sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

"Hino à Beleza" - Poema de António Feijó


Federico Andreotti (1847-1930), “A Moment's Reflection”



Hino à Beleza


Onde quer que o fulgor da tua glória apareça, 
— Obra de génio, flor de heroísmo ou santidade, — 
Da Gioconda imortal na radiosa cabeça, 
Num ato de grandeza augusta ou de bondade, 

— Como um pagão subindo à Acrópole sagrada, 
Vou de joelhos render-te o meu culto piedoso, 
Ou seja o Herói que leva uma aurora na Espada, 
Ou o Santo beijando as chagas do Leproso. 

Essa luz sem igual com que sempre iluminas 
Tudo o que existe em nós de grande e puro, veio 
Do mesmo foco em mil parábolas divinas: 
— Raios do mesmo olhar, ânsias do mesmo seio. 

Alta revelação que, baixando em segredo, 
O prisma humano quebra em ângulos dispersos, 
Como a água a cair de rochedo em rochedo 
Repete o mesmo som, mas em modos diversos. 

É audácia no Herói; resignação no Santo; 
Som e Cor, ondulando em formas imortais; 
No mármore rebelde abre em folhas de acanto, 
E esmalta de candura a flora dos vitrais. 

Ó Beleza! Ó Beleza! as Horas fugitivas 
Passam diante de ti, aladas como sonhos... 
Que importa onde elas vão, doutra força cativas, 
Se o Infinito luz nos teus olhos risonhos?! 

Abrem flores, cantando, ao teu hálito ardente, 
Brilham as aves como estrelas, e as estrelas, 
Como flores enchendo a noite refulgente, 
Deixam-se resvalar sobre quem vai colhê-las... 

És tu que às ilusões dás juventude e forma, 
Tu, que talvez do céu, de onde vens, te recordes 
Quando, a ouvir-nos chorar, a tua voz transforma 
Dissonâncias de dor em imortais acordes. 

Vejo-te muita vez, — luz de aurora ou de raio,— 
Como um gládio de fogo a avançar no horizonte; 
Ou então, em manhãs transparentes de Maio, 
Náiade toda nua a fugir duma fonte. 

Outras vezes, de noite e a ocultas, apareces, 
Como ovelha que Deus do seu redil tresmalha, 
Trazendo no regaço inesgotáveis messes, 
Que Ele por tuas mãos sobre a miséria espalha... 

Pudesse eu revelar-te em estrofes aladas, 
Que partissem ao Sol refulgindo em lavores, 
Com rimas de oiro, em talau e púrpura engastadas, 
Como versos que vão desabrochando em flores! 

Mas a língua não é sumptuosa bastante 
Para nela deixar teu génio circunscrito; 
Trago-te dentro em mim, sinto-te a cada instante, 
E a voz nem mesmo tem a eloquência dum grito! 

Mas se para o teu culto, em esplendor externo, 
Não encontro uma prece altamente expressiva, 
Por ti meu coração arde dum fogo eterno, 
Como chama a tremer de lâmpada votiva! 


António Feijó, in 'Sol de Inverno'


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