terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

"Os Arlequins" (Sátira) - Poema de Machado de Assis


Paul Cézanne (Francês, 1839 - 1906), Arlequim, 1888-90,



Os Arlequins 
(Sátira)


Musa, depõe a lira! 
Cantos de amor, cantos de glória esquece! 
Novo assunto aparece 
Que o génio move e a indignação inspira. 
Esta esfera é mais vasta, 
E vence a letra nova a letra antiga! 
Musa, toma a vergasta, 
E os arlequins fustiga! 

Como aos olhos de Roma, 
— Cadáver do que foi, pávido império 
De Caio e de Tibério, — 
O filho de Agripina ousado assoma; 
E a lira sobraçando, 
Ante o povo idiota e amedrontado, 
Pedia, ameaçando, 
O aplauso acostumado; 

E o povo que beijava 
Outrora ao deus Calígula o vestido, 
De novo submetido 
Ao régio saltimbanco o aplauso dava. 
E tu, tu não te abrias, 
Ó céu de Roma, à cena degradante! 
E tu, tu não caías, 
Ó raio chamejante! 

Tal na história que passa 
Neste de luzes século famoso, 
O engenho portentoso 
Sabe iludir a néscia populaça; 
Não busca o mal tecido 
Canto de outrora; a moderna insolência 
Não encanta o ouvido, 
Fascina a consciência! 

Vede; o aspecto vistoso, 
O olhar seguro, altivo e penetrante, 
E certo ar arrogante 
Que impõe com aparências de assombroso; 
Não vacila, não tomba, 
Caminha sobre a corda firme e alerta: 
Tem consigo a maromba 
E a ovação é certa. 

Tamanha gentileza, 
Tal segurança, ostentação tão grande, 
A multidão expande 
Com ares de legítima grandeza. 
O gosto pervertido 
Acha o sublime neste abatimento, 
E dá-lhe agradecido 
O louro e o monumento. 

Do saber, da virtude, 
Logra fazer, em prémio dos trabalhos, 
Um manto de retalhos 
Que a consciência universal ilude. 
Não cora, não se peja 
Do papel, nem da máscara indecente, 
E ainda inspira inveja 
Esta glória insolente! 

Não são contrastes novos; 
Já vem de longe; e de remotos dias 
Tornam em cinzas frias 
O amor da pátria e as ilusões dos povos. 
Torpe ambição sem peias 
De mocidade em mocidade corre, 
E o culto das ideias 
Treme, convulsa e morre. 

Que sonho apetecido 
Leva o ânimo vil a tais empresas? 
O sonho das baixezas: 
Um fumo que se esvai e um vão ruído; 
Uma sombra ilusória 
Que a turba adora ignorante e rude; 
E a esta infausta glória 
Imola-se a virtude. 

A tão estranha liça 
Chega a hora por fim do encerramento, 
E lá soa o momento 
Em que reluz a espada da justiça. 
Então, musa da história, 
Abres o grande livro, e sem detença 
À envilecida glória 
Fulminas a sentença. 


 in 'Crisálidas', 1864


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

"A canção das lágrimas de Pierrot" - Poema de Manuel Bandeira




A canção das lágrimas de Pierrot


A sala em espelhos brilha 
Com lustres de dez mil velas. 
Miríades de rodelas 
Multicores - maravilha! - 

Torvelinham no ar que alaga 
O cloretilo e se toma 
Daquele mesclado aroma 
De carnes e de bisnaga. 

E rodam mais que confete, 
Em farândolas quebradas, 
cabeças desassisadas 
Por Colombina ou Pierrete 

II 

Pierrot entra em salto súbito. 
Upa! Que força o levanta? 
E enquanto a turba se espanta, 
Ei-lo se roja em decúbito. 

A tez, antes melancólica, 
Brilha. A cara careteia. 
Canta. Toca. E com tal veia, 
com tanta paixão diabólica, 

Tanta, que se lhe ensanguentam 
Os dedos. Fibra por fibra, 
Toda a sua essência vibra 
Nas cordas que se arrebentam. 

III 

Seu alaúde de plátano 
Milagre é que não se quebre. 
E a sua fronte arde em febre, 
Ai dele! e os cuidados matam-no. 

Ai dele! e essa alegria, 
Aquelas canções, aquele 
Surto não é mais, ai dele! 
Do que uma imensa ironia. 

Fazendo à cantiga louca 
Dolorido contracanto, 
Por dentro borbulha o pranto 
Como outra voz de outra boca: 

IV 

- "Negaste a pele macia 
À minha linda paixão 
E irás entregá-la um dia 
Aos feios vermes do chão... 

"Fiz por ver se te podia 
Amolecer - e não pude! 
Em vão pela noite fria 
Devasto o meu alaúde... 

"Minha paz, minha alegria, 
Minha coragem, roubaste-mas... 
E hoje a minh'alma sombria 
É como um poço de lástimas..." 


Corre após a amada esquiva. 
Procura o precário ensejo 
De matar o seu desejo 
Numa carícia furtiva. 

E encontrando-o Colombina, 
Se lhe dá, lesta, à socapa, 
Em vez de beijo um tapa, 
O pobre rosto ilumina-se-lhe! 

Ele que estava de rastros, 
Pula, e tão alto se eleva, 
Como se fosse na treva 
Romper a esfera dos astros!...


in Carnaval, 1919



Frank Xavier Leyendecker (American, 1877-1924), Arlequim e Colombina



O Carnaval 

O Carnaval é uma festa de origem católica. Entre os egípcios havia as festas de Ísis e do boi Ápis; entre os hebreus, a festa das sortes; entre os gregos, as bacanais; em Roma, as lupercais, as saturnais. Festins, músicas estridentes, danças, disfarces e licenciosidade formavam o fundo destes regozijos. Pelo seu lado, os gauleses tinham festas análogas, especialmente a grande festa do inverno a que é marcada pelo adeus à carne que a partir dela se fazia um grande período de abstinência e jejum, como o seu próprio nome em latim "carnis levale" o indica. Para a sua preparação havia uma grande concentração de festejos populares. Cada lugar e região brincava a seu modo, geralmente de uma forma propositadamente extravagante, de acordo com seus costumes.

Pensa-se que terá tido a sua origem na Grécia em meados dos anos 600 a 520 a.C, através da qual os gregos realizavam seus cultos em agradecimento aos deuses. Passou a ser uma comemoração adotada pela Igreja Católica em 590 d.C. antes da Quaresma.

É um período de festas regidas pelo ano lunar no cristianismo da Idade Média. O Carnaval moderno, feito de desfiles e fantasias, é produto da sociedade vitoriana do século XX. A cidade de Paris foi o principal modelo exportador da festa carnavalesca para o mundo. Cidades como Nice, Santa Cruz de Tenerife, Nova Orleans, Toronto e Rio de Janeiro se inspiraram no Carnaval parisiense para implantar suas novas festas carnavalescas. Já o Rio de Janeiro criou e exportou o estilo de fazer carnaval com desfiles de escolas de samba para outras cidades do mundo, como São Paulo, Tóquio e Helsínquia.

O Carnaval do Rio está atualmente no Guinness Book como o maior Carnaval do mundo, com um número estimado de 2,5 milhões de pessoas por dia nos blocos de rua da cidade. Em 1995, o Guinness Book declarou o Galo da Madrugada, da cidade do Recife, como o maior bloco de carnaval do mundo. (Daqui)


Hieronymus Francken I (1540-1610), Carnaval em Veneza1565


domingo, 26 de fevereiro de 2017

"As Máscaras" - Poema de Menotti Del Picchia


André Derain (França, 1880-1954), Arlequim e Pierrot, 1924



As Máscaras 


— O teu beijo é tão quente, Arlequim
— O teu sonho é tão manso, Pierrot 

Pudesse eu repartir-me
encontrar minha calma
dando a Arlequim meu corpo…
e a Pierrot a minha alma! 

Quando tenho Arlequim,
quero Pierrot tristonho,
pois um dá-me o prazer,
o outro dá-me o sonho! 

Nessa duplicidade o amor todo se encerra:
um me fala do céu… outro fala da terra! 

Eu amo, porque amar é variar,
e em verdade, toda a razão do amor
está na variedade… 

Penso que morreria o desejo da gente
se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente. 

Porque a história do amor
só pode escrever-se assim:
um sonho de Pierrot…
e um beijo de Arlequim! 


(O poema é baseado na fala final de Colombina em 'Máscaras', 1920)



André Derain'Danse bachique', 1906



“O carnaval. A festa onde os tabus perdem força 
e as permissões tornam-se hiperbólicas.”




"Se me aparto de ti, Deus da bondade"- Poema de Marquesa de Alorna





Se me aparto de ti, Deus da bondade


Se me aparto de ti, Deus da bondade, 
Que ausência tão cruel! Como é possível 
Que me leve a um abismo tão terrível 
O pendor infeliz da humanidade! 

Conforta-me, Senhor, que esta saudade 
Me despedaça o coração sensível; 
Se a teus olhos na cruz sou desprezível, 
Não olhes para a minha iniquidade! 

À suave esperança me entregaste, 
E o preço de teu sangue precioso 
Me afiança que não me abandonaste. 

Se, justo, castigar-me te é forçoso, 
lembra-te que te amei, e me criaste 
para habitar contigo o Céu lustroso! 


(Leonor de Almeida Portugal),
 in 'Antologia Poética'


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

"Barcos é que somos" - Poema de Albano Martins


Joseph Wopfner (1843-1927), An afternoon's boating, 1882



Barcos é que somos


A teu lado viajo.
Contigo navego.
Remos são as palavras
que te digo e escrevo.

Âncoras de ternura
com elas compomos
e mastros de espuma.

Barcos é que somos.


in: 'Complementos de lugar'
Antologia Poética



Martin Johnson Heade (1819-1904), Approaching Storm: Beach near Newport, 1861 - 1862



"Não se deve julgar os homens pelas suas opiniões, mas por aquilo que essas opiniões fazem deles. " 

(George Lichtenberg)

Georg Christoph Lichtenberg (Ober-Ramstadt, 1 de julho de 1742 — Göttingen, 24 de fevereiro de 1799) foi um filósofo, escritor e matemático alemão.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

"Nasceste do outro lado" - Poema de José Agostinho Baptista


Charles Courtney Curran, Afternoon in the Cluny Garden, Paris, 1889



Nasceste


Nasceste do outro lado,
onde o sol nunca destruiu os negros signos
da escuridão,
onde o terror do pai,
o distraído olhar da mãe,
o silêncio dos irmãos, faz crescer em ti as
imperecíveis flores da amargura.

Foste sempre
a equívoca imagem dos espelhos: um sorriso
era uma lágrima.
À tua volta estava escrito:
o amor é uma espada de fogo, às vezes mata.

Navegaste turvos oceanos cujas vagas alterosas,
nunca antes vistas,
batiam no teu assombro.
Atravessaste os ares, muito perto do céu,
mas nunca viste as altas mansões de Deus.
Eras apenas o anjo,
aquela que nunca pôde deixar as estâncias do
sono.
Entregaste, sem saber, os segredos do teu corpo,
tão predisposto à imolação.
Choraste tantas vezes,
em quartos de persianas descidas, que a morte
habitava,
sem fazer ruído.

Hoje,
não dizes nada.
Levas sobre os ombros um xaile de magoada renda.
Vestes quase sempre de negro.
Vais e vens,
ao longo dos labirintos onde em cada esquina
espreita o tigre.

Não sabes o que fazer com as mãos frias,
povoadas de angustiantes anéis.
Não bordas o livro das tuas horas,
e o dedal das avós dementes caiu sempre no
chão.

A chuva caiu sempre nos teus dias,
e caminhaste pelas ruas, à deriva, cabisbaixa,
como se pedisses perdão.
Ninguém te ouviu,
pois não havia palavras debruçadas da tua
boca.
Era sempre Inverno.

E quando ele chegou,
o filho pródigo de uma ilha,
parecia que enfim poderias cantar nos jardins da
paixão, na elevação das chamas.

Mas não.
Assassinaste sempre a ternura que ele ainda
guardava no devassado cofre da sua idade.
Suicidaste-te.


'Esta voz é quase o vento'
Assírio & Alvim, 2004


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

"O teu amor, bem sei" - Poema de António Franco Alexandre


Luděk Marold (Czech, 1865-1898), A kiss under the parasol



O teu amor, bem sei


o teu amor, bem sei, é uma palavra musical, 
espalha-se por todos nós com a mesma ignorância, 
o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos; 
ergues os ombros e dizes, hoje, amanhã, nunca mais, 
surpreende o vigor, a plenitude 
das coxas masculinas, habituadas ao cansaço, 
separamo-nos, à procura de sinais mais fixos, 
e o circuito das chamas recomeça. 

é um país subtil, o olho franco das mulheres, 
há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento, 
os teus pais disseram: o melhor de tudo é ser engenheiro, 
morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas, 
viajar de navio de buenos aires a montevideu. 
esta é a viagem que não faremos nunca, soltos 
na minuciosa tarde dos lábios, 
ágil pobreza. 

permanentemente floresce o horizonte em colinas, 
os animais olham por dentro, cheios de vazio, 
como um ladrão de pouca perícia a luz 
desfaz devagarmente os corpos. 
ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida, 
para que seja 
alto e altivo o coração da coisas? até quando aguardarei, 
no harmonioso beliche, que a tua visão cesse? 


in 'As Moradas 1 & 2', Lisboa: Assírio & Alvim.



David Teniers III (1638-1685), São Valentim a receber o Santo Rosário 



São Valentim


São Valentim é um santo reconhecido pela Igreja Católica e pelas Igrejas Orientais que dá nome ao "Dia dos Namorados" em muitos países, onde o celebram como "Dia de São Valentim". O nome refere-se a pelo menos três santos martirizados na Roma antiga.
O imperador Cláudio II, durante seu governo, proibiu a realização de casamentos em seu reino, com o objetivo de formar um grande e poderoso exército. Cláudio acreditava que os jovens, que não tivessem família, ou esposa, iam alistar-se com maior facilidade. No entanto, um bispo romano continuou a celebrar casamentos, mesmo com a proibição do imperador. Seu nome era Valentim e as cerimonias eram realizadas em segredo. A prática foi descoberta e Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens jogavam flores e bilhetes dizendo que os jovens ainda acreditavam no amor. Entre as pessoas que jogaram mensagens ao bispo estava uma jovem cega, Artérias, filha do carcereiro, a qual conseguiu a permissão do pai para visitar Valentim. Os dois acabaram apaixonando-se e, milagrosamente, a jovem recuperou a visão. O bispo chegou a escrever uma carta de amor para a jovem com a seguinte assinatura: “de seu Valentim”, expressão ainda hoje utilizada. Valentim foi decapitado em 14 de fevereiro de 270.
Entretanto, desde 1969 sua data não é mais celebrada oficialmente pela Igreja Católica em função da precariedade de comprovações históricas que levam em questão até mesmo a sua existência. (Daqui)



Cartão comemorativo do "Dia de São Valentim"
publicado em 1883 nos Estados Unidos.



Dia dos Namorados


O "Dia dos Namorados", em alguns países chamado "Dia de São Valentim" é uma data especial e comemorativa na qual se celebra a união amorosa entre casais e namorados, em alguns lugares é o dia de demonstrar afeição entre amigos. Sendo comum a troca de cartões e presentes com simbolo de coração, tais como as tradicionais caixas de bombons. 
Em Portugal e em Angola, assim como em muitos outros países, comemora-se no dia 14 de fevereiro
No Brasil a data é comemorada no dia 12 de junho, véspera do dia de Santo António de Lisboa, conhecido pela fama de "Santo Casamenteiro". (Daqui)


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

"O papagaio" - Poema de Sebastião da Gama


Arpad Szenes (1897-1985), Enfant au cerf-volant, óleo sobre tela, 1932



O papagaio 


Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá, bem preso à terra,
vibrando!

Aos arranques,
a fazer tremer a terra,
a querer voar
pelo ar
até pertinho do Céu…

Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá viver a sua inquietação
e ser verdade aquela ânsia
de fugir.
Não lhe cortem o cordel!
Poupem o papagaio à dor enorme
de cair,
papel inútil, roto, pelo chão.

Não lhe ensinem,
ao pobre papagaio de papel,
que a sua inquietação
é a única força que ele tem.

Deixem-no lá,
naquela ânsia de fuga,
no sonho (a que uma navalha
pode dar o triste fim)
de fazer ninho no Céu:
Sempre anda longe da terra, assim,
o comprimento do cordel…

Deixem-no lá, deixem-no lá,
o papagaio de papel!...


Sebastião da Gama
Itinerário Paralelo
Lisboa, Ed. Ática, s/d.




Arpad SzenesAutoportrait à la pupille rouge, 1924-1925, pastel s/ papel, 


Pintor de origem húngara, Arpad Szenes nasceu em 1897, em Budapeste, capital da Hungria. A partir de 1918 estudou na Academia de Budapeste, onde apresentou um especial interesse pela prática do desenho e da pintura. Procurou então conhecer e estudar as correntes artísticas de vanguarda no contexto europeu, abordando um largo espetro, desde as artes plásticas à música. 
Mais tarde viajou por vários países europeus, instalando-se em Paris em 1925. Dedicou-se à pintura e ao desenho, produzindo um conjunto de trabalhos figurativos de influência surrealista, dos quais se destaca o seu "Autoportrait à la pupille rouge", realizado entre 1924 e 1925. Estas pinturas, as menos conhecidas no contexto da sua obra, apresentam signos associados a figuras muito coloridas e assumem frequentemente um carácter agressivo e irónico.

Em 1929 Arpad conheceu a pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva (na altura radicada em Paris onde estudava pintura na Académie de La Grande-Chaumière) com quem se casa no ano seguinte.

Após o curso o artista trabalhou com Stanley William Hayter, mestre de gravura e, sem abandonar a pintura (como o testemunha a série de telas "L'enfant au cerf-volant", realizada em meados da década de trinta), executou várias gravuras de carácter surrealista.

Desde o seu casamento, o pintor deslocou-se frequentemente a Portugal, onde participou em várias exposições coletivas. Nessa altura conhece vários artistas portugueses, como Carlos Botelho, com os quais desenvolve prolongadas relações de amizade. 

Com o eclodir da Segunda Guerra Mundial, em 1939, o casal voltou para Lisboa e tentou, sem sucesso, obter para Arpad Szenes (que se tornara apátrida desde que os nazis lhe tinham retirado a sua anterior nacionalidade devido à sua ascendência judaica) a nacionalidade portuguesa. No ano seguinte os dois artistas refugiaram-se no Rio de Janeiro, no Brasil, onde permanecem até 1947. 

A partir dos inícios dos anos 50, Arpad realizou as suas obras mais conhecidas, em formato alongado, enveredando por um abstracionismo de raiz informalista, assente na utilização de cromatismos serenos mas luminosos, constituídos por ocres e outras cores suaves e quentes.

Em 1956 foi-lhe atribuída a nacionalidade francesa, assim como a Vieira da Silva.
Arpad Szenes e Vieira da Silva conviveram e apoiaram toda uma geração de artistas portugueses que, bolseiros da Fundação Calouste Gulbenkian, se instalaram em Paris a partir da década de cinquenta. Foi o caso de Manuel Cargaleiro, Costa PinheiroEduardo Luiz e dos artistas (Gonçalo DuarteJosé EscadaLourdes CastroRené Bertholo e João Vieira) que, nos finais da década constituíram o Grupo KWY, ativo em Paris até aos inícios da década seguinte. Foi nesta altura que Arpad Szenes, realizou a sua primeira exposição individual. Após da revolução de 1975 que depôs a ditadura em Portugal, tornou-se mais intensa a relação dos artistas com o país natal de Vieira da Silva. 

Autor de uma obra serena e discreta, Arpad Szenes, viu-se geralmente subjugado pelo apoio incondicional que prestou ao trabalho e à carreira da sua mulher, que obteria reconhecimento e projeção internacional a partir de 1950. O artista morreu em Paris em 1985 e, nove anos mais tarde, uma parte significativa da sua obra foi reunida pela Fundação Árpád Szenes-Vieira da Silva, criada em Lisboa em 1994. (Daqui)


Arpad Szenes, Marie-Hélène X, 1942, óleo s/ tela, 50 x 61 cm
Col. Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva



"A pintura é uma poesia muda, a poesia uma pintura que fala."

(Plutarco)


domingo, 12 de fevereiro de 2017

"Quinze Anos" - Poema de Antero de Quental


Fritz Zuber-Buhler (Swiss, 1822–1896), Daydreaming



Quinze Anos


Eu amo a vasta sombra das montanhas,
Que estendem sobre os largos continentes
Os seus braços de rocha negra, ingentes,
Bem como braços colossais de aranhas.

Dali o nosso olhar vê tão estranhas
Coisas, por esse céu! e tão ardentes
Visões, lá nesse mar de ondas trementes!
E às estrelas, dali, vê-as tamanhas!

Amo a grandeza misteriosa e vasta...
A grande ideia, como a flor e o viço
Da árvore colossal que nos domina...

Mas tu, criança, sê tu boa... e basta:
Sabe amar e sorrir... é pouco isso?
Mas a ti só te quero pequenina!


in "Sonetos", 1861


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

"Elegia por antecipação à minha morte tranquila" - Poema de Armindo Rodrigues


Winslow Homer (American, 1836-1910),  The Hudson River, 1892



Elegia por antecipação à minha morte tranquila 


Vem, morte, quando vieres. 
Onde as leis são vis, ou tontas, 
não és tu que me amedrontas. 
Troquei por penas prazeres. 
Troquei por confiança afrontas. 
Tenho sempre as contas prontas. 
Vem, morte, quando quiseres. 



(1904-1993)



Winslow Homer (American, 1836-1910), The Life Line, 1884



"Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida."

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

"Testamento" - Poema de Manuel Bandeira


Charles Spencelayh (British, 1865–1958), That Damned Cat



Testamento


O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!




quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

"Juventude" - Poema de Pedro Homem de Mello


Franz von Defregger, Going to school, Date unknown 



Juventude


Lembras-te, Carlos, quando, ao fim do dia, 
Felizes, ambos, íamos nadar 
E em nossa boca a espuma persistia 
Em dar ao Sol o nome do Luar? 

Tudo era fácil, melodioso e longo. 
Aqui e além, um súbito ditongo 
Ecoava em nós certa canção pagã. 

Contudo o azul do mar não tinha fundo 
E o mundo continuava a ser o mundo 
Banhado pela aragem da manhã!... 


in "O Rapaz da Camisola Verde"




OneRepublic - Good Life



terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

"Perdi-me por amor" - Poema de José Agostinho Baptista


Federico ZandomeneghiThe last chance, c. 1890



Perdi-me por amor


Perdi-me por amor,
fui aquele que procurava a casa do coração e
a luz, mas agora,
prisioneiro da bruma, junto ao altar,
penso
nas manhãs em que voava para longe,
ao lado dos irmãos.

Penso em quase todas as flores que vi nos
canteiros do céu,
penso nas mãos que estendiam as formas do
centeio e do trigo
para a minha boca.

E os meus olhos que viram os deslumbrantes
cristais do mundo
baixaram as suas pálpebras sobre a noite da
terra,
sobre os sepulcros abertos.

Não sei onde sepultarão os meus ossos,
onde soltarão ao vento as minhas cinzas.
Sei apenas que perdurarei no murmúrio dos
teus lábios
e nas pedras onde me sentei e chorei.

Pouco tempo me resta para contar aos filhos
que não tive
o fulminante desejo das viagens.
E hoje,
entre estas quatro paredes de cal mutilada,
quando chove por dentro, para sempre,
só te posso dizer adeus.


'Esta voz é quase o vento'
Assírio & Alvim, 2004 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

"Tão pouco sentimento é a emoção" - Poema de António Franco Alexandre

domingo, 5 de fevereiro de 2017

"Sempre" - Poema de Pablo Neruda


Arnaldo Ferraguti (Italian, 1862-1925), The Expectation



Sempre 


Ao contrário de ti 
não tenho ciúmes. 

Vem com um homem 
às costas, 
vem com cem homens nos teus cabelos, 
vem com mil homens entre os seios e os pés, 
vem como um rio 
cheio de afogados 
que encontra o mar furioso, 
a espuma eterna, o tempo. 

Trá-los todos 
até onde te espero: 
estaremos sempre sozinhos, 
estaremos sempre tu e eu 
sozinhos na terra 
para começar a vida. 


in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"


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