando nos joelhos ...
Olhar parado, vago,
Perdida no seu mundo
De trouxas e espumas de sabão
- é a lavadeira.

Mãos rudes deformadas.
Roupa molhada.
Dedos curtos.
Unhas enrugadas.
Córneas.
Unheiros doloridos
Passaram, marcaram.
No anular, um círculo metálico
Barato, memorial.

Seu olhar distante,
Parado no tempo.
À sua volta
-uma espumadeira branca de sabão.

Inda o dia vem longe
Na casa de Deus Nosso Senhor,
O primeiro varal de roupa
Festeja o sol que vai subindo.

Vestindo o quaradouro
De cores multicores.

Essa mulher
Tem quarenta anos de lavadeira.
Doze filhos
Crescidos e crescendo.

Viúva, naturalmente.
Tranquila, exata, corajosa.

Temente dos castigos do céu
Enrodilhada no seu mundo pobre.

Madrugadeira.

Salva a aurora.
Espera pelo sol.
Abre os portais do dia
entre trouxas e barrelas.

Sonha calada.
Enquanto a filharada cresce
Trabalha suas mãos pesadas.

Seu mundo se resume
na vasca, no gramado.
No arame e prendendores.
Na tina d’água.
De noite – o ferro de engomar.

Vai lavando, vai levando.
Levando doze filhos
Crescendo devagar,
Enrodilhada no seu mundo pobre,
Dentro de uma espumadeira
Branca de sabão.

Às lavadeiras do Rio Vermelho
Da minha terra,
Faço deste pequeno poema
Meu altar de ofertas.





Charles Courtney Curran, Hanging out Linen, 1887


"O silêncio é um amigo que nunca trai."

(Confúcio)


Charles Courtney Curran, Hanging Out the Clothes, 1887


"A cura para o tédio é a curiosidade. Não há cura para a curiosidade."



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