quinta-feira, 9 de março de 2017

"José Afonso" - Poema de Hélia Correia


Amadeo de Souza-Cardoso, Vida dos Instrumentos, 1916





Em louvor da desordem. 
Exaltando 
o vinho e os seus fermentos. 
Em louvor dos motivos 
e em louvor 
da pura insensatez, 
nos sentaremos nós ouvindo este homem, 
atravessados pelo seu galope. 

Como a uma criança, aconchegamos tudo aquilo que ele amou. 
Tudo o que é térreo 
e sujo 
e sorridente, 
e oferece o rosto 
de chapão à luz. 
Coisas que nos deslizam sob a pele disparando calor. 
Regendo as linhas 
fundamentais da vida. 

Há um nó de caminhos onde este homem 
se pôs a esconder pólvora e sementes, 
calendários rurais. 
Dele não pode falar-se sem que se ouça 
a espantosa alegria. 
Sem que de novo bata pelos sítios 
o eco de um tambor, 

É bem possível 
que a canção vele, oculta nas cidades. 
Que se incline nos nossos pensamentos 
como um espelho lunar, 
duro e pacífico. 
E sob o seu olhar nos desloquemos 
por entre a turbulência. 
E dela venha um íntimo sentido 
e o seu ardor nos saiba 
conduzir. 

Pois deste homem ficou o ofício. 
Os meios. 
Sabemos de que modo se levantam 
as pedras sobre as pedras. 
Sabemos de que modo as aguçar. 

Existe anda 
um cordão de linguagens. 
Vibra teimosamente o ar, movido por sopros e até mesmo
por fadigas.
E a sua voz empurra e alimenta essas circulações.
É o vento do sol
que permanece.






Zeca Afonso (José Afonso) - Vejam Bem
"Cantares do Andarilho" (1968)



"Cantar, dizem, é um afastamento da morte. A voz suspende o passo da morte e, em volta, tudo se torna pegada da vida." 


in  'Na berma de nenhuma estrada e outros contos'



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